"Mas, pera aí,
como chegaram a Scottfield assim, tão fácil? E como vão provar?"
Eu precisava perguntar isso, mesmo sabendo que a resposta seria
exatamente a que foi. Silêncio. Ninguém soube explicar. Só ficaram
empolgados ao encontrarem a marca da empresa de Scottfield na bomba
responsável pela explosão. Puta merda, que polícia imbecil. Sem
ofensas, Will. "Já vou praí, Pete. Só preciso entregar a
matéria no jornal. Pelo menos, o que temos de concreto". Ou o
que restou de concreto, após a explosão. Graças a Deus não soltei
esse trocadilho ridículo pelo telefone. Lucy me espancaria. Depois
de gargalhar, mas espancaria. "Não saia daí. Se você
desaparecer e ir pro bar sem avisar, é um homem morto". Eu já
tinha entendido isso da primeira vez, mas, tudo bem, não tem nada
demais ouvir de novo. Já ia chamar William pra ir comigo. William.
Cadê esse gordo filho da puta? "Ô desgraçado, larga as minhas
coisas! Você não vai conseguir nada, sua polícia é imbecil demais
pra provar algo contra o magnata" Às vezes eu falo algo e me
arrependo imediatamente. É horrível. Dessa vez, não tive tempo. O
soco veio antes. "Vê se pensa antes de falar dos meus homens,
guri. E pára de frescura, foi só um soquinho" "Soquinho
mas doeu, seu corno" "Certeza que o corno sou eu?"
Mesmo adulto, nunca tive coragem de começar uma briga. Muito menos
com esse cara, que já me livrou de tantas. Gordo escroto. "Quero
saber se você descobriu mais alguma coisa, só pra me ajudar a
entender um pouco mais esse atentado. Sei lá, as respostas têm que
vir de algum lugar, não é?" Não sei se ainda estava meio
tonto pela pancada, se sou naturalmente tonto, ou se simplesmente não
concordei com o ponto de vista e me recusei a fazer algo, mas
continuei parado, encarando-o. É, acho que devo ser um retardado,
mesmo. "Não tenho mais nada além do que você já sabe. E acho
que você deveria estar um pouco mais preocupado com essa explosão,
né? Aliás, com as duas. Ouvi notícias de uma segunda explosão no
outro lado da cidade" "Ah, aquilo foi um restaurante que
explodiu. Não foi terrorismo. Só o terror do cozinheiro desastrado.
E antes que você continue com essa cara de paspalho, não morreu
ninguém também. Fica na boa, guri. O cozinheiro era o único no
lugar, e só perdeu uma perna" Só. O cara estava cozinhando
tranquilamente, perdeu uma perna, e um investigador da polícia, que
ainda possui todos os membros, diz só. Que merda, Lucy não me disse
praticamente nada pelo telefone. Vou ter que esperá-la pra saber
tudo o que aconteceu, o que ela descobriu. Como jornalista, odeio não
estar sabendo de nada. Agora acho que entendo Lucy, um pouco.
Aproximadamente duas horas mais tarde, ela chegou. William,
felizmente, já havia se retirado. Agradeço por ele entender o meu
silêncio como "Preciso de tranquilidade para pensar".
"Desembucha, Pete. Agora você não escapa. Cadê a bomba que
você me prometeu há um mês?" "Primeiro me fala da bomba
de hoje. Uma bomba por outra. Preciso tentar juntar umas peças".
"Vá à merda, Pete. Não enrola. Fala de uma vez, ou pode ir
pro bar e ficar lá sem se preocupar em acordar cedo pro dia
seguinte" "Posso mesmo?" Claro que não. 'Vou arrancar
seus olhos se levantar desse sofá", o olhar dela dizia. Tive
que me segurar muito pra não rir. Eu sempre rio quando fico nervoso.
"Lucy, você já está esperando há um mês, pode esperar um
pouco mais. Agora, sério, me conte o que descobriu hoje. Como aquela
polícia desorientada chegou ao nome de Scottfield?"
"Encontraram um pedaço da bomba. Nele, a marca das Indústrias
Scottfield" Eu não disse? "Mas eu sei que isso não prova
nada, só prova que ele é um grande filho da puta. Qualquer um pode
ter comprado a bomba" "Exato. Qualquer um. E esse é um
álibi perfeito para aquele mafioso desgraçado. Veja.." À
minha frente, alguns cadernos e recortes de jornal. Todos meus,
claro, e parte da minha pesquisa. Peguei um dos cadernos e passei
algumas páginas, até finalmente parar. "Como eu prometi, aqui
está sua bomba, chefa. Tenho meus motivos para acreditar que foi
mesmo Scottfield o mandante do atentado terrorista à prefeitura. E
tudo por um simples e imbecil motivo: Alguns anos atrás, Charles e o
prefeito..." William. "Guri, chega pra cá. O playboyzinho
tá aqui, bêbado, atropelou uma velhinha. Vou aproveitar pra... Você
sabe. Vou arranjar um jeito de você entrar também". O contador
da minha bomba já estava no 2 e voltou aos 10 segundos. "Vem
comigo pra delegacia, chefa".
Nenhum comentário:
Postar um comentário