domingo, 25 de setembro de 2016

Furo de Reportagem - Parte 3

"Mas, pera aí, como chegaram a Scottfield assim, tão fácil? E como vão provar?" Eu precisava perguntar isso, mesmo sabendo que a resposta seria exatamente a que foi. Silêncio. Ninguém soube explicar. Só ficaram empolgados ao encontrarem a marca da empresa de Scottfield na bomba responsável pela explosão. Puta merda, que polícia imbecil. Sem ofensas, Will. "Já vou praí, Pete. Só preciso entregar a matéria no jornal. Pelo menos, o que temos de concreto". Ou o que restou de concreto, após a explosão. Graças a Deus não soltei esse trocadilho ridículo pelo telefone. Lucy me espancaria. Depois de gargalhar, mas espancaria. "Não saia daí. Se você desaparecer e ir pro bar sem avisar, é um homem morto". Eu já tinha entendido isso da primeira vez, mas, tudo bem, não tem nada demais ouvir de novo. Já ia chamar William pra ir comigo. William. Cadê esse gordo filho da puta? "Ô desgraçado, larga as minhas coisas! Você não vai conseguir nada, sua polícia é imbecil demais pra provar algo contra o magnata" Às vezes eu falo algo e me arrependo imediatamente. É horrível. Dessa vez, não tive tempo. O soco veio antes. "Vê se pensa antes de falar dos meus homens, guri. E pára de frescura, foi só um soquinho" "Soquinho mas doeu, seu corno" "Certeza que o corno sou eu?" Mesmo adulto, nunca tive coragem de começar uma briga. Muito menos com esse cara, que já me livrou de tantas. Gordo escroto. "Quero saber se você descobriu mais alguma coisa, só pra me ajudar a entender um pouco mais esse atentado. Sei lá, as respostas têm que vir de algum lugar, não é?" Não sei se ainda estava meio tonto pela pancada, se sou naturalmente tonto, ou se simplesmente não concordei com o ponto de vista e me recusei a fazer algo, mas continuei parado, encarando-o. É, acho que devo ser um retardado, mesmo. "Não tenho mais nada além do que você já sabe. E acho que você deveria estar um pouco mais preocupado com essa explosão, né? Aliás, com as duas. Ouvi notícias de uma segunda explosão no outro lado da cidade" "Ah, aquilo foi um restaurante que explodiu. Não foi terrorismo. Só o terror do cozinheiro desastrado. E antes que você continue com essa cara de paspalho, não morreu ninguém também. Fica na boa, guri. O cozinheiro era o único no lugar, e só perdeu uma perna" Só. O cara estava cozinhando tranquilamente, perdeu uma perna, e um investigador da polícia, que ainda possui todos os membros, diz só. Que merda, Lucy não me disse praticamente nada pelo telefone. Vou ter que esperá-la pra saber tudo o que aconteceu, o que ela descobriu. Como jornalista, odeio não estar sabendo de nada. Agora acho que entendo Lucy, um pouco. Aproximadamente duas horas mais tarde, ela chegou. William, felizmente, já havia se retirado. Agradeço por ele entender o meu silêncio como "Preciso de tranquilidade para pensar". "Desembucha, Pete. Agora você não escapa. Cadê a bomba que você me prometeu há um mês?" "Primeiro me fala da bomba de hoje. Uma bomba por outra. Preciso tentar juntar umas peças". "Vá à merda, Pete. Não enrola. Fala de uma vez, ou pode ir pro bar e ficar lá sem se preocupar em acordar cedo pro dia seguinte" "Posso mesmo?" Claro que não. 'Vou arrancar seus olhos se levantar desse sofá", o olhar dela dizia. Tive que me segurar muito pra não rir. Eu sempre rio quando fico nervoso. "Lucy, você já está esperando há um mês, pode esperar um pouco mais. Agora, sério, me conte o que descobriu hoje. Como aquela polícia desorientada chegou ao nome de Scottfield?" "Encontraram um pedaço da bomba. Nele, a marca das Indústrias Scottfield" Eu não disse? "Mas eu sei que isso não prova nada, só prova que ele é um grande filho da puta. Qualquer um pode ter comprado a bomba" "Exato. Qualquer um. E esse é um álibi perfeito para aquele mafioso desgraçado. Veja.." À minha frente, alguns cadernos e recortes de jornal. Todos meus, claro, e parte da minha pesquisa. Peguei um dos cadernos e passei algumas páginas, até finalmente parar. "Como eu prometi, aqui está sua bomba, chefa. Tenho meus motivos para acreditar que foi mesmo Scottfield o mandante do atentado terrorista à prefeitura. E tudo por um simples e imbecil motivo: Alguns anos atrás, Charles e o prefeito..." William. "Guri, chega pra cá. O playboyzinho tá aqui, bêbado, atropelou uma velhinha. Vou aproveitar pra... Você sabe. Vou arranjar um jeito de você entrar também". O contador da minha bomba já estava no 2 e voltou aos 10 segundos. "Vem comigo pra delegacia, chefa".

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