"O
quê?! Não, pera, pra onde vocês tão me levando?!" Perguntei.
Logo em seguida, um dos... Ah, perdão. Acho que me adiantei um
pouquinho demais, né? Ãh.. Vou começar pelo meu.. É, isso,
Phillip, é meu nome. Sim, sou eu, Phillip. Você deve me conhe..
Não, acho que não. Acabei de ser criado, oras. Apenas existo na
cabeça do escritor. Ainda. Ou talvez nem isso. É, nem isso. Ainda.
E eu sou.. um autor. É, de livros, essas coisas. Eu sei, eu sei, um
personagem principal que é um autor, bláblá.. Não é muito
original. É que esse autor tem um leve probleminha de falta de
criatividade, perdoe-o. Brincadeira, brincadeira, o cara até que não
é tão ruim, é esforçado, o garoto. Mas eu tenho que dizer, sou um
personagem fraco. Fraco mesmo, magrelo, e tal. Míope. Meio barbudo.
Feio, esquisitão. O que chamam de "Nerd". Mas tudo bem.
Volto a dizer, perdoem o autor. Eu perdôo. Tenho 3 livros
publicados, nenhum fez sucesso, rendeu filmes – grande significado
de “sucesso”, hoje em dia, aparentemente -, nada. Nem críticos
me chamando de "pior autor de todos os tempos" ou coisa
parecida. Não ganhei dinheiro nenhum. Nem a minha editora, que por
sorte (ou não), é a minha editora. Sou rico, me desculpem. Também
faço roteiros pra tv, comédias de quinta categoria exibidas em
pequenas emissoras. Ninguém vê. Quando a audiência chega a 1%, é
uma festa. Pelo menos, eu recebo dinheiro. Eu menti, a editora não é
minha. É de meu irmão mais velho, que me demitiu após os 3
fracassos. Se não fosse meu irmão, o chamaria de filho da puta. Se
bem que ele pode ser adotado. Ou talvez eu possa. Kevin Filho da
puta. Me perdoem, me perdoem. Não tenho mulher, filho (graças a
Deus), carro. E nem casa. Um quartinho alugado no centro da cidade é
tudo o que eu tenho e preciso. Mas, então, qual a razão de meu
querido criador tê-lo trazido até aqui, afinal? Vou lhe dizer. Como
eu disse há pouco, sou roteirista de um programete calhorda de
humor. Humor na tv é baseado em crítica, sátira de figuras
públicas. Logo, comecei a zoar todo mundo. Governantes, emissoras
rivais, a própria emissora para a qual trabalho... Ninguém viu,
ninguém processou. Ninguém vê o meu programa. O problema veio
mesmo quando eu comecei a tocar em assuntos mais "cascudos",
como o crime. Criminosos internacionais, atos violentos de grande
repercussão... Alguém viu. Alguém começou a enviar cartas
anônimas para meu pequeno apartamento. "Vou matá-lo",
"Arrancar suas tripas", e todas aquelas frases clichês de
ameaçadores anônimos que fazem você se borrar nas calças. Pelo
menos, fazem as pessoas covardes como eu se cagarem nas calças.
Literalmente. Logo em seguida, comecei a exagerar um pouco nesse
aspecto. Não, não estou falando de cagar nas calças. Deixei as
piadas cada vez mais pesadas, agressivas, e menos engraçadas.
Cutuquei a onça com vara curta. E tenho que lhes dizer, que merda
que eu fiz. Recebi outra carta. "Você passou dos limites, vou
pegá-lo". Toc, toc, toc. 3 batidas na porta. 00:25 de uma
madrugada de domingo. Nem que eu estivesse esperando alguém. Toc.
Mais uma batida, e total silêncio. Puta que pariu, arrombaram a
porta, e em segundos, já não vejo mais nada.
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