domingo, 25 de setembro de 2016

Nunca teve um nome. Continuará a não ter - Parte 4

Topei a parada, claro. Não queria morrer. Embora eles não fossem realmente me matar. Precisavam de mim, pra continuar por aí, nas "casas do terror" em parques de diversão, ou sei lá o quê. Se eles não fazem isso, ficam o tempo todo aqui nesse castelo imenso, sem trabalhar, acabaram de me deixar puto. Mas, dane-se. O vampirão mandou uma empregada arrumar um quarto pra mim. Não iria partir de imediato, claro. Só no outro dia. Fui para o quarto, tomei um banho (sim, havia um banheiro lá. Quarto de castelo é outra coisa.), e deitei na cama. Tinha jeito de antiga, bem antiga, mas era resistente. O colchão, macio, bom pra dormir. Mas foi difícil dormir depois de passar não sei quanto tempo dividindo a mesa com um zumbi, um vampiro, e a noiva do Frankenstein, Anna... alguma coisa. Não sou bom em guardar sobrenomes ditos enquanto um cara ao lado retirava o globo ocular e o limpava. Peguei no sono, e, no que pareceram segundos depois, fui acordado por violentas batidas na porta. Olhei para a janela, meio aberta. Ainda não havia amanhecido. Cacete. Eu sou humano, tenho que dormir. Abri a porta, e lá estava Roxanne, vestida com um roupão negro. Opa. Será que tem alguma coisa por baixo? "Nichols, sem piadinhas. A situação é séria. Vamos, entre". Ela me empurrou pra dentro e fechou a porta. Maldita, leu meus pensamentos. "Você tem certeza?", ela perguntou. "Tem certeza de que quer fazer isso?". "Claro que tenho. Se você não percebeu, meu chefe é um vampiro. Pode me matar, se não obedecê-lo. E, além disso, tem toda aquela coisa do Drácula ser meu antepassado... Aliás, como descobriram?". Ela ficou me encarando por alguns segundos, até começar a responder. Quem me dera ter a mesma habilidade dela, e poder ler sua mente. "Eu descobri. Drácula... Eu e Drácula fomos... amigos próximos". Amigos próximos, entendi. Eram um casal, claro. "E eu... consigo sentir o mesmo sangue pulsando em suas veias, Steve". Primeira vez que ela me chama pelo nome. E, não sei porque, apenas agora notei certo sotaque francês na voz de Roxanne. Belo sotaque, aliás. Mas ela ainda não tinha dito o motivo de sua visita. "Eu vim..  te trazer uma coisa. Desculpe te acordar, mas achei necessário. Você não trouxe nada pra cá, e eles, Andretti e os outros, não vão te deixar buscar nada. Armas, nada. Acreditam que você não vai precisar, que tem habilidades, apenas por ter sangue de vampiro. Mas ambos sabemos que não é tão simples assim. Por isso, eu trouxe... esta.". Roxanne tirou, de dentro do roupão, um comprido revólver, prateado, mas com aparência desgastada. "É velho, mas ainda funciona. Foi com essa arma que Drácula morreu. As balas aqui dentro podem matar qualquer criatura. Você vai precisar. Nós vamos precisar. Amanhã, seremos enviados ao Egito. É apenas o primeiro ponto de nossa longa jornada. Enfrentaremos perigos inimagináveis para os mortais, Sr. Nichols. Você poderá não regressar com vida. Use com sabedoria. Agora, com licença, boa noite". Roxanne, que estava sentada ao meu lado na cama, se aproximou e me beijou no rosto, antes de se levantar. Fiquei paralisado por alguns segundos, mas consegui sair do "transe', equanto Roxanne saía e fechava a porta. "Ei, Roxanne, de quem era este revólver?", perguntei, torcendo para que ela tivesse escutado. Felizmente, sim. Seu rosto reapareceu pelo espaço ainda aberto da porta, e Roxanne respondeu. "Era meu, Sr. Nichols. Era meu". O rosto desapareceu e a porta se fechou, com um estrondo. Podia jurar que vi uma pequena lágrima se formando, antes da porta bater. O arrependimento de uma mulher ciumenta imortal.

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