Capítulo 12 -
Fecham-se as cortinas.
Tô preso, amarrado numa cama, de novo. Puta que pariu. Bom, pelo menos, essa é mais confortável. E o lugar, também, é mais agradável. Ei, eu conheço esse lugar... é a mansão do velho. Lógico. Tinha que ser. Minha vida vai acabar aqui, onde toda essa história de Radar começou. Eu vou morrer sem conseguir lembrar meu próprio nome. Morrerei pelas mãos de meu tutor e da mulher que sempre amei. Tem como piorar? Ah, tem. Quando seus executores são dois doidos de pedra, tem como piorar muito. Vieram me fazer uma "visita", o casal maldito. Apenas o idoso falava. Julie se sentou num canto, sem olhar pra mim, aparentemente nervosa. Mas poderia muito bem ser um teatro pra me enganar de novo. Ela mostrou ser uma boa atriz, nesses últimos meses. "Ah, Radar, meu garoto... sempre impulsivo. Por isso que nunca serviu. Nunca alcançou nada. Está condenado a passar o resto de seus dias ajudando velhinhas a atravessarem as ruas. E ainda se diz um herói. Coitado". "E eu sou um herói, velho. E uma pessoa melhor que você. Não preciso de poder pra ficar bem. Nada disso importa. Nunca tive, mesmo, nada disso. Não me importo de passar o resto da vida ajudando velhos, crianças, e animais. Não só eles, mas todos precisam de ajuda. E eu posso dar essa ajuda a eles. E é por isso que eu sou um herói. Porque eu faço o que muitos não fazem. Eu ajudo o próximo". Ah, agora, com certeza, emputeci a bicha velha. Ele ficou maluquinho. Dava pra ver a veia pulsante no pescoço dele, tamanha a raiva. Estava um tanto engraçado, mas, claro, perigoso. Ele se virou para Julie e ordenou em voz alta "Sonífera, carga total". Ai, caralho. Ai, caralho. Ai, caralho. Carga total. Eu sabia bem o que significava isso. Ela usaria seu poder com tanta força em mim, que me mataria rapidamente. Merda. Ela se levantou, e veio até mim. Boris a observava, de longe. Pôs um papel em minha mão, aproximou o rosto do meu e sussurrou "Leia, quando acordar. Assim que tudo isso acabar". Apaguei. Acordei no que pareceram segundos depois, com um estrondo na porta. Estavam invadindo. Meus alunos e os agentes estavam ali pra me salvar. Julie e Boris estavam "enrolados", brigando. Um tiro foi disparado. Ouvi a voz de Harris "Mãos na cabeça. Acabou, Boris". Enquanto eu me levantava, com a ajuda de Christie, vi Harris se aproximar das duas pessoas que estavam caídas, se abaixar, e puxar Boris para o alto, pelo braço. Ele não iria reagir à prisão. Meu discurso fez efeito, enfim. Julie continuava caída. Enquanto Harris retirava Boris algemado daquela sala, me aproximei. Havia uma poça de sangue perto da cabeça. O tiro que ouvi deve tê-la acertado. Julie estava morta. "Sinto muito", Christie disse, tentando me consolar. Mas não surtiu efeito algum, admito. Enquanto era levado para fora daquela mansão, me lembrei do momento antes de ter apagado. O papel que Julie me entregou. Ainda estava na minha mão. Abri-o calmamente, e comecei a ler. "Provavelmente, estou morta agora. Eu sabia que esse momento ia chegar. Acompanhei todos os passos da montagem e execução dos planos de Boris. Mas eu não queria. Juro, eu não queria. Mas o governo me fez voltar. E você não devia saber. Além de um plano de Boris, também foi um plano do governo, deixar chegar a esse ponto. Deixar que você fosse capturado. Naquele dia, na prefeitura, eu fiquei não só por Boris, mas também por eles. Como eu havia os informado que você tinha sido um aprendiz do velho, eles pensaram que ele iria querer te encontrar. E foi justamente o que aconteceu. Eu sei, fui burra, de me meter nisso, que pode dar errado, mas eu tinha que obedecer ordens. Os agentes invadirão a mansão esta tarde, e recebi ordens de efetuar um ataque direto ao velho. Devo morrer. E talvez seja em vão. Talvez ele fuja. De qualquer forma, nunca poderemos ficar juntos. Mas continue fazendo o que faz de melhor, Radar. Continue salvando vidas, se puder. Eu apenas espero que ainda confie em mim o mínimo, para que não dispense esta carta. Para que possa me entender. Adeus".
Dois anos depois...
"O maior criminoso do país, Boris, acaba de morrer na prisão", informa a apresentadora do telejornal. E eu?, vocês se perguntam. Bom, eu... eu estou... bem. Abandonei aquele bando de filhos da puta do governo, e voltei à minha cidade. Claro, agora conto com ajudantes. Peguei uns 10 daquela molecada pra trabalharem comigo. Bons garotos, bons garotos. Continuo salvando gatinhos e ajudando velhinhas, sim. Mas e daí? Não importa se é uma secretária ou o Bill Gates, a vítima, contanto que ela saia com vida, contanto que eu consiga ajudá-la. Um herói não escolhe quem vai ajudar. Um herói de verdade apenas ajuda o próximo, sem se importar se vai ganhar algo com isso ou não.
Tô preso, amarrado numa cama, de novo. Puta que pariu. Bom, pelo menos, essa é mais confortável. E o lugar, também, é mais agradável. Ei, eu conheço esse lugar... é a mansão do velho. Lógico. Tinha que ser. Minha vida vai acabar aqui, onde toda essa história de Radar começou. Eu vou morrer sem conseguir lembrar meu próprio nome. Morrerei pelas mãos de meu tutor e da mulher que sempre amei. Tem como piorar? Ah, tem. Quando seus executores são dois doidos de pedra, tem como piorar muito. Vieram me fazer uma "visita", o casal maldito. Apenas o idoso falava. Julie se sentou num canto, sem olhar pra mim, aparentemente nervosa. Mas poderia muito bem ser um teatro pra me enganar de novo. Ela mostrou ser uma boa atriz, nesses últimos meses. "Ah, Radar, meu garoto... sempre impulsivo. Por isso que nunca serviu. Nunca alcançou nada. Está condenado a passar o resto de seus dias ajudando velhinhas a atravessarem as ruas. E ainda se diz um herói. Coitado". "E eu sou um herói, velho. E uma pessoa melhor que você. Não preciso de poder pra ficar bem. Nada disso importa. Nunca tive, mesmo, nada disso. Não me importo de passar o resto da vida ajudando velhos, crianças, e animais. Não só eles, mas todos precisam de ajuda. E eu posso dar essa ajuda a eles. E é por isso que eu sou um herói. Porque eu faço o que muitos não fazem. Eu ajudo o próximo". Ah, agora, com certeza, emputeci a bicha velha. Ele ficou maluquinho. Dava pra ver a veia pulsante no pescoço dele, tamanha a raiva. Estava um tanto engraçado, mas, claro, perigoso. Ele se virou para Julie e ordenou em voz alta "Sonífera, carga total". Ai, caralho. Ai, caralho. Ai, caralho. Carga total. Eu sabia bem o que significava isso. Ela usaria seu poder com tanta força em mim, que me mataria rapidamente. Merda. Ela se levantou, e veio até mim. Boris a observava, de longe. Pôs um papel em minha mão, aproximou o rosto do meu e sussurrou "Leia, quando acordar. Assim que tudo isso acabar". Apaguei. Acordei no que pareceram segundos depois, com um estrondo na porta. Estavam invadindo. Meus alunos e os agentes estavam ali pra me salvar. Julie e Boris estavam "enrolados", brigando. Um tiro foi disparado. Ouvi a voz de Harris "Mãos na cabeça. Acabou, Boris". Enquanto eu me levantava, com a ajuda de Christie, vi Harris se aproximar das duas pessoas que estavam caídas, se abaixar, e puxar Boris para o alto, pelo braço. Ele não iria reagir à prisão. Meu discurso fez efeito, enfim. Julie continuava caída. Enquanto Harris retirava Boris algemado daquela sala, me aproximei. Havia uma poça de sangue perto da cabeça. O tiro que ouvi deve tê-la acertado. Julie estava morta. "Sinto muito", Christie disse, tentando me consolar. Mas não surtiu efeito algum, admito. Enquanto era levado para fora daquela mansão, me lembrei do momento antes de ter apagado. O papel que Julie me entregou. Ainda estava na minha mão. Abri-o calmamente, e comecei a ler. "Provavelmente, estou morta agora. Eu sabia que esse momento ia chegar. Acompanhei todos os passos da montagem e execução dos planos de Boris. Mas eu não queria. Juro, eu não queria. Mas o governo me fez voltar. E você não devia saber. Além de um plano de Boris, também foi um plano do governo, deixar chegar a esse ponto. Deixar que você fosse capturado. Naquele dia, na prefeitura, eu fiquei não só por Boris, mas também por eles. Como eu havia os informado que você tinha sido um aprendiz do velho, eles pensaram que ele iria querer te encontrar. E foi justamente o que aconteceu. Eu sei, fui burra, de me meter nisso, que pode dar errado, mas eu tinha que obedecer ordens. Os agentes invadirão a mansão esta tarde, e recebi ordens de efetuar um ataque direto ao velho. Devo morrer. E talvez seja em vão. Talvez ele fuja. De qualquer forma, nunca poderemos ficar juntos. Mas continue fazendo o que faz de melhor, Radar. Continue salvando vidas, se puder. Eu apenas espero que ainda confie em mim o mínimo, para que não dispense esta carta. Para que possa me entender. Adeus".
Dois anos depois...
"O maior criminoso do país, Boris, acaba de morrer na prisão", informa a apresentadora do telejornal. E eu?, vocês se perguntam. Bom, eu... eu estou... bem. Abandonei aquele bando de filhos da puta do governo, e voltei à minha cidade. Claro, agora conto com ajudantes. Peguei uns 10 daquela molecada pra trabalharem comigo. Bons garotos, bons garotos. Continuo salvando gatinhos e ajudando velhinhas, sim. Mas e daí? Não importa se é uma secretária ou o Bill Gates, a vítima, contanto que ela saia com vida, contanto que eu consiga ajudá-la. Um herói não escolhe quem vai ajudar. Um herói de verdade apenas ajuda o próximo, sem se importar se vai ganhar algo com isso ou não.
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