domingo, 25 de setembro de 2016

Radar - Parte 3

Capítulo 4 - Um pouquinho de chororô

 Julie, Julie, Julie... saudades dela. É, saudades. Eu não sou o ser insensível que pensam que sou. Bom, talvez um pouco. Mas eu realmente gostava dela. Éramos amigos, embora nunca dissemos isso um ao outro. Sei lá, talvez não precisasse. Ou precisasse, e ela foi embora justamente por isso. Enfim, queria vê-la novamente. Tentar entender o que levou ela a sumir daquela forma. Procurei-a durante semanas, e nada. Até que desisti. Provavelmente, ela já havia saído da cidade, e um jovem desempregado que vivia por aí vestido com um uniforme vermelho ridículo e ouvia vozes pedindo socorro a cada 15 minutos não tinha como sair dali. Ou talvez tivesse, se soubesse voar, o que não era o meu caso. Sei que os irritei, como sempre, mas precisava deste pouquinho de chororô (Sei lá, vai que vocês passam a torcer por mim, agora..). Agora sim, finalmente, ao que interessa partiremos. Não vou aqui me perder em memórias, dos últimos 10, 12 anos, porque não aconteceu nada de muito interessante. Claro que mais interessante do que tudo que vocês aí fazem, mas monótono demais, pra mim. Apenas resolvendo os pequenos delitos aqui nessa porcaria que alguns ousam chamar de cidade. Até um mês e pouco atrás, quando apareceu, na porta da delegacia, uma criança morta. Era uma menina, devia ter uns 10 anos. Não tinha um braço, e não possuía roupa nenhuma. Terrível, terrível, um crime terrível. E eu só fui saber junto com o resto da população, nos jornais. Eu não tive como impedir essa barbaridade, nem senti a pobre garota gritar. Só quero saber quem foi o filho da puta que fez isso com a garota e bloqueou meus poderes, pra matar o desgraçado. E ainda tem o tal grupinho novo que apareceu na cidade, que eu não consigo encontrar. Já recebi dois convites misteriosos para encontrá-los. Não fui na primeira data marcada, pois pensei que poderia ser uma armadilha. A cidade pôs a culpa da morte da garotinha em mim e todos ainda estão querendo me matar. Enfim, talvez eu vá na data que está no segundo convite. Ainda não sei. Me parece que a coisa é séria, mesmo.

Capítulo 5 - Capas sujas e bons livros. Ou será que é o contrário?

 E lá fui eu, encontrar os caras, tarde da noite, numa fábrica abandonada nos limites da cidade. Cara de armadilha pura. Eu tava ferrado, com certeza. Já estava preparado pra correr de uma multidão enfurecida com tochas na mão, como se eu fosse Frankenstein. Mas.. já ouviram aquela frase "Não julgue um livro pela capa"? Pois é.. era verdade, afinal. Não haviam tochas, pedras, tampouco uma multidão. Enfurecida, muito menos. Haviam 2 rapazes e uma garota, me esperando. Todos com uniformes coloridos, um tanto bizarros. É, mais bizarros que o meu. Eles se apresentaram, bem educados. Um dos rapazes, que, aparentemente, era o líder deles, dizia se chamar Kyle. Rapaz negro, vestes negras, e possuía o poder do teletransporte. Era um ninja. O outro, ruivo, com cara de babaca, chamado de "Ferrugem", apenas (aparentemente, não gostava de seu nome, porque, preferir ser chamado de "Ferrugem" é brincadeira.), tinha a capacidade de destruir equipamentos eletrõnicos com a mente. Tomar cuidado para nunca irritá-lo, se não, posso acabar perdendo o Radarfone (um celularzinho barato que pintei de vermelho e por onde aviso à polícia sobre locais de crimes). A menina, loira, e, que Deus não me puna por isso, mas que é bem gostosa (não me entendam tão mal. Ela já deve ter 18 anos, mas é que eu não sou lá muito novo, mais. Enfim..), pode transformar-se... em líquido (ô poderzinho..) e se chama Christie. Perguntei-lhes o que queriam e obtive como resposta o seguinte: "Queremos que pare de tentar tomar nosso lugar". QUe merda é essa?! ELES é que tomaram MEU lugar! Eu ajudo essa cidade há anos! Não vai ser um grupinho de merda que vai me tirar do meu lugar! Gritei tudo isso (e mais algumas outras coisas, que não transcreverei, pois crianças podem estar lendo isto), e uma discussão começou. Agora, agradeço a qualquer força divina que tenha me ajudado, por aquelas crianças não terem usado seus poderes. Eu não queria ter que arrebentar dois moleques e a bonitinha. Se bem que era mais provável que eu saísse arrebentado. De repente, ouviu-se uma voz feminina, ordenando silêncio. Me virei em direção à voz e vi uma mulher mascarada. Dava pra ver apenas seus longos e negros cabelos. E um pouco de sua testa. Enquanto falava, ela terminava de colocar uma luva na mão direita. "Perdoem o atraso, crianças. Nosso convidado já ouviu nossa proposta?". Kyle fez um sinal afirmativo com a cabeça. A mulher lhe dava medo. "E ele a aceitou?", perguntou a mulher. "N- não, Sonífera", o moleque respondeu, gaguejando. Sonífera... isso lá é nome de heroína? "Deixem- me a sós com ele, pessoal. Tenho certeza que agora Radar e eu entraremos num acordo". O trio retirou-se rapidamente, e, naquela sala imunda, agora, apenas eu e a "Sonífera". "Quanto tempo, não, Radar? Faz o quê, 10 anos?", ela me perguntou. Parei por um tempo, analisando-a. Eu conhecia aqueles cabelos. Conhecia a voz, mesmo que tivesse mudado um pouco, com o tempo. E, as luvas... claro, as luvas. "Não. Faz 15 anos, Jules, desde o dia que você partiu". "Como me reconheceu?". "As luvas", respondi. "As luvas azuis... eu que te dei, lembra? Uma semana antes de você ir embora". Ela olhou para as próprias mãos. "Achei que não fosse se lembrar", e retirou a máscara, me deixando ver seu rosto. Praticamente o mesmo, que eu não via há 15 anos. "Senti sua falta", começou a dizer, se aproximando de mim. Eu, como o bom pateta que sou, fiquei paralisado. "Eu não queria ter ido embora, mas... ah, depois eu te conto. Você sabe que, quando são dadas as respostas, tudo perde a graça". Julie riu e me beijou. Em seguida, pôs uma das mãos em meu rosto. Sem a luva. "Merda", foi a última coisa em que pensei, antes de apagar.

Radar - Parte 2

Capítulo 2 - Mais algumas considerações sobre meu início, que meu problema de memória não me deixou citar antes. Ou pelo menos eu espero que tenha sido isso.

 Prometi que voltaria, e voltei. Disso vocês não podem se queixar. Eu pelo menos cumpro as promessas que faço. Ou pelo menos a maioria. Enfim, vamos lá. Onde eu parei mesmo? Ah, sim, claro, o começo de tudo. O surto na escola, o assalto à banco, a pancada na cabeça, cicatriz, hospital, blá blá blá. Lembrei. Bom... mas o que eu ia contar mesmo, agora, só pra adiar mais um pouquinho o que interessa ( É, claro, vou manter vocês presos aqui até a hora que puder) ? Ah, tá, lembrei, agora sim, vou contar, antes que aquele pessoal que parou de ler na primeira frase e voltou depois mude de ideia novamente. Eu disse anteriormente que trabalhava desde aquele dia, mas não foi bem assim, claro. Um moleque de 8 anos não ia pegar a cortina de casa, amarrar nas costas e sair por aí, salvando as pessoas, todo fodão. Era minha vontade, mas meus pais não deixaram. Pensando bem, se eles tivessem deixado, eu não ia estar aqui hoje, com certeza. É, eu sou um tanto "sem noção", acostumem-se. Acho que todos esses anos não conseguindo dormir direito por causa de pedidos de socorro em minha mente me deixaram louco. Aquela coisa, que o tio do Homem Aranha diz, na última conversa com ele antes de morrer. "Com grandes poderes, vem grandes responsabilidades". Responsabilidades que eu sabia que existiam, mas não pude assumir de imediato. E isso me frustrava. Foi quando apareceu um velhinho sinistro, um tempo depois, sei lá, uns dois, três anos, lá em casa, dizendo que iria me preparar para assumir minhas responsabilidades, e que possuía um dom, que iria ajudar o mundo. Meu sonho. Claro, não salvar o mundo, porque, me perdoem a sinceridade, mas eu não estou nem aí pro resto do mundo. Ninguém se importa com os outros nesse planetinha miserável, mesmo. Enfim, voltando... meu sonho, era aprender a utilizar minhas habilidades. Não só pra poder dormir em paz, mas também porque, vamos lá, era legal ser o único da turma que fazia algo de interessante. E lá fui eu, saí da casa dos meus velhos, e fui morar com o mais velho. Foi bacana, devo admitir, o tempo que lá passei. O velho possuía uma habilidade um tanto.. sinistra. Ele podia ter qualquer coisa, se mentalizasse. Inclusive... matar. Eu vi, uma vez, Boris matando um funcionário, por algum motivo que até hoje desconheço. Ele me ensinou a controlar as vozes na minha cabeça, e a lutar, também. Reconheço agora que ele fracassou na última parte, mas, pelo menos, me ajudou, o coroa. Passei 5 anos em treinamento, até começar a agir 'profissionalmente" como Radar. Isso já faz 15 anos... caramba, como o tempo passa rápido. Falando nisso... nunca mais vi o coroa. Será que ainda está vivo?

Capítulo 3 - E agora, Vambora?

 Passado todo aquele blá blá blá do início de minha carreira, vamos ao que interessa. Ou não, se você não quer saber. O que eu sinceramente duvido, perdoe-me a falta de modéstia. Vocês querem sim, saber da minha vida. Porque ela é mais interessante que as vidas de vocês. Me desculpem, mas é a verdade. Agora que irritei muitos e talvez tenha feito rir alguns outros poucos, vou parar de enrolar. Mas, para isso, vou ter que voltar no tempo, mais uma vez. Não se irritem, é só um pouquinho. Voltar ao ponto em que deixei a casa do velho, com meus 15 anos, há 15 anos atrás (Eu já disse que sou velho). O que eu fiz, quando saí de lá? Voltei pra minha casa? Não. Nunca mais voltei. Nunca mais vi meus pais. Mas creio que estão vivos. Pelo menos, nunca ouvi nenhum chamado deles, então prefiro acreditar que estão seguros. Bom, e o que eu fiz, então? O que me restava. Morar nas ruas. Não era fácil, ser um adolescente mascarado com poderes, que mal sabia quem era. É. Depois que saí da casa do velho, eu passei a ser o Radar 24 horas por dia. Passei 5 anos só sendo chamado de Radar. Tanto que esqueci meu nome. Ou talvez tenha esquecido antes, com aquela pancada, naquele tempo que passei no hospital, vocês sabem do que estou falando. Enfim.. O velho dizia que eu deveria esquecer toda minha vida de antes, e foi o que fiz. Sou Radar, apenas Radar, desde então. Voltando, mais uma vez, passei meses perambulando sozinho pelas esquinas dessa cidade imunda, resolvendo os problemas de todos, menos os meus. Ás vezes algumas pessoas que eu havia ajudado me deixavam dormir em suas casas, comer de sua comida, mas não era tão legal assim. Eu me acostumava com aquelas pessoas, e ia embora logo depois, pra resolver os crimes. Chegava a passar dias sem comer direito. É, não é fácil, essa vida de super herói. Crianças, não tentem isso em casa. Mas isso mudou quando ajudei uma garota, que também era super poderosa. Julie, seu nome. Era legal, tinha uma habilidade interessante (Ela podia fazer as pessoas apagarem por algumas horas, apenas com um toque, quando quisesse) e... era uma gata. Os pais dela me deixaram morar na casa deles por dois, três anos, e foi um bom tempo, tirando o fato de Julie nunca ter me dado bola, embora eu tentasse algo, a cada semana. Bom, era o que eu pensava. Quando comuniquei que estava para ir embora, ela ficou diferente, estranha. Isso significava alguma coisa, embora, na época, eu, lerdo que sempre fui, não tivesse notado. Na minha última noite lá, fui acordado, por ela, dizendo que, se eu fosse embora mesmo, ela queria ir junto, com uma mala na mão. Ela estava louca, claro. Mas não desistiu. Surpreendeu os pais na manhã seguinte, quando comunicou que também iria embora, junto comigo, enquanto eu cruzava a porta. Passou por mim, chorando, e parou em minha frente, do lado de fora de sua casa. "E agora, vambora?", ela perguntou. E lá fomos nós, dois jovens sozinhos pelas ruas. Passamos duas semanas assim, só nós dois, resolvendo os crimes, juntos. Era bem mais fácil lutar quando alguém que fazia os inimigos dormirem estava do seu lado. Até que um dia eu acordei, e ela havia sumido. Nenhum bilhete dizendo para onde tinha ido, nem nada. Ela havia ido embora e levado todos os seus pertences. Nunca mais a vi.  

Radar - Parte 1

Há muito tempo, numa galáxia muito, muito dist... Não, não, foi aqui mesmo, na Terra. E faz um mês, mais ou menos. Então, ignorem aquele comecinho. Enfim... Alguns podem não acreditar, alguns outros (talvez todos) podem rir, mas eu sou um super herói. É. Super Herói. Com direito à capa, e tudo mais. Tá, admito, não sou tão Herói assim. Só um pouquinho "Super". Me deixem me gabar um pouco, ora bolas. Eu tenho poderes, e vocês não. Tá, conheço alguns outros humanos com habilidades únicas, mas deixemos isso pra depois (Faz parte do clímax da história, que graça tem contar agora, não é?). Descobri minhas habilidades logo cedo, com meus 7, 8 anos. Agora, aqueles que começaram a rir ali em cima, já devem ter se controlado, e devem estar se perguntando que porcarias de habilidades eu possuo. Acalmem-se, lhes digo já. Eu consigo sentir onde crimes ocorrem. Eu sei, só sirvo como radar, não tenho lá muita habilidade na hora da pancadaria, mas eu tento, sou esforçado, me dêem um desconto. Bom... e daí?, vocês se perguntam agora, com certeza. E daí que, como eu disse acima, faz mais ou menos um mês, crimes horrendos começaram a ocorrer aqui, em minha cidade. Coisas estranhas demais. E, o mais estranho, é que eu não consigo sentir nada. Algo bloqueia meus poderes, aparentemente. Na verdade, me perdoem, isto não é o mais estranho. O mais estranho, de verdade, é que alguns crimes são evitados, e não por mim. É, pois é. Quem ousa tomar meu lugar? Eu ainda não sei direito.. sei que é um grupo, um tanto sinistro, que se intitulam "Os Salva Vidas". Nomezinho ridículo, mas eles até que são bons. Bons. Bem bons. Tá, admito, melhores, bem melhores que eu. Eu preciso achar esses caras. Talvez trabalhar com eles, sei lá. Só sei que não posso ficar parado. Não tenho emprego, não tenho família... ganho um dinheirinho da polícia, quando os ajudo, apenas. E, claro, meus fãs. Não posso decepcionar meus... A quem estou querendo enganar? O Radar não tem fãs. O Radar não tem nada. O Radar só quer salvar sua carreira fracassada de super herói que salva gatinhos em árvores.

Capítulo 1 - O começo... eu acho.
 Bom, como todos sabem, todo herói que se preza tem uma origem bacana. Não que ter os pais mortos ou acabar entrando num local cheio de radiação seja bacana, mas é.. interessante, no mínimo. Pelo menos, mais interessante que minha origem. É, além do meu poder ridículo, minha origem é ridícula. Pra falar a verdade, eu não lembro muito bem como foi. Sei lá, um dia, estava eu, uma pobre criança em idade escolar, brincando com os amiguinhos, quando veio um grito. Dentro da minha cabeça. "Putz, deu merda", eu pensei na hora. Mentira. Na minha época, criança não pensava essas coisas, mas, se fosse hoje, certamente eu pensaria isso. Putz, deu merda. E deu merda mesmo. Pelo menos pra mim. Não me lembro direito, mas me contam que eu surtei, no pátio do colégio. Imaginem uma criança esperneando, por não entender o que tava acontecendo. Imaginaram? Pois bem... não era assim que eu estava. Desde garoto eu sou meio... como posso dizer? Transgressor. Nunca gostei de seguir regras. Irônico, não? Enfim, voltando ao relato da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais. Olha só, eu fazendo poesia. Me perdoem novamente, eu divago demais. Como eu dizia... Eu acabei fugindo da escola. É, isso aí, um molequinho de 8 anos pulou o muro e achou que poderia lidar com bandidos. Essas crianças que se acham o Batman... aiai. Pois bem, graças àquilo que eu não entendia na época, cheguei no local, mesmo sem saber direito como. Até hoje não entendo, mas acostumei. Assalto à banco. Que merda. 4 caras gigantescos, armados, invadindo um banco, e um moleque baixinho, magricelo e desengonçado querendo fazer algo. E aquele moleque FEZ algo. Loucura, mas é verdade. Em 2 minutos, lá estava eu, dando pisões nos pés dos caras. Me apagaram depois, claro. Ainda tenho a cicatriz da metralhadora que um dos retardados bateu na minha cabeça. Acordei algumas semanas depois, numa cama de hospital, sem conseguir lembrar de metade da minha curta vida, até então. Mas, acho que até me saí bem. Soube que os caras foram presos. O crime dos brutamontes tatuados foi meu primeiro trabalho. Meu primeiro crime solucionado. Trabalho desde então, com isso. Depois eu volto, e conto mais. Quero deixá-los curiosos, vocês sabem disso.

Deveria ser uma comédia, mas nem é uma história tão engraçada assim - Parte 4

 Quando chegou a noite de quarta-feira e eu entrei no hotel onde dois dos meus grandes amigos estavam hospedados, pensei outra vez, e percebi que poderia ter deixado esse evento de lado. As definições de “reuniãozinha” de Abraham e Stephen havia sido um pouco... modificadas ao longo do tempo. Filhos da puta.
Eles armaram uma festa.
No hotel inteiro. Na porra do hotel inteiro.
Como se o fato dos dois serem podres de ricos já não fosse óbvio, os dois fecharam o hotel só pra eles. E organizaram um evento, pra divulgar o novo projeto de Stephen. Projeto este no qual eu havia acabado de ser chamado pra roteirizar. Nem assinei contrato nem nada ainda, e o cara já tá me botando em furada. Puta merda.
E, pra completar, eu trouxe a minha irmã.
- Stephen tá de sacanagem... - Ouvi Mary resmungar, e fui obrigado a concordar. Depois de alguns minutos, encontramos o mais velho dos irmãos.
- Que diabos é isso? Qual o problema de vocês?!
- Ei, relaaaxa, cara... É só uma festinha, vai se divertir, rapaz – Respondeu um embriagado Abraham.
- Onde tá o Stephen? Vou falar com ele e voltar pra casa.
- Ele... Ãh... Tá por aí, cara... E, sei não, mas acho que você não vai deixar a Mary aqui sozinha, né?
Eu não havia percebido, mas Mary já não me acompanhava. Agora minha querida irmã mais nova se encontrava bebendo, e dançando com um cara qualquer. Voltei a ver uma Mary Ann adolescente.
Ótimo. Precisava encontrar Stephen, torcer pra ele estar sóbrio, e depois convencer Mary a voltar pra casa. Tarefas fáceis, noite agradável. É sempre uma merda ser o chato da festa.
O hotel estava abarrotado de gente. Em cada andar, gente bêbada tropeçando, um ou outro quarto sendo usado... Maldito elevador parado. Tive que subir de escadas até a cobertura, para achar Stephen. Algum casal que não percebeu os quartos vazios, suponho.
Quando o encontrei, ele conversava com alguém, provavelmente um jornalista, a julgar pelo seu gravador. Sóbrio, graças a … Graças a ele mesmo e sua opção de dar entrevistas sem estar bêbado mesmo estando numa festa, eu acho.
-... Ah, e aqui está o cara que vai dar início a tudo isso. Chega aí, James, vem dar uma palavrinha.
Desgraçadinho.
Entrei no quarto, e pude ver o jornalista claramente, já que antes ele estava de costas. Andrew Stanford, ex colega de trabalho. Criou seu website e hoje é conhecido como “grande jornalista especializado” em cinema. Um jornalista de merda, mas um cara legal. Acho que o espanto dele em me ver foi maior do que o meu em vê-lo. Bem maior. O cara levantou e me puxou pra um abraço.foi Um abraço eu ganho, mas a porra duma proposta de emprego no site, nada, né. Babaca.
Antes que Stephen pudesse soltar alguma gracinha – algo típico dele -, me desvencilhei de Andrew e comecei a falar.
Mas só comecei mesmo.
A verdade é que sou um roteirista iniciante ainda não oficialmente contratado pra refazer um trabalho de outro roteirista, que ainda não li. Se a entrevista não for sobre isso, eu sei o que falar. Na maioria das vezes.
- Ãh... preciso falar com meu camarada aqui em particular, nos vemos depois na coletiva, beleza? - Stephen falou, dirigindo-se a Andrew, assim que percebeu minha falta de assunto. Pena que foi um pouco tarde, e devo ter feito papel de idiota na frente de um cara mais jovem que já foi meio que um subordinado meu. Nunca fui um dos cabeças, mas o cara me ouvia.
Quando Andrew saiu, fechando a porta, Stephen retomou a fala.
- Curtindo a festa, jornalista? - Ele riu. Eu não.
- Não entendo o porquê da festa. Achei que iríamos apenas acertar meu contrato, e eu iria enfim ter uma ideia do que exatamente vou fazer. Aliás, assim que resolvermos isso, eu vou embora. A festa não é minha.
- Hahah, claro que é sua, Jim. Seu aniversário... Lembra? Trinta anos, e tal?
Claro que eu lembro do meu aniversário, sempre cinco dias depois de Mary Ann. Meus aniversários a partir dos seis anos nunca mais foram os mesmos. Sempre comemorados no mesmo dia de Mary Ann, “para economizar”, meus pais sempre disseram. Cresci sem dar a mínima para a data, mas chegar aos trinta era uma ideia que me incomodava, por algum motivo que eu ainda não conhecia. Quase fiquei puto com Stephen, mas me segurei.
- Eu não pedi festa nenhuma, só vim oficializar a proposta de trabalho que você me fez.
- Deixa de ser rabugento, guri. Vamos aproveitar sua festa, e amanhã a gente resolve isso. Prometo. Não tenho poder nenhum sobre seu contrato, isso é com o estúdio, e um almoço tá marcado pra amanhã. Vamos descer, responder uma meia dúzia de perguntas, e beber até não poder mais. - Uma breve pausa. - Bom, essa última parte, deixa comigo.
E eu continuava sem saber absolutamente nada do meu futuro trabalho.
Por enquanto.
Descemos, Stephen e eu, até uma das salas de conferência que o hotel disponibilizava, onde ia rolar a bendita coletiva de imprensa. É um belo hotel, Abraham fez um bom trabalho. Stephen fez um ainda melhor, comprando-o.
A coletiva foi breve, e não muito informativa. Por sorte, não fui obrigado a responder nada. Essa é a sorte de ter um amigo que gosta de falar. Ele fala por dois.
E foi então que finalmente descobri no que eu estava me metendo.
- Uma trama espacial com violência, robôs gigantes, viagens no tempo, samurais e mulheres sensuais seminuas – Definiu Stephen quando perguntado sobre uma sinopse de seu próximo projeto.
Um episódio de Doctor Who com duas horas de duração, com classificação indicativa pelo menos 16, e mais dinheiro.
Puta que pariu.

Deveria ser uma comédia, mas nem é uma história tão engraçada assim - Parte 3

 A conversa acabou não sendo TÃO séria assim. A situação já tava razoavelmente esclarecida, afinal.
- Olha, sobre ontem à noite... - Eu iniciei. Talvez pela primeira vez na vida após uma briga com Mary. Ou segunda, não sei.
- Me desculpa, Jim. Eu devia ter contado antes – Disse ela, quase ao mesmo tempo. Fiquei surpreso.
Era a primeira vez que eu precisava me justificar. E era a primeira vez que Mary era quem se desculpava. Eu sabia que um dia isso ia acontecer. Eu sabia!
- Mas fui eu quem... - Cala a boca, idiota. Ela pediu desculpas. Você venceu uma briga com sua irmã mais nova, depois de vários anos. Seu bosta. U-ha.
- Você foi um babaca, mas eu sei que devia ter contado antes. Ou Paige.
- Não. Você devia. Não sei pra quê envolver a Paige nessa história. A merda é sua, Mary Ann.
- Não começa de novo, James. Eu errei, tá?! Não quero que você conte pro pai e pra mãe. Não agora. Por favor. - Ah, claro, uma súplica desesperada. Ela não ia admitir o próprio erro por nada. Típico.
- E por quê não? A filha deles vai casar, eles meio que precisam saber. Não é?
- Você sabe muito bem o que me fez vir morar com você, e sabe que eles jamais aprovariam se eu contasse a eles assim, do nada.
- Como foi ontem comigo? - É bom aproveitar as chances que surgem de provocá-la. Sempre foi divertido. Ela não respondeu.
Ops.
- Você vai contar? Ah, meu Deus, você JÁ contou, né? Seu... Seu...
Caí na gargalhada, óbvio.
- Você acha mesmo que vou contar algo a eles? Mary, eu não falo direito com nosso pai há anos, desde... Você sabe. Betty.
Elizabeth foi uma secretária de meu pai. Sua amante, também. Eu descobri o caso dos dois, e... Iniciei uma relação com Betty. Já fazem cinco anos. Mamãe até hoje não sabe do romance do velho com a secretária. O velho ficou puto, mandou ela embora da empresa, e ela teve que voltar pra cidade dela. Pensando bem agora, acho que já tô fora do testamento. Pobre James.
- Relaxa, garota. Você tá segura. Por enquanto. - E esse sou eu, sendo legal com a pessoa que tenta me matar desde que aprendeu a falar.
E aí aconteceu algo meio esquisito. Na minha família, pelo menos, era a coisa mais anormal do mundo. Mary Ann me abraçou. Rapidamente. Bem rapidamente, devo dizer. Ela também sabia que era estranho.
- Ãh...
- …
- … Você vai ficar em casa hoje?
- Hm... Vou. Vou, sim. Michael tá com o namorado, e o pessoal até queria me arrastar pra um show da banda do novo namoradinho de Sylvia, mas... É, vou ficar por aqui hoje, acho. E você? Vai sair?
- Ãh... Sim, como sempre. - Até ela riu.
Mary, então, depois de alguns segundos de silêncio desconfortável, se sentou no sofá e ligou a televisão. Na tela, começava um filme meio antigo, daqueles de ação mal feitos dos anos 80. Me juntei à minha irmã. Sempre gostei de tosqueira. Uma hora e meia depois, a tosqueira acabou e deu lugar a um desses filmes indies de romance que fazem sucesso hoje em dia. Bem bacana, até. Até a parte em que adormeci. Despertei apenas no meio da madrugada, no escuro, sozinho. Fui para meu quarto.
O dia seguinte correu como qualquer outro domingo. Absolutamente nada aconteceu, e cada hora parecia demorar o triplo do tempo pra passar.
Se há um dia que deva ser detestado, que pede, que implora, grita, esperneia tal qual uma criança que deseja a porra do brinquedo mais caro da merda da loja “POR FAVOR, ME ODEIEM!”, esse dia é o domingo. Não há como simpatizar com um dia em que aquilo que você aguarda a semana inteira pra fazer é tirado à força por uma placa que diz “fechado aos domingos”. O pouco que funciona não fica aberto o dia inteiro. Talvez eu deva experimentar acordar mais cedo no próximo domingo... Nah.
Na segunda, enfim, voltei à rotina. Stephen não havia falado mais nada depois do telefonema, então presumi que devia esperar. Mary Ann já não estava em casa quando saí pra redação. Ainda é estranho pensar numa garota que fez tanta bobagem sendo uma adulta responsável e dando aula pra um bando de criancinhas de 5 anos.
Não encontrei Paige na redação, durante as primeiras três horas de trabalho. Descobri depois que ela foi designada pra cobrir a investigação da morte de um dos chefões do tráfico de drogas da cidade, enquanto eu fiquei aqui, “garimpando” notas em sites de celebridades pra depois copiá-las descaradamente e publicá-las no jornal. Sortuda, essa Paige. Ainda bem que nunca precisei assinar nenhuma dessas notas.
Quando ela voltou pra redação, aproveitei pra fazer um breve intervalo. Chega de escrever sobre términos de namoro e gente bêbada fazendo o que não deve.
- E aí, o quê tá rolando?
- Suicídio ou assassinato. Nada demais. Como estão as coisas em casa, Jim? - “Nada demais”. O fodão do crime provavelmente foi assassinado por um de seus inimigos, e ela acabou de dizer “Nada demais”. Parece que ela não sabe o tamanho da merda que isso pode dar.
- Tá tudo certo agora. E eu aceitei a proposta do Stephen. Vou tentar seguir fazendo as duas coisas, mas, se eu não der conta, pulo fora daqui. Se eu tiver que voltar depois, quero sua vaga, já vou logo avisando... - Brinquei. Ela não riu. Pessoinha rabugenta.
A conversa teria continuado, mas parou naquele instante, após o chefe de Paige chamá-la em sua sala. Um dia cansativo a esperava.
Algum tempo depois, enquanto eu estava em meu segundo intervalo, meu celular tocou. Era Abraham, irmão de Stephen.
- E aí, camarada, que tal uma reuniãozinha quarta à noite? Stephen quer falar com você.
Eu sabia exatamente o que significava essa “reuniãozinha”. E eu não tinha a menor intenção de recusar o convite.

Deveria ser uma comédia, mas nem é uma história tão engraçada assim - Parte 2

E acabou que eu gritei. E, ainda pior: Usei algo que eu sabia que ia irritá-la profundamente. Algo que sempre iria irritá-la. Seu nome completo.
- Que merda é essa, Mary Ann?!
Pensando bem, essa foi uma péssima ideia. Mary, chorando, correu pro quarto dela, enquanto o restante ficou me encarando. Paige e Michael de maneira bastante enraivecida. Senti que devia falar algo, mas também que, se eu abrisse minha boca mais uma vez, não sairia vivo dali.
- Qual é o seu problema, James?! - Gritou uma voz masculina, a de Michael. Tá, talvez não tão masculina assim.
- É porque você nunca foi com a minha cara? É porque eu sou gay? É porque você ODEIA a sua irmã?
- Como é que é?! Eu não od...
- Vai, fala! Qual o seu problema com isso, hein?! Eu e Mary vamos nos casar sim, e não interessa se você não aprova – E assim Michael encerrou e foi em direção ao quarto de Mary. Ainda bem. Não que eu estivesse com medo dele vir me socar, nada disso. Eu o derrubaria em dois segundos.
Mas eu sou um completo imbecil. Não consegui falar mais nada, e fiquei ali, parado. Aos poucos, os convidados restantes da festa foram indo embora, devido ao clima pesado. Paige também, sem nem falar comigo.
E eu continuei lá, em pé, naquela sala agora vazia, e toda bagunçada. Não sei se 5 minutos ou uma hora depois – provavelmente 5 minutos. Mesmo alguém que não estava com a cabeça ali no lugar teria se cansado muito antes de uma hora -, ouvi a voz de Michael novamente, agora mais tranquilo, e fui puxado de volta à realidade.
- Ela tá te esperando, quer falar com você
- Ãh... OK – Assenti.
E fui. Lentamente caminhando pela sala, em direção ao quarto de Mary, com Michael me observando. Pensei em correr na direção dele e dar-lhe um soco, mas mudei de ideia rapidamente. Uma merda na noite já tá de bom tamanho. E lá estava Mary Ann.
Sentada na sua cama, com cara de choro, puta da vida. Nesse momento eu agradeci mentalmente a meus pais por não deixarem ela treinar tiro e ter uma arma. Mas ela tinha um taco de baseball. Graças a Deus – Ou a quem quer que seja -, não estava à vista.
- Vem cá – Disse ela, apontando pro espaço vazio a seu lado. Eu, é claro, havia parado na porta. Medo de pisar dentro do quarto e ativar uma armadilha. Depois de alguns segundos de ponderação – E profundo cagaço -, me movi. Ainda vivo, ufa. Sentei ao lado de Mary Ann.
- O que diabos foi aquilo?! - Ela perguntou
- Eu é que te pergunto, Mary. Que merda é essa? Casar com o Michael?! Que porra! - Pensei que ela fosse começar a chorar. E, talvez pra me contrariar – afinal, ela sempre gostou de fazer isso -, ela não o fez. Mas se controlou bastante. Eu notei. Em vez do choro, uma longa respiração.
- Em primeiro lugar, você não tem nada a ver com a minha vida. Eu tenho 24 anos, posso fazer o que eu bem entender. Sempre foi assim, você sabe disso. Em segundo lugar, eu sei o que você tá pensando. E eu tenho que admitir que pensei o mesmo, quando o Mike fez o pedido. Afinal... Ele é gay! - Ah, sim, esse é meu único questionamento, claro. Não pensei que ele fosse querer uma parte da grana futura de Mary, ou coisa assim. Imagina.
- Mas aí ele me explicou o porquê dessa proposta repentina. Você sabe, Jim, que ele tem um namorado, e tal... Os dois vão se mudar de Nova York por conta de trabalho – Deus ouviu minhas preces, finalmente! - e eles tão querendo iniciar uma família, adotar uma criança. Só que o lugar pra onde eles vão ainda não legalizou, sabe... a união deles, então eles meio que não podem fazer isso pelas leis de lá. Só um casal heterossexual pode, então... Ele é meu amigo, quero ajudá-lo.
- Beleza. Vou ligar pro pai e pra mãe amanhã – Eu disse depois de alguns segundos, me levantando pra sair do quarto.
- Argh! Pra quê eu perdi meu tempo falando disso, James?! Que merda! - A ouvi resmungar, com voz de choro mais uma vez.
Enquanto me dirigia ao meu quarto, Michael foi até Mary, e eu não ouvi mais nada a partir daí, já que tranquei minha porta.
A verdade é que eu não tava entendendo porra nenhuma. Tanto alarde por causa disso? Tudo bem que eu fui meio babaca, mas custava ter me contado antes? Como ela mesma disse, não tenho nada a ver com a vida de ninguém, fora a minha. Essa cena toda poderia ser evitada. Só, talvez, minha pequena provocação persistiria. Eu não iria ligar de verdade pros nossos pais, não sou tão péssimo irmão assim. Mas ela não precisa saber. Eu não tô nem aí pra esse casamento, eu só queria não ter sido o último a saber. Detesto isso.
Adormeci.
Acordei com meu despertador tocando feito louco, dez e meia da manhã. De um sábado. Sempre esqueço de desligar essa merda. Mary não está em casa. Provavelmente vai me evitar o fim de semana inteiro, esperando que eu esqueça a ameaça feita na noite anterior. Melhor pra mim. Tomei um banho, comi e fui pegar o jornal. De todos os parágrafos que escrevi ontem, só três foram publicados, sobre a prisão de uma ex- popstar adolescente. Roubo em loja de conveniência. Que decadência, minha e dela. Opa, meu telefone tá tocando. Atendi. Como eu meio que esperava, era Stephen do outro lado.
- Ô filho da puta, vamos almoçar?
- Cara... Eu acabei de acordar, nem vai dar.
Rimos.
- Tá, tá, posso dar uma passada aí? Tenho outras coisas pra fazer na cidade hoje, e queria resolver aquele assunto rápido...
- … Beleza, pode vir.
A chamada foi encerrada e voltei a pensar no que Stephen havia dito na noite passada. “Coisa profissonal”. O que será? Bom, cerca de meia hora depois da ligação, eu estava para descobrir.
- E aí, cara, tudo certo? Cadê Mary?
- Ãh... Não sei. Acordei e ela já não tava aqui. Não deve voltar tão cedo, depois do que rolou ontem...
- Espera aí, o que rolou ontem?
Eu havia esquecido que Stephen e Abraham foram embora um pouco antes.
- Ah, é, vocês já tinham ido embora. Mary Ann anunciou que vai se casar. Com aquele zé mané do Michael.
Dessa vez, não deu pra não rir. Ainda mais porque Stephen instantaneamente soltou uma grande gargalhada. Depois duma careta esquisita de surpresa. Devolvi com minha careta de “Longa história”.
- Ai ai... Essa menina e suas escolhas de vida, sempre nos surpreendendo... E escolhas de guarda roupa...
- E escolhas de vocabulário... - Acrescentei.
Voltamos a rir.
- Que loucura, hein, cara? Enfim... Vamos ao que interessa, tem uma galerinha me esperando pra uma reunião daqui menos de uma hora. O negócio é o seguinte: Tô com um projeto novo, o estúdio recusou meu roteiro inicial e pediram prum outro camarada reescrever. Mas eu não curto o trabalho dele, e tô procurando um cara bom pra isso, então... Se anima ou não? Você é o melhor que eu conheço que tá disponível. E ainda é barato – Ele riu. Eu não.
- Ãh... - Isso só pode ser sacanagem dele. Tem tudo pra dar errado. Ele é maluco.
- Eu sei que você vive ocupado com o jornalzinho, mal tem tempo, mas a grana é boa. Ainda coloco um extra do meu bolso pela camaradagem
- Ãh... - Eu não tenho experiência nenhuma na indústria, e Stephen sabe muito bem disso. É sacanagem. Tem que ser.
- Vai escrever o roteiro ou não, cacete?!
É, acho que Stephen tá falando sério, melhor responder. Ele continua sendo um babaca, mas agora um pouco menos. Isto é, se a proposta for séria.
- … Posso responder depois? Tenho que ver como vai ficar minha situação no jornal antes, pra poder conciliar as coisas...
E ele riu de novo. Não sei por qual motivo, nem tentei ser engraçado.
- Final do dia. Não me decepciona, cara. Sem você, eu tô fodido.
Stephen se levantou e saiu, sem dizer mais nada. OK, esse momento foi muito estranho. Tá tudo parecendo uma grande pegadinha, uma “realidade inventada”. Será que eu tô no “Show de Truman”? Caralho, eu sou o Truman! E eu sinceramente duvido que ele ficaria “fodido” se não realizasse um filme. Três dos 4 dele estão entre as maiores bilheterias da última década. Um desses três tá no Top 10 da história do cinema mundial.
Eu não quero ser o Jim Carrey.
Talvez naquele filme com a Kate Winslet, mas não em “O Show de Truman”.
Sério, seria muita sacanagem. Gosto de criar personagens, não ser um deles.
Depois de algumas poucas horas – Nas quais fiquei feito louco zanzando pelo apartamento -, no meio da tarde, alguém tocou a campainha. Fui abrir a porta.
Era Paige, muito provavelmente ainda puta comigo.
- Mary tá em casa?
- Não. Saiu, não sei pra onde. Entra aí.
Ela pareceu considerar por alguns segundos, até que passou por mim, entrando no apartamento. Fechei a porta e juntei-me a ela no sofá.
- Vocês... Ãh... Conversaram?
- Sim, ela me contou a história, Michael quer...
- É, eu já tô sabendo.
- Como é?
- Sei há algumas semanas, já. Na verdade, eu é que ia te contar. Mas não consegui.
- Que porra é essa?! Acham que eu sou um monstro ou o quê?!
- Não... Não é isso. Jim, você sabe que ela tem medo de você.
- Medo de mim? Eu é que tenho medo dela, Paige. A Mary Ann adolescente ainda hoje me causa pesadelos.
- … Foda-se, não tô aqui pra discutir com você, seu cagão.
- É, foda-se. Tenho coisas mais importantes pra cuidar, hoje mais cedo recebi uma proposta de trabalho...
- Oi?!
- Stephen me chamou pra cuidar dum roteiro dele, e parece que vou ter que começar logo.
- Mas... E o jornal, Jim?
- Olha, eu sei que pode dar merda, que isso pode ser furada... Mas é a minha oportunidade, Paige! Vai dizer que, no meu lugar, você não faria o mesmo?
- Mas James... O jornal é um emprego seguro...
- Seguro pode ser, mas é terrível o que eu faço, você sabe. Se eu estivesse cuidando das páginas policiais como você, talvez eu visse de outro jeito. Mas eu não tenho futuro naquele jornal.
- …
- …
- Você tá certo. Vai aceitar, então?
- ... Ainda não sei, pra falar a verdade.
- Porra! Aceita logo essa merda! - Ela exclamou, e logo em seguida me deu um soco no braço. Acho que ela simplesmente gosta de me bater.
Um pouco mais tarde naquele dia, depois que Paige foi embora – Mary chegou em casa, mas logo foi pro quarto em silêncio -, peguei meu telefone e disquei o número de Stephen.
- Opa... E aí, cara, aquela vaga ainda tá livre?
Só o que eu ouvi foi uma risada do outro lado. E algo que não esperava. Não tão cedo. A voz de Mary Ann.
- Ei, Jim... Podemos conversar?
Oportunidade profissional e conversa séria logo em seguida. É, não dá pra ganhar sempre.

Deveria ser uma comédia, mas nem é uma história tão engraçada assim - Parte 1

Mais um dia comum, essa sexta-feira, na redação do New York Times. Final de expediente. Um dia fraco, porém estressante. Sou um dos repórteres da estúpida editoria de “cultura” inútil, e, francamente, mesmo depois de 5 anos trabalhando nesse jornal, não tenho a menor ideia do que tô fazendo aqui. É engraçado pensar naquele meu “eu” um pouco mais de 10 anos mais jovem do que agora, prestes a entrar na faculdade, sonhando em ser cineasta, fazer dinheiro com sua arte... vindo parar numa redação de jornal. Caminhos engraçados, esses para os quais a vida nos leva. Me escondi numa salinha pra terminar uma matéria e parece que me descobriram. Merda. Toc Toc Toc.
- Tá destrancada, pode entrar.
A porta abriu-se e revelou uma das funcionárias mais novas do jornal. Paige, uma das minhas calouras na faculdade. Nos tornamos bons amigos com o passar dos anos, e eu acabei arranjando esse emprego pra ela. Ela não é tão mais nova que eu – apenas um ano -, mas acabou indo por outros caminhos antes de ingressar no jornalismo. Não está nessa pocilga de setor, mas sim no que é um pouco mais interessante, as páginas policiais.
- Me falaram que você tava aqui. Já terminou sua reportagem? Podemos ir? Já são seis horas, Jim!
- Calma aí, cacete. Só mais um parágrafo... Pronto, vou entregar isso pro chefe e partimos.
Levantei-me de onde eu estava para sair da sala, e, no caminho, Paige me deu um leve soco. Às vezes eu acho que ela não cresceu. Além do fator “baixa estatura”, claro. Resolvi minhas últimas pendências do dia com o meu superior na redação e peguei o elevador, junto a Paige.
- Quais os planos pra hoje? - Perguntei.
- Ora... Sua casa, claro.
- Como assim “claro”?
- Bom... Talvez porque sua irmã more com você, e ela faz aniversário hoje...? Festa, e tal...? Não?
Merda. Aniversário de minha irmã, e eu esqueci completamente. Mary já mora comigo há dois anos e eu ainda não me acostumei a tê-la por perto com ela não mais sendo aquela adolescentezinha revoltada meio sombria/meio traficante que era anos atrás, e que eu não preciso falar que tinha um puta medo. Ela hoje tá tão mais... Tranquila. Zen. E é óbvio que eu também esqueci de comprar um presente. Mas ninguém precisa saber, é claro. E Paige já percebeu isso antes de me responder, também é claro. O fato de eu ter demorado a inventar uma desculpa só reforçou a verdade. E a verdade era que não havia desculpas para isso.
- Hm... Eu meio que esqueci.
Outro soco de Paige, agora mais forte, no braço. Sorte que estamos só os dois no elevador.
- Seu merda. E agora? Vai assim mesmo, sem nada em mãos? É a sua irmã, cara!
- E é a minha casa, Paige. Cala a boca. Se ela ficar chateada ou sei lá o quê, pode se mudar pra outro lugar, eu não ligo. Assim eu me livro daquele Mike de uma vez.
Michael é o melhor amigo de infância de Mary, inclusive sendo um dos responsáveis pela sua fase traficante. Assumidamente gay. E me irrita, bastante. Não por ser gay, nada contra, não tenho nada a ver com a vida dele, mas... Por ser Michael. Desde sempre ele tenta fazer a cabeça de minha irmã contra a família, principalmente contra mim. E mesmo agora, depois de adulto, é assim. O cara simplesmente detesta o fato dela ter vindo morar comigo. Mas ela não tinha escolha. E nem eu, na verdade. Meu pai ameaçou me tirar do testamento. Se é que já não o fez por outra razão.
- Tá, foi meio horrível dizer isso, mas o quê eu posso fazer? Esqueci. Eu esqueço das coisas, tá? Todo mundo esquece. E Mary já não é mais nenhuma criancinha pra ficar de birra por causa de um aniversário.
- Tá, tá, não precisa me bater, James – Paige encerrou, e eu mentalmente a agradeci. Ela não vai me fazer me sentir culpado por uma bobagem dessas.
Fomos, no meu carro – o de Paige se encontrava... Destruído, resultado de um passado não muito distante de desemprego, loucuras e álcool. Aquela coisa normal para os jovens até os 25, mesmo Paige já tendo passado um pouquinho deles. Mas isso não é história pra esse momento -, do estacionamento localizado à frente do edifício do jornal, até meu apartamento, 20 minutos dali. Sem trânsito, é claro. Mas como estamos numa sexta-feira em Nova York... 45 minutos, mais que o dobro do tempo, pra chegar em casa. E aparentemente éramos as pessoas que faltavam. Não havia tanta gente, mas havia um certo... Movimento. Lá estavam Mary, Michael, uma outra amiga deles, Sylvia, a auto intitulada “profunda conhecedora cultural” de Nova York, um pequeno grupo de outros jovens de 20 e poucos anos – eu estou prestes a chegar nos 30, e, se não estou enganado, é o aniversário de 24 anos de Mary. Ou seriam 23? – e duas pessoas que eu não esperava ver, não naquele grupo, não naquela festa. Dois de meus amigos mais antigos, os irmãos Abraham e Stephen. Achei que não os veria em Nova York tão cedo.
- Cansaram da Europa, meus caros?
- Sabe como é, prédios, prédios prédios... E no caso dele... – Disse Abraham apontando para o irmão mais novo – filmes, filmes, filmes... Uma hora cansa – E todos rimos. Acredite, todos rimos.
- Além do mais, estávamos devendo uma visita ao sr. Jornalista – Disse Stephen, em tom de desdém. Ele sempre gostou de zombar de minha carreira. Stephen, assim como eu, tinha o sonho do cinema. E, diferente de mim, foi atrás até conseguir. Mas tudo bem, ainda somos amigos. Os filmes dele dão dinheiro como para um vendedor de água no deserto. Abraham é outro bem sucedido em sua área, a arquitetura. Só não comparo seus projetos a água pois, se assim fossem feitos, ãh... eles cairiam, eu acho. Ah, o diabo do Stephen ainda arranjava tempo pra ter uma banda. Desgraçado.
- E aí, como vão as coisas? - Perguntou Stephen
- Do mesmo modo que a última vez. Trabalhando no TNYT, morando com minha irmã mais nova, sustentando a irmã mais nova... Pareço ter uma filha, e nem mulher eu tenho.
- TNYT? É um reboot das Tartarugas Ninja e eu NÃO estou envolvido?! - Devo admitir que achei isso engraçado. Mas não, não ri - E aquela... Aquela Paige, cara? Nada?
- HAHA, Paige? Nah... Jamais daria certo. Ela é completamente maluca.
- Falou o Sr. Normal...
- Ah, vá se foder, cara. - De fato, eu nunca havia pensado dessa forma. Paige sempre foi mais como uma irmã pra mim. Até mais que Mary.
Enquanto isso, Abraham, o mais velho naquela sala, tentava conquistar uma das amigas de Mary. Obviamente, estava dando errado. O álcool nunca ajuda nessas situações. Quanto mais álcool, pior, no caso dele. Provavelmente no meu também, se eu bebesse.
E eu ainda não falei com Mary desde que cheguei. Não a encontrei em casa de manhã, então não houve oportunidade de parabenizá-la, mesmo se eu lembrasse da data. Ela parece estar se divertindo, e, na verdade, eu não tô afim de falar nada agora, também.
Abraham agora havia mudado seu alvo, e sem perceber, devido à grande quantidade de álcool ingerida, seu alvo era ninguém mais ninguém menos que Michael. E o rapaz parecia estar gostando. Depois de alguns minutos, Stephen se levantou e levou o embriagado irmão pra longe dali, enquanto os demais – eu entre eles – riam sem parar. Michael ficou meio contrariado depois disso. Pobre Mike. Quando todo mundo se aquietou novamente, Paige se aproximou:
- Vai falar com ela, Jim.
- Quê?
- Sua irmã, vai lá falar com ela. Não seja babaca.
- Mas ela tá conversando com os amigos, se entretendo, não quero atrapalhar nada...
- Droga, James, você é o irmão dela! Por quê toda essa palhaçada, só pra dizer um “parabéns”? Eu sei que vocês nunca se deram muito bem, mas, porra, são dois adultos!
- Tá, tá... Eu vou lá falar com ela – E aí eu me levantei.
Para a minha surpresa, Mary também havia se levantado, e vinha em minha direção.
- Vamos na cozinha, quero falar com você – Ela disse. Assenti e a segui até o outro cômodo de nosso apartamento. No caminho, vimos Stephen e Abraham no banheiro. O mais velho passava mal.
- Ele vai ficar legal – Stephen afirmou. ao pararmos para uma eventual assistência. E assim prosseguimos, Mary e eu, para a cozinha.
Nossa relação nunca foi das melhores. Provavelmente pela diferença de idade. Quando deixei a casa de meus pais para ir à faculdade, Mary estava começando a ter o comportamento que, anos mais tarde, a levou à cadeia por vandalismo e tráfico de drogas. Ela só não ficou presa de verdade pois ainda era menor. Essa delinquentezinha juvenil. A mudança de comportamento resultante da conscientização das merdas – e de um corte brusco na mesada -, que deveria ser um bom sinal para a saúde da relação fraternal, mostrou ter o efeito exatamente oposto. A mudança forçada dela pro meu apartamento há dois anos só piorou a situação, se é que isso era possível. Mal conversamos, no pouco tempo que nos vemos aqui.
- Ãh... Parabéns? - Arrisquei. E ela riu. Não de um jeito legal. Me lembrou aquele demônio de quinze anos de idade.
- Vá à merda, James. Eu não preciso disso. Paige te fez dizer, não foi?
- É...
- Enfim, vamos falar do que interessa. Como eu estou morando aqui, e você é o dono da casa, preciso te informar sobre certas coisas... - “Puta merda”, pensei nesse momento. E “por quê eu não cobro aluguel?”, também.
Mas, antes que ela pudesse me comunicar que quebrou algo meu, ou sei lá o quê, fomos interrompidos pela entrada repentina de Michael.
- A Sylvia tá pra ir embora, um show, sei lá... É melhor a gente apressar as coisas.
Obviamente, não entendi porra nenhuma, e Mary saiu apressada, sem falar nada. Depois de alguns segundos, a segui, em direção à sala. Stephen ajudava Abraham a sair do banheiro. Fui ajudar também.
- Então, cara, o coroa aqui tá meio mal, a gente vai embora... - Começou o mais novo dos irmãos.
- Mas eu queria tratar de uns assuntos contigo, coisa profissional, então te ligo amanhã, pode ser?
- Ãh... OK, OK. Tô com o número de sempre. - Respondi, no tom mais casual possível, escondendo minha agitação. Mas nah, Stephen estava só de brincadeira, certeza
- Beleza. De repente a gente dá uma passada aqui, também. Eu, pelo menos. Abraham vai estar meio baleado amanhã, se é que você me entende. - Rimos. Até Abraham riu. Esses dois sempre foram merdeiros, desde a época do colégio. E foram embora, depois de, é claro, falar com Mary. Até eles gostavam mais da minha irmã do que eu. Impressionante. E ela mais deles, é claro
Voltei ao meu lugar e iniciei conversas triviais com os amigos de minha irmã. Até que...
Os dois, Mary e Michael, se levantaram, pedindo atenção de todos os presentes.
- Bom, meus queridos amigos... James... - Até eu ri nessa hora. Mesmo não tendo sido muito engraçado. - Como sabem, hoje é um dia especial, não só pelo aniversário de nossa Mary, mas também por.... Ãh...
- Eu e Mike vamos nos casar! - Exclamou Mary, naquele tom agudo irritante meio infantil que só as mulheres conseguem fazer.
E eu? Bem... Eu estava me segurando. Me segurando pra não levantar e gritar uma coisa. Uma pergunta. Uma pergunta, imagino, que a maioria de vocês deve estar fazendo agora. Ou não, se não se importarem com essa história. Mas eu sim. Eu queria gritar:
- Mas que merda é essa?!