Esse meu tornozelo tá
uma merda. Não consigo nem mais ficar em pé, direito. Estou há
dois dias nessa cela maldita, não aguento mais esse lugar. E ainda
não descobri onde diabos machuquei minha perna. Ah, chinês
desgraçado. Chang alguma coisa, sei lá, o nome dele. Do cara que me
causou isso, essas viagens temporais desreguladas. E pensar que eu
poderia ter dado conta dele nos tempos de colégio. Não estaria
nessa situação. Mas eu sempre gostei dessas coisas de ciência, um
pouco. E sempre fui um idiota. Eu estava no início de minha
carreira, e como qualquer um em início de carreira, não apareciam
muitas oportunidades pra mim. Figuração aqui, figuração ali,
cadáver na série de investigação policial, et cetera. E, num dia,
eu reencontrei Chang, e ele me contou o que estava fazendo. "Eu
acho que consegui montar a máquina do tempo, Adam", ele disse.
Disse também, é claro, que ganharia muito dinheiro com isso, se
provasse que funcionava. E o que eu fiz? É óbvio, me ofereci como
cobaia. Tava precisando comer, oras. E deu no que deu. Combinamos de
testar a máquina, na noite anterior à demonstração pra imprensa.
E lá fui eu, este grande imbecil, para uma fábrica abandonada, no
meio do nada, numa noite de tempestade. Eu devia ter desconfiado que
ia dar merda. Tempestade, noite e imensos lugares abandonados não
formam um trio bacana. Mas fui lá, invadi a fábrica. E, lá dentro,
estava ela... A merda da máquina do tempo, que mais parecia um
computador da idade da pedra. Puta que pariu, Chang. A máquina era
enorme, fazia um barulho ensurdecedor, a quantidade de fumaça que
saía era imensa. "Tem certeza que essa merda vai funcionar,
China?" "Calma, cara, essa é a primeira versão. A que
vamos mostrar está na universidade" "Ah, que beleza. Como
você vai testar uma máquina diferente, animal?!" "Só o
visual é diferente, Adam. Todo o material é o mesmo, eu tinha de
sobra" "Ah, que bom.. Mas, que material é esse? Quem
financiou a pesquisa?" "Eu não posso dizer" "Ah,
eu que vou ser a cobaia, e não posso saber onde eu estou me
metendo?" "É, isso mesmo. Agora.." Estrondos. Estavam
arrombando a fábrica. Gritos, correria, e, em poucos minutos,
apareceram diante de nós alguns homens armados. Chang, tão
horrorizado quanto eu, me empurrou pra dentro da máquina. Filho da
puta. O treco começou a sacudir, a exalar um cheiro horroroso,
enquanto eu ouvia gritos do lado de fora. Fechei os olhos, com medo,
enquanto a máquina ainda balançava. 3 tiros. E eu abri os olhos. Me
vi caído, numa situação semelhante à que passei aqui, quando
cheguei aos anos 60, agora parando pra comparar. Mas a rua não tinha
aspecto antigo. Muito pelo contrário. Olhei para os dois lados, e,
em ambos, o mesmo aspecto futurista, daqueles que vemos naquele
desenho animado, Os Jetsons. Quando eu me preparava pra sentar,
passou por cima de mim algo muito rápido. Sentei-me, apesar de
assustado, olhando pra frente. Ali, diante de mim, uma mulher loira,
bonita, se vale a observação, em pé em algo que flutuava, que
depois entendi ser uma moto. "Vai uma carona aí?", a loira
perguntou, rindo. Definitivamente, eu estava no lugar errado. No
tempo errado. Eu estava no futuro.
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