E acabou que eu gritei.
E, ainda pior: Usei algo que eu sabia que ia irritá-la
profundamente. Algo que sempre iria irritá-la. Seu nome completo.
- Que merda é essa, Mary Ann?!
Pensando bem, essa foi uma péssima ideia. Mary, chorando, correu pro quarto dela, enquanto o restante ficou me encarando. Paige e Michael de maneira bastante enraivecida. Senti que devia falar algo, mas também que, se eu abrisse minha boca mais uma vez, não sairia vivo dali.
- Qual é o seu problema, James?! - Gritou uma voz masculina, a de Michael. Tá, talvez não tão masculina assim.
- É porque você nunca foi com a minha cara? É porque eu sou gay? É porque você ODEIA a sua irmã?
- Como é que é?! Eu não od...
- Vai, fala! Qual o seu problema com isso, hein?! Eu e Mary vamos nos casar sim, e não interessa se você não aprova – E assim Michael encerrou e foi em direção ao quarto de Mary. Ainda bem. Não que eu estivesse com medo dele vir me socar, nada disso. Eu o derrubaria em dois segundos.
Mas eu sou um completo imbecil. Não consegui falar mais nada, e fiquei ali, parado. Aos poucos, os convidados restantes da festa foram indo embora, devido ao clima pesado. Paige também, sem nem falar comigo.
E eu continuei lá, em pé, naquela sala agora vazia, e toda bagunçada. Não sei se 5 minutos ou uma hora depois – provavelmente 5 minutos. Mesmo alguém que não estava com a cabeça ali no lugar teria se cansado muito antes de uma hora -, ouvi a voz de Michael novamente, agora mais tranquilo, e fui puxado de volta à realidade.
- Ela tá te esperando, quer falar com você
- Ãh... OK – Assenti.
E fui. Lentamente caminhando pela sala, em direção ao quarto de Mary, com Michael me observando. Pensei em correr na direção dele e dar-lhe um soco, mas mudei de ideia rapidamente. Uma merda na noite já tá de bom tamanho. E lá estava Mary Ann.
Sentada na sua cama, com cara de choro, puta da vida. Nesse momento eu agradeci mentalmente a meus pais por não deixarem ela treinar tiro e ter uma arma. Mas ela tinha um taco de baseball. Graças a Deus – Ou a quem quer que seja -, não estava à vista.
- Vem cá – Disse ela, apontando pro espaço vazio a seu lado. Eu, é claro, havia parado na porta. Medo de pisar dentro do quarto e ativar uma armadilha. Depois de alguns segundos de ponderação – E profundo cagaço -, me movi. Ainda vivo, ufa. Sentei ao lado de Mary Ann.
- O que diabos foi aquilo?! - Ela perguntou
- Eu é que te pergunto, Mary. Que merda é essa? Casar com o Michael?! Que porra! - Pensei que ela fosse começar a chorar. E, talvez pra me contrariar – afinal, ela sempre gostou de fazer isso -, ela não o fez. Mas se controlou bastante. Eu notei. Em vez do choro, uma longa respiração.
- Em primeiro lugar, você não tem nada a ver com a minha vida. Eu tenho 24 anos, posso fazer o que eu bem entender. Sempre foi assim, você sabe disso. Em segundo lugar, eu sei o que você tá pensando. E eu tenho que admitir que pensei o mesmo, quando o Mike fez o pedido. Afinal... Ele é gay! - Ah, sim, esse é meu único questionamento, claro. Não pensei que ele fosse querer uma parte da grana futura de Mary, ou coisa assim. Imagina.
- Mas aí ele me explicou o porquê dessa proposta repentina. Você sabe, Jim, que ele tem um namorado, e tal... Os dois vão se mudar de Nova York por conta de trabalho – Deus ouviu minhas preces, finalmente! - e eles tão querendo iniciar uma família, adotar uma criança. Só que o lugar pra onde eles vão ainda não legalizou, sabe... a união deles, então eles meio que não podem fazer isso pelas leis de lá. Só um casal heterossexual pode, então... Ele é meu amigo, quero ajudá-lo.
- Beleza. Vou ligar pro pai e pra mãe amanhã – Eu disse depois de alguns segundos, me levantando pra sair do quarto.
- Argh! Pra quê eu perdi meu tempo falando disso, James?! Que merda! - A ouvi resmungar, com voz de choro mais uma vez.
Enquanto me dirigia ao meu quarto, Michael foi até Mary, e eu não ouvi mais nada a partir daí, já que tranquei minha porta.
A verdade é que eu não tava entendendo porra nenhuma. Tanto alarde por causa disso? Tudo bem que eu fui meio babaca, mas custava ter me contado antes? Como ela mesma disse, não tenho nada a ver com a vida de ninguém, fora a minha. Essa cena toda poderia ser evitada. Só, talvez, minha pequena provocação persistiria. Eu não iria ligar de verdade pros nossos pais, não sou tão péssimo irmão assim. Mas ela não precisa saber. Eu não tô nem aí pra esse casamento, eu só queria não ter sido o último a saber. Detesto isso.
Adormeci.
Acordei com meu despertador tocando feito louco, dez e meia da manhã. De um sábado. Sempre esqueço de desligar essa merda. Mary não está em casa. Provavelmente vai me evitar o fim de semana inteiro, esperando que eu esqueça a ameaça feita na noite anterior. Melhor pra mim. Tomei um banho, comi e fui pegar o jornal. De todos os parágrafos que escrevi ontem, só três foram publicados, sobre a prisão de uma ex- popstar adolescente. Roubo em loja de conveniência. Que decadência, minha e dela. Opa, meu telefone tá tocando. Atendi. Como eu meio que esperava, era Stephen do outro lado.
- Ô filho da puta, vamos almoçar?
- Cara... Eu acabei de acordar, nem vai dar.
Rimos.
- Tá, tá, posso dar uma passada aí? Tenho outras coisas pra fazer na cidade hoje, e queria resolver aquele assunto rápido...
- … Beleza, pode vir.
A chamada foi encerrada e voltei a pensar no que Stephen havia dito na noite passada. “Coisa profissonal”. O que será? Bom, cerca de meia hora depois da ligação, eu estava para descobrir.
- E aí, cara, tudo certo? Cadê Mary?
- Ãh... Não sei. Acordei e ela já não tava aqui. Não deve voltar tão cedo, depois do que rolou ontem...
- Espera aí, o que rolou ontem?
Eu havia esquecido que Stephen e Abraham foram embora um pouco antes.
- Ah, é, vocês já tinham ido embora. Mary Ann anunciou que vai se casar. Com aquele zé mané do Michael.
Dessa vez, não deu pra não rir. Ainda mais porque Stephen instantaneamente soltou uma grande gargalhada. Depois duma careta esquisita de surpresa. Devolvi com minha careta de “Longa história”.
- Ai ai... Essa menina e suas escolhas de vida, sempre nos surpreendendo... E escolhas de guarda roupa...
- E escolhas de vocabulário... - Acrescentei.
Voltamos a rir.
- Que loucura, hein, cara? Enfim... Vamos ao que interessa, tem uma galerinha me esperando pra uma reunião daqui menos de uma hora. O negócio é o seguinte: Tô com um projeto novo, o estúdio recusou meu roteiro inicial e pediram prum outro camarada reescrever. Mas eu não curto o trabalho dele, e tô procurando um cara bom pra isso, então... Se anima ou não? Você é o melhor que eu conheço que tá disponível. E ainda é barato – Ele riu. Eu não.
- Ãh... - Isso só pode ser sacanagem dele. Tem tudo pra dar errado. Ele é maluco.
- Eu sei que você vive ocupado com o jornalzinho, mal tem tempo, mas a grana é boa. Ainda coloco um extra do meu bolso pela camaradagem
- Ãh... - Eu não tenho experiência nenhuma na indústria, e Stephen sabe muito bem disso. É sacanagem. Tem que ser.
- Vai escrever o roteiro ou não, cacete?!
É, acho que Stephen tá falando sério, melhor responder. Ele continua sendo um babaca, mas agora um pouco menos. Isto é, se a proposta for séria.
- … Posso responder depois? Tenho que ver como vai ficar minha situação no jornal antes, pra poder conciliar as coisas...
E ele riu de novo. Não sei por qual motivo, nem tentei ser engraçado.
- Final do dia. Não me decepciona, cara. Sem você, eu tô fodido.
Stephen se levantou e saiu, sem dizer mais nada. OK, esse momento foi muito estranho. Tá tudo parecendo uma grande pegadinha, uma “realidade inventada”. Será que eu tô no “Show de Truman”? Caralho, eu sou o Truman! E eu sinceramente duvido que ele ficaria “fodido” se não realizasse um filme. Três dos 4 dele estão entre as maiores bilheterias da última década. Um desses três tá no Top 10 da história do cinema mundial.
Eu não quero ser o Jim Carrey.
Talvez naquele filme com a Kate Winslet, mas não em “O Show de Truman”.
Sério, seria muita sacanagem. Gosto de criar personagens, não ser um deles.
Depois de algumas poucas horas – Nas quais fiquei feito louco zanzando pelo apartamento -, no meio da tarde, alguém tocou a campainha. Fui abrir a porta.
Era Paige, muito provavelmente ainda puta comigo.
- Mary tá em casa?
- Não. Saiu, não sei pra onde. Entra aí.
Ela pareceu considerar por alguns segundos, até que passou por mim, entrando no apartamento. Fechei a porta e juntei-me a ela no sofá.
- Vocês... Ãh... Conversaram?
- Sim, ela me contou a história, Michael quer...
- É, eu já tô sabendo.
- Como é?
- Sei há algumas semanas, já. Na verdade, eu é que ia te contar. Mas não consegui.
- Que porra é essa?! Acham que eu sou um monstro ou o quê?!
- Não... Não é isso. Jim, você sabe que ela tem medo de você.
- Medo de mim? Eu é que tenho medo dela, Paige. A Mary Ann adolescente ainda hoje me causa pesadelos.
- … Foda-se, não tô aqui pra discutir com você, seu cagão.
- É, foda-se. Tenho coisas mais importantes pra cuidar, hoje mais cedo recebi uma proposta de trabalho...
- Oi?!
- Stephen me chamou pra cuidar dum roteiro dele, e parece que vou ter que começar logo.
- Mas... E o jornal, Jim?
- Olha, eu sei que pode dar merda, que isso pode ser furada... Mas é a minha oportunidade, Paige! Vai dizer que, no meu lugar, você não faria o mesmo?
- Mas James... O jornal é um emprego seguro...
- Seguro pode ser, mas é terrível o que eu faço, você sabe. Se eu estivesse cuidando das páginas policiais como você, talvez eu visse de outro jeito. Mas eu não tenho futuro naquele jornal.
- …
- …
- Você tá certo. Vai aceitar, então?
- ... Ainda não sei, pra falar a verdade.
- Porra! Aceita logo essa merda! - Ela exclamou, e logo em seguida me deu um soco no braço. Acho que ela simplesmente gosta de me bater.
Um pouco mais tarde naquele dia, depois que Paige foi embora – Mary chegou em casa, mas logo foi pro quarto em silêncio -, peguei meu telefone e disquei o número de Stephen.
- Opa... E aí, cara, aquela vaga ainda tá livre?
Só o que eu ouvi foi uma risada do outro lado. E algo que não esperava. Não tão cedo. A voz de Mary Ann.
- Ei, Jim... Podemos conversar?
Oportunidade profissional e conversa séria logo em seguida. É, não dá pra ganhar sempre.
- Que merda é essa, Mary Ann?!
Pensando bem, essa foi uma péssima ideia. Mary, chorando, correu pro quarto dela, enquanto o restante ficou me encarando. Paige e Michael de maneira bastante enraivecida. Senti que devia falar algo, mas também que, se eu abrisse minha boca mais uma vez, não sairia vivo dali.
- Qual é o seu problema, James?! - Gritou uma voz masculina, a de Michael. Tá, talvez não tão masculina assim.
- É porque você nunca foi com a minha cara? É porque eu sou gay? É porque você ODEIA a sua irmã?
- Como é que é?! Eu não od...
- Vai, fala! Qual o seu problema com isso, hein?! Eu e Mary vamos nos casar sim, e não interessa se você não aprova – E assim Michael encerrou e foi em direção ao quarto de Mary. Ainda bem. Não que eu estivesse com medo dele vir me socar, nada disso. Eu o derrubaria em dois segundos.
Mas eu sou um completo imbecil. Não consegui falar mais nada, e fiquei ali, parado. Aos poucos, os convidados restantes da festa foram indo embora, devido ao clima pesado. Paige também, sem nem falar comigo.
E eu continuei lá, em pé, naquela sala agora vazia, e toda bagunçada. Não sei se 5 minutos ou uma hora depois – provavelmente 5 minutos. Mesmo alguém que não estava com a cabeça ali no lugar teria se cansado muito antes de uma hora -, ouvi a voz de Michael novamente, agora mais tranquilo, e fui puxado de volta à realidade.
- Ela tá te esperando, quer falar com você
- Ãh... OK – Assenti.
E fui. Lentamente caminhando pela sala, em direção ao quarto de Mary, com Michael me observando. Pensei em correr na direção dele e dar-lhe um soco, mas mudei de ideia rapidamente. Uma merda na noite já tá de bom tamanho. E lá estava Mary Ann.
Sentada na sua cama, com cara de choro, puta da vida. Nesse momento eu agradeci mentalmente a meus pais por não deixarem ela treinar tiro e ter uma arma. Mas ela tinha um taco de baseball. Graças a Deus – Ou a quem quer que seja -, não estava à vista.
- Vem cá – Disse ela, apontando pro espaço vazio a seu lado. Eu, é claro, havia parado na porta. Medo de pisar dentro do quarto e ativar uma armadilha. Depois de alguns segundos de ponderação – E profundo cagaço -, me movi. Ainda vivo, ufa. Sentei ao lado de Mary Ann.
- O que diabos foi aquilo?! - Ela perguntou
- Eu é que te pergunto, Mary. Que merda é essa? Casar com o Michael?! Que porra! - Pensei que ela fosse começar a chorar. E, talvez pra me contrariar – afinal, ela sempre gostou de fazer isso -, ela não o fez. Mas se controlou bastante. Eu notei. Em vez do choro, uma longa respiração.
- Em primeiro lugar, você não tem nada a ver com a minha vida. Eu tenho 24 anos, posso fazer o que eu bem entender. Sempre foi assim, você sabe disso. Em segundo lugar, eu sei o que você tá pensando. E eu tenho que admitir que pensei o mesmo, quando o Mike fez o pedido. Afinal... Ele é gay! - Ah, sim, esse é meu único questionamento, claro. Não pensei que ele fosse querer uma parte da grana futura de Mary, ou coisa assim. Imagina.
- Mas aí ele me explicou o porquê dessa proposta repentina. Você sabe, Jim, que ele tem um namorado, e tal... Os dois vão se mudar de Nova York por conta de trabalho – Deus ouviu minhas preces, finalmente! - e eles tão querendo iniciar uma família, adotar uma criança. Só que o lugar pra onde eles vão ainda não legalizou, sabe... a união deles, então eles meio que não podem fazer isso pelas leis de lá. Só um casal heterossexual pode, então... Ele é meu amigo, quero ajudá-lo.
- Beleza. Vou ligar pro pai e pra mãe amanhã – Eu disse depois de alguns segundos, me levantando pra sair do quarto.
- Argh! Pra quê eu perdi meu tempo falando disso, James?! Que merda! - A ouvi resmungar, com voz de choro mais uma vez.
Enquanto me dirigia ao meu quarto, Michael foi até Mary, e eu não ouvi mais nada a partir daí, já que tranquei minha porta.
A verdade é que eu não tava entendendo porra nenhuma. Tanto alarde por causa disso? Tudo bem que eu fui meio babaca, mas custava ter me contado antes? Como ela mesma disse, não tenho nada a ver com a vida de ninguém, fora a minha. Essa cena toda poderia ser evitada. Só, talvez, minha pequena provocação persistiria. Eu não iria ligar de verdade pros nossos pais, não sou tão péssimo irmão assim. Mas ela não precisa saber. Eu não tô nem aí pra esse casamento, eu só queria não ter sido o último a saber. Detesto isso.
Adormeci.
Acordei com meu despertador tocando feito louco, dez e meia da manhã. De um sábado. Sempre esqueço de desligar essa merda. Mary não está em casa. Provavelmente vai me evitar o fim de semana inteiro, esperando que eu esqueça a ameaça feita na noite anterior. Melhor pra mim. Tomei um banho, comi e fui pegar o jornal. De todos os parágrafos que escrevi ontem, só três foram publicados, sobre a prisão de uma ex- popstar adolescente. Roubo em loja de conveniência. Que decadência, minha e dela. Opa, meu telefone tá tocando. Atendi. Como eu meio que esperava, era Stephen do outro lado.
- Ô filho da puta, vamos almoçar?
- Cara... Eu acabei de acordar, nem vai dar.
Rimos.
- Tá, tá, posso dar uma passada aí? Tenho outras coisas pra fazer na cidade hoje, e queria resolver aquele assunto rápido...
- … Beleza, pode vir.
A chamada foi encerrada e voltei a pensar no que Stephen havia dito na noite passada. “Coisa profissonal”. O que será? Bom, cerca de meia hora depois da ligação, eu estava para descobrir.
- E aí, cara, tudo certo? Cadê Mary?
- Ãh... Não sei. Acordei e ela já não tava aqui. Não deve voltar tão cedo, depois do que rolou ontem...
- Espera aí, o que rolou ontem?
Eu havia esquecido que Stephen e Abraham foram embora um pouco antes.
- Ah, é, vocês já tinham ido embora. Mary Ann anunciou que vai se casar. Com aquele zé mané do Michael.
Dessa vez, não deu pra não rir. Ainda mais porque Stephen instantaneamente soltou uma grande gargalhada. Depois duma careta esquisita de surpresa. Devolvi com minha careta de “Longa história”.
- Ai ai... Essa menina e suas escolhas de vida, sempre nos surpreendendo... E escolhas de guarda roupa...
- E escolhas de vocabulário... - Acrescentei.
Voltamos a rir.
- Que loucura, hein, cara? Enfim... Vamos ao que interessa, tem uma galerinha me esperando pra uma reunião daqui menos de uma hora. O negócio é o seguinte: Tô com um projeto novo, o estúdio recusou meu roteiro inicial e pediram prum outro camarada reescrever. Mas eu não curto o trabalho dele, e tô procurando um cara bom pra isso, então... Se anima ou não? Você é o melhor que eu conheço que tá disponível. E ainda é barato – Ele riu. Eu não.
- Ãh... - Isso só pode ser sacanagem dele. Tem tudo pra dar errado. Ele é maluco.
- Eu sei que você vive ocupado com o jornalzinho, mal tem tempo, mas a grana é boa. Ainda coloco um extra do meu bolso pela camaradagem
- Ãh... - Eu não tenho experiência nenhuma na indústria, e Stephen sabe muito bem disso. É sacanagem. Tem que ser.
- Vai escrever o roteiro ou não, cacete?!
É, acho que Stephen tá falando sério, melhor responder. Ele continua sendo um babaca, mas agora um pouco menos. Isto é, se a proposta for séria.
- … Posso responder depois? Tenho que ver como vai ficar minha situação no jornal antes, pra poder conciliar as coisas...
E ele riu de novo. Não sei por qual motivo, nem tentei ser engraçado.
- Final do dia. Não me decepciona, cara. Sem você, eu tô fodido.
Stephen se levantou e saiu, sem dizer mais nada. OK, esse momento foi muito estranho. Tá tudo parecendo uma grande pegadinha, uma “realidade inventada”. Será que eu tô no “Show de Truman”? Caralho, eu sou o Truman! E eu sinceramente duvido que ele ficaria “fodido” se não realizasse um filme. Três dos 4 dele estão entre as maiores bilheterias da última década. Um desses três tá no Top 10 da história do cinema mundial.
Eu não quero ser o Jim Carrey.
Talvez naquele filme com a Kate Winslet, mas não em “O Show de Truman”.
Sério, seria muita sacanagem. Gosto de criar personagens, não ser um deles.
Depois de algumas poucas horas – Nas quais fiquei feito louco zanzando pelo apartamento -, no meio da tarde, alguém tocou a campainha. Fui abrir a porta.
Era Paige, muito provavelmente ainda puta comigo.
- Mary tá em casa?
- Não. Saiu, não sei pra onde. Entra aí.
Ela pareceu considerar por alguns segundos, até que passou por mim, entrando no apartamento. Fechei a porta e juntei-me a ela no sofá.
- Vocês... Ãh... Conversaram?
- Sim, ela me contou a história, Michael quer...
- É, eu já tô sabendo.
- Como é?
- Sei há algumas semanas, já. Na verdade, eu é que ia te contar. Mas não consegui.
- Que porra é essa?! Acham que eu sou um monstro ou o quê?!
- Não... Não é isso. Jim, você sabe que ela tem medo de você.
- Medo de mim? Eu é que tenho medo dela, Paige. A Mary Ann adolescente ainda hoje me causa pesadelos.
- … Foda-se, não tô aqui pra discutir com você, seu cagão.
- É, foda-se. Tenho coisas mais importantes pra cuidar, hoje mais cedo recebi uma proposta de trabalho...
- Oi?!
- Stephen me chamou pra cuidar dum roteiro dele, e parece que vou ter que começar logo.
- Mas... E o jornal, Jim?
- Olha, eu sei que pode dar merda, que isso pode ser furada... Mas é a minha oportunidade, Paige! Vai dizer que, no meu lugar, você não faria o mesmo?
- Mas James... O jornal é um emprego seguro...
- Seguro pode ser, mas é terrível o que eu faço, você sabe. Se eu estivesse cuidando das páginas policiais como você, talvez eu visse de outro jeito. Mas eu não tenho futuro naquele jornal.
- …
- …
- Você tá certo. Vai aceitar, então?
- ... Ainda não sei, pra falar a verdade.
- Porra! Aceita logo essa merda! - Ela exclamou, e logo em seguida me deu um soco no braço. Acho que ela simplesmente gosta de me bater.
Um pouco mais tarde naquele dia, depois que Paige foi embora – Mary chegou em casa, mas logo foi pro quarto em silêncio -, peguei meu telefone e disquei o número de Stephen.
- Opa... E aí, cara, aquela vaga ainda tá livre?
Só o que eu ouvi foi uma risada do outro lado. E algo que não esperava. Não tão cedo. A voz de Mary Ann.
- Ei, Jim... Podemos conversar?
Oportunidade profissional e conversa séria logo em seguida. É, não dá pra ganhar sempre.
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