Sério, não é uma sensação legal, a de uma arma apontada pra sua
cabeça. Muito menos duas. Esses caras não estão de brincadeira.
Bem que eu queria, mas não estão. Ou talvez as armas sejam de
brinquedo, ainda há esperança. "Tu que é o cara das
piadinhas, né?!", um perguntou. Ótimo. São todos burros.
Alguém com o mínimo de inteligência se lembraria do meu rosto. Não
por ter a ver com tv, nem nada disso. Mas por eu ser feio. Feios são
incomuns, fáceis de serem lembrados. Acenei meio tremido, como se
estivesse com medo. E estou com medo, pra caralho. "Certo, então
é tu mesmo que meu chefe quer ver.." Pensei em perguntar quem é
o chefe deles, mas, como eu com absoluta certeza receberei um "não
é da sua conta" como resposta, preferi esperar. E então
chegamos. Bem rápido, até. Meia horinha, papum. Fábrica
abandonada. É sempre uma fábrica abandonada. A falta de
originalidade reina aqui. E que por favor não tenha nenhuma "máquina
cortante", não quero perder minhas bolas. Fui arrastado para
dentro do prédio por um dos mascarados, um grandalhão com cara de
mau. Sei lá, ele é grandalhão, bandido, voz raivosa.. Deve ter
cara de mau. O babaca me jogou no chão de uma sala qualquer. Tudo
escuro, não dá pra enxergar absolutamente nada. Eu odeio quando tá
escuro assim e do nada.. FILHO DA PUTA! Tô temporariamente cego,
acenderam as luzes de repente. Risadas ecoando nas paredes. É uma
sala grande.. E o dono das risadas também. É, ele tem risada de
gordo. Sabe, tipo o Papai Noel, só que meio sarcástico. E acabou
que acertei. Um cara gordo, mas muito gordo mesmo, enorme. Cabelos
brancos, sorrisinho sarcástico e um charuto cubano. Ah, e o terno
italiano. Don Papai Noel. "Phil, olá. Sente aqui, meu jovem".
E então eu notei uma mesa de escritório no centro daquele galpão
imundo e mal cheiroso. Sério, alguém passou muito mal aqui, só
pode ser. Não tive outra escolha senão levantar do chão e me
sentar à frente do Corleone. "Você não sabe quem eu sou, mas
eu tive que te chamar aqui..." Mas é claro que sei quem é
você, gordão. O grande chefe da Máfia Italiana, assassino brutal,
e principal alvo das minhas piadas, Top 5 dos procurados pela
Interpol, é claro que sei quem é você, Luigi. "... Porque não
estou satisfeito com o que andam falando de mim neste país, meu
jovem. E as evidências indicam que isso tudo é culpa sua"
Pronto, arma na cabeça de novo? Faca no pescoço? Choque elétrico?
Bastão de Beisebol? Caralho, vão cortar meu pinto! "Dito isto,
gostaria de propor um acordo, Phil. Não cite mais meu nome em seu
programinha e receberá 30 milhões de dólares" "Não".
E ele começou a rir, de forma assustadora. Se levantou e derrubou o
copo com um tapa. É, havia um copo. Whisky. Mas eu não bebo. "COMO
OUSA RECUSAR 30 MILHÕES DE DÓLARES, RAPAZ?!" E aí foi a minha
vez de rir. "30 milhões eu tenho quando eu quiser, gordão"
E é verdade. Acontece que minha família é rica, mesmo. Tá certo
que me neguei a ter qualquer envolvimento com a parte rica da família
e moro num apartamentinho mequetrefe, mas ele não precisa saber
disso. E com certeza os capangas burraldos não disseram a ele onde
me encontraram. Não sabem pronunciar "mequetrefe". Aí eu
tomei um socão do gordão. Devo dizer que doeu. Bastante. E então
Luigi pegou o seu celular. Isso nunca é um bom sinal. "Descubram
onde a família do rapaz mora e os tragam aqui. Todos. A mãe, o pai,
o irmão... A namorada. Vivos ou mortos". Não sei se é
possível lembrar, mas eu já disse que não tenho mulher, namorada,
nem nada. Mas já tive. A única, e a mulher mais incrível que já
conheci. Só sei que, se esse velho tentar encostar nela, ele tá
fodido.
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