Eu
avisei. Ginny, minha primeira (E última. Ou seja, única) namorada,
desceu o sarrafo nos capangas e fez o velho italiano desmaiar. Dei
sorte dela ser faixa preta numa arte marcial qualquer aí, que eu
esqueci o nome. Ãh.. Vamos chamá-la de ninja. "Que merda é
essa, Phillip?! 3 brutamontes invadindo a minha casa, começam a
falar de você, me pegaram a força, tive que deixar.." Não
fala do marido, não fala do marido.. ".. Meu marido e minha
filha em casa, sabe-se lá o que está acontecendo com eles.."
Vaca. Mas, tudo bem, eu entendo a preocupação. Vaca. "Eles
podem.. eles podem estar mortos agora.." E ela começou a
chorar. Merda. Odeio ver alguém chorando, dá vontade de rir.
Abracei-a. "Relaxa.. Não vai acontecer nada.. Eles querem a
minha cabeça, e eu tô aqui, não tô? Vamos embora daqui, antes que
essa galera toda acorde. Vamos, precisamos fugir". Pensei em
pegar a arma de um dos burraldos e atirar na cabeça do velho, mas..
Nah, eu não sou assim, não sou um assassino. Não consigo nem matar
uma barata. Eu sei, eu sei, ele pode vir atrás de mim.. Mas vai
demorar pra ele acordar. Na briga que resultou no fim do
relacionamento com Ginny, fiquei dois dias desacordado. Ela é
realmente uma ninja. Nem parece uma professora universitária de
Literatura. E uma escritora de mão cheia, ao contrário de mim. Além
disso, é atriz. Já comentei que ela é ninja? Enfim, pegamos o
carro dos bandidos e chegamos na casa dela, em menos de 10 minutos.
Acho que foi por isso que Luigi mandou os empregados a buscarem. Ela
mora mais perto, longe da cidade, também. Coisa do imbecil do marido
dela, que não gosta da cidade. Cara estranho. A menininha tá ilesa.
Menos mal. O marido bostão sumiu, ót.. Merda. O cara sumiu. E por
minha culpa. Ginny vai me matar. A menininha, Cindy - uma criança
bonitinha, se não fosse o fato de ter a cara do pai - contou que "os
homens maus" haviam batido no seu pai e levado ele não se sabe
pra onde. Ótimo, espero que a cara dele esteja toda.. Droga. Por
sorte, como eu já disse anteriormente, os capangas do Papai Noel
mafioso são mais burros que uma porta. Deixaram o endereço. O píer,
duas quadras da casa. CARA, QUAL É O PROBLEMA DELES?! "Vá
buscá-lo", Ginny disse. O QUÊ?! Mas, mas.. "Vá buscá-lo,
a culpa foi sua. E vivo. Traga-o vivo. Você sabe o que pode
acontecer.." Eu me lembro bem. Nossa primeira briga, uma
joelhada no saco. Ainda sinto a dor daquilo, às vezes. Não tive
outra escolha, peguei o carro de novo e lá fui eu, sozinho dessa
vez. E mais uma vez, a estupidez humana tá do meu lado. Uma arma,
carregada, no porta luvas. Não sei atirar, mas dane-se, é uma arma.
Cheguei no tal píer. Ô lugarzinho sujo.. Todo bagunçado.. Parece
mal assombrado, sei lá. Tudo escuro.. Não consigo enxergar porra
nenhuma. Ouço uma grave voz, aparentemente dando ordens. Com toda a
habilidade adquirida em uma adolescência inteira jogando games de
furtividade, fui averiguar, com o revólver em punho, preparado para
atirar. Ou pelo menos tentando parecer preparado pra alguma coisa.
Três homens mascarados. Um andando dum lado pro outro, era o que eu
ouvi gritar. Outro, encostado numa pilastra, rindo. E um terceiro,
tremendo nervoso, apontando o revólver pra cabeça de um quarto
homem, ajoelhado. À frente deste último, o mar. Estavam prestes a
matá-lo, e jogar seu corpo, numa tacada só. "PODE PARAR COM A
PALHAÇADA!", gritei, saindo de meu esconderijo, apontando a
arma não sei pra quem. Os três se assustaram e se viraram pra mim.
E aí ficou aquela cena ridícula por uns 5 minutos. 3 grandalhões
patetas apontando revólveres pra mim, e eu apontando o meu revólver
pra lugar nenhum. Até que eu fechei os olhos e atirei. Um guincho de
dor. Acertei um, não sei como. Abri os olhos e, ufa!, foi em um dos
bandidos. Os outros correram pra ajudar, e esqueceram o refém
completamente. Corri até ele e o puxei pra meu esconderijo. Demorou
um pouco, mas os caras perceberam que algo tava faltando. Não dá
pra fugir, eles vão me ver. Merda. Apontei pra um e atirei.
Novamente, consegui acertar. Sorte de principiante, presumo. O cara
que sobrou, o mais cagão de todos, ficou sem saber o que fazer. E
eu.. Vocês podem me chamar de idiota a vida toda, mas deu pena do
cara. Peguei o marido de Ginny pelo braço e o levei até o carro.
Mal fechei a porta e já estava acelerando, com medo do bandido
perdidão lá atrás, enquanto o cara que eu havia acabado de salvar
tirava o saco da cabeça. Carl, o cara que foi meu melhor amigo e que
roubou minha namorada depois, deve sua vida a mim. A julgar pela sua
expressão, ele gostou disso tanto quanto eu.
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