Meu nome é Johnny.
Johnny... Alguma coisa. Não interessa. E eu não me lembro, também.
E não interessa. O que interessa é... Que eu... Morri. Não, espera
aí, eu morri? ô roteirista, que história é essa?! Eu.. Morri
mesmo? Ah, Meu Deus, eu morri! Ah.. Agora eu lembrei, já faz 10
anos, então, tá ok. Eu esqueço das coisas, às vezes. Deve ser
coisa de fantasma. Ou o álcool, não sei. É, fantasmas se divertem,
ás vezes. Quando deixam. É, mesmo morto, você tem que obedecer
umas regras. O céu é um inferno. Ou talvez eu esteja no inferno, o
que não faz muito sentido. Não pra mim. Ah, dane-se. Ninguém está
aqui pra saber disso, eu acho. Querem saber o por quê de estar sendo
contada uma história dum cara que está morto. Primeiro: O
roteirista tem a cabeça meio... bagunçada, se é que me entendem.
E, segundo: Depois de 10 anos no mundo espiritual, eu me tornei A
Morte. É, A Morte. Capuz preto, foice, "uuh, tenham medo de
mim, sou assustador pra caramba, vou te levar comigo", essas
coisas. Foi engraçado, como começou isso tudo. No dia em que eu
morri. Minha morte foi bem estúpida, aliás. Overdose. Enfim... A
morte é algo engraçado. Não, não engraçado do tipo 'tem
palhaços, um comediante e torta na sua cara', não. A morte é..
Como dormir. Simplesmente, tudo apaga e você abre os olhos de novo
uns 5 minutos depois... E percebe que está sendo jogado dentro duma
van, ou o que parece ser uma. E lá estava ela, no volante, A Morte.
Larry, gente fina. "Sério, moleque, drogas? Tu não tinha nada
melhor pra fazer, não?" De fato, eu não tinha. "Porra..
Gente como você me entristece, sabia? E são centenas, todos os
dias. Isso cansa, me deixa morto, cara. Tô cansado dessa merda de
trabalho... Mas, e aí, tu já sabe pr'onde vai, carinha?"
"Aah.." E Larry gargalhou. "Não sou eu o responsável
por essa área, mas, acho que tu vai parar lá embaixo, irmão"
Claro que, naquele momento, eu não estava entendendo nada. Eu ainda
estava achando que era efeito da heroína. Idiota, eu. Mas, é
normal, em casos como o meu. Os chapadões demoram a sacar que a
última dose foi daquelas pra arrebentar, mesmo. Arrebentar o
coração, e tal.. "Se segura aí, malandro" O maluco do
capuz disse, depois duns 20 minutos de silêncio. E, de repente, a
van começou a rodopiar. A rodopiar muito loucamente. E eu, claro,
ainda achando que tava chapado. Talvez eu estivesse, mesmo.
Escuridão. Uh Oh, agora algo estava errado, bem errado. Gritos,
muitos gritos desesperadores, e ainda a escuridão, e eu na van,
caído, com ânsia de vômito. Mas nada saía. Luz, cegante e filha
da puta luz. "ô carinha, não força.. Tu não vai conseguir
vomitar morto, irmão. Mas, olha só, agora tu vai poder beber
tranquilamente!' E eu finalmente percebi o que tinha acontecido. Eu
já não estava no mundo dos vivos. Mas, não, não me desesperei.
Ainda tava muito louco, pra isso. Ou simplesmente deu preguiça, não
lembro. "Vambora, moleque, reunião, já" E fui levado por
Larry (que, àquela altura, já tinha se apresentado) pra.. uma sala
de reuniões como qualquer outra. É, amigos, os seres sobrenaturais
não tem nada de muito diferente, fora o fato de serem, é claro,
seres sobrenaturais. Fiquei um tempo sozinho lá, sentado, quando
apareceu um barbudão de terno com uma prancheta na mão. Nem olhou
na minha cara, mal educado. "Bom, vejamos.. 20 anos de idade..
Drogas.. Bronx, hein? Interessante.. Não terminou os estudos,
sonhava em ser.. Astronauta, hahahaha.. Esses jovens que acham que
irão chegar perto do Senhor.. Em vez disso, passam direto e em vez
de Deus, encontram outros planetas, e buscam vidas neles.. hahahaha,
vocês me divertem, vocês me divertem.. Você sobe, garoto" Um
telefone tocou. Um. Telefone. Tocou. No purgatório. Até hoje, acho
isso irado. Nunca tive um celular.. O barbudão atendeu, e ficou
resmungando por um tempo, até que guardou o telefone celular de
volta no bolso "Mudança de planos. Um cara explodiu uma igreja,
e a passagem pra lá vai ficar congestionada por um tempo. Foi mal,
mas a subida é meio lenta.. Você vai ficar por aqui.. Por alguns
meses" E o velho levantou-se e foi embora. Ainda fiquei um tempo
lá, até que aparecesse alguém pra me dizer que eu podia sair. Eu
ainda era novo lá, poxa, ainda tava me acostumando com a ideia de
estar morto. E Larry apareceu de novo, depois de umas horas "Ei,
garoto, vou buscar um camarada, agora.. Já sei que tu vai ficar por
aqui.. Tu não tem o que fazer mesmo, nessa área agora, vamo lá"
E eu fui. E, mesmo estando morto, vi a luz do sol outra vez. Mal
sabia eu que, apesar de não viver mais na Terra, eu passaria toda a
eternidade fazendo visitas. Ou pelo menos, até a hora que eu cansar,
como Larry.
Nenhum comentário:
Postar um comentário