domingo, 25 de setembro de 2016

A Morte Dirige uma Van - Parte 1

Meu nome é Johnny. Johnny... Alguma coisa. Não interessa. E eu não me lembro, também. E não interessa. O que interessa é... Que eu... Morri. Não, espera aí, eu morri? ô roteirista, que história é essa?! Eu.. Morri mesmo? Ah, Meu Deus, eu morri! Ah.. Agora eu lembrei, já faz 10 anos, então, tá ok. Eu esqueço das coisas, às vezes. Deve ser coisa de fantasma. Ou o álcool, não sei. É, fantasmas se divertem, ás vezes. Quando deixam. É, mesmo morto, você tem que obedecer umas regras. O céu é um inferno. Ou talvez eu esteja no inferno, o que não faz muito sentido. Não pra mim. Ah, dane-se. Ninguém está aqui pra saber disso, eu acho. Querem saber o por quê de estar sendo contada uma história dum cara que está morto. Primeiro: O roteirista tem a cabeça meio... bagunçada, se é que me entendem. E, segundo: Depois de 10 anos no mundo espiritual, eu me tornei A Morte. É, A Morte. Capuz preto, foice, "uuh, tenham medo de mim, sou assustador pra caramba, vou te levar comigo", essas coisas. Foi engraçado, como começou isso tudo. No dia em que eu morri. Minha morte foi bem estúpida, aliás. Overdose. Enfim... A morte é algo engraçado. Não, não engraçado do tipo 'tem palhaços, um comediante e torta na sua cara', não. A morte é.. Como dormir. Simplesmente, tudo apaga e você abre os olhos de novo uns 5 minutos depois... E percebe que está sendo jogado dentro duma van, ou o que parece ser uma. E lá estava ela, no volante, A Morte. Larry, gente fina. "Sério, moleque, drogas? Tu não tinha nada melhor pra fazer, não?" De fato, eu não tinha. "Porra.. Gente como você me entristece, sabia? E são centenas, todos os dias. Isso cansa, me deixa morto, cara. Tô cansado dessa merda de trabalho... Mas, e aí, tu já sabe pr'onde vai, carinha?" "Aah.." E Larry gargalhou. "Não sou eu o responsável por essa área, mas, acho que tu vai parar lá embaixo, irmão" Claro que, naquele momento, eu não estava entendendo nada. Eu ainda estava achando que era efeito da heroína. Idiota, eu. Mas, é normal, em casos como o meu. Os chapadões demoram a sacar que a última dose foi daquelas pra arrebentar, mesmo. Arrebentar o coração, e tal.. "Se segura aí, malandro" O maluco do capuz disse, depois duns 20 minutos de silêncio. E, de repente, a van começou a rodopiar. A rodopiar muito loucamente. E eu, claro, ainda achando que tava chapado. Talvez eu estivesse, mesmo. Escuridão. Uh Oh, agora algo estava errado, bem errado. Gritos, muitos gritos desesperadores, e ainda a escuridão, e eu na van, caído, com ânsia de vômito. Mas nada saía. Luz, cegante e filha da puta luz. "ô carinha, não força.. Tu não vai conseguir vomitar morto, irmão. Mas, olha só, agora tu vai poder beber tranquilamente!' E eu finalmente percebi o que tinha acontecido. Eu já não estava no mundo dos vivos. Mas, não, não me desesperei. Ainda tava muito louco, pra isso. Ou simplesmente deu preguiça, não lembro. "Vambora, moleque, reunião, já" E fui levado por Larry (que, àquela altura, já tinha se apresentado) pra.. uma sala de reuniões como qualquer outra. É, amigos, os seres sobrenaturais não tem nada de muito diferente, fora o fato de serem, é claro, seres sobrenaturais. Fiquei um tempo sozinho lá, sentado, quando apareceu um barbudão de terno com uma prancheta na mão. Nem olhou na minha cara, mal educado. "Bom, vejamos.. 20 anos de idade.. Drogas.. Bronx, hein? Interessante.. Não terminou os estudos, sonhava em ser.. Astronauta, hahahaha.. Esses jovens que acham que irão chegar perto do Senhor.. Em vez disso, passam direto e em vez de Deus, encontram outros planetas, e buscam vidas neles.. hahahaha, vocês me divertem, vocês me divertem.. Você sobe, garoto" Um telefone tocou. Um. Telefone. Tocou. No purgatório. Até hoje, acho isso irado. Nunca tive um celular.. O barbudão atendeu, e ficou resmungando por um tempo, até que guardou o telefone celular de volta no bolso "Mudança de planos. Um cara explodiu uma igreja, e a passagem pra lá vai ficar congestionada por um tempo. Foi mal, mas a subida é meio lenta.. Você vai ficar por aqui.. Por alguns meses" E o velho levantou-se e foi embora. Ainda fiquei um tempo lá, até que aparecesse alguém pra me dizer que eu podia sair. Eu ainda era novo lá, poxa, ainda tava me acostumando com a ideia de estar morto. E Larry apareceu de novo, depois de umas horas "Ei, garoto, vou buscar um camarada, agora.. Já sei que tu vai ficar por aqui.. Tu não tem o que fazer mesmo, nessa área agora, vamo lá" E eu fui. E, mesmo estando morto, vi a luz do sol outra vez. Mal sabia eu que, apesar de não viver mais na Terra, eu passaria toda a eternidade fazendo visitas. Ou pelo menos, até a hora que eu cansar, como Larry.

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