Adormeci rapidamente, e, após o que
pareceram segundos- e talvez até tivessem sido, pois não tenho
noção nenhuma do tempo aqui, preso neste quarto- despertei graças
à batidas violentas na porta. Eu tinha arranjado um jeito de
trancá-la. "Carlson, Carlson, abra essa maldita porta, AGORA",
berrava uma grave voz masculina. Levantei calmamente e, da mesma
maneira, destranquei e abri a porta. Olhei para meu visitante
irritadinho de voz grave. Negro, fortão, cabeça raspada, mais de 2
metros de altura, com certeza. Era um armário. "Pois não, meu
caro. O que deseja?" perguntei, com a maior educação que pude
tirar de dentro de mim. "Meu chefe quer falar com você, vamos",
ele respondeu, segurando meu braço e me puxando para fora de meu
quarto. Troglodita. Troglodita clichê. Deve ter sido segurança de
"estrelinhas" lá em cima. Será que de uma das minhas
"estrelinhas"? Talvez. Ele me arrastou até uma outra
cabana e, assim que a adentramos, fui jogado no chão aos pés de
alguém. "Caramba, Charlie, te falei pra tratar bem o nosso
convidado... afinal, ele é Vincent Carlson". Duas pequenas
observações: Putz...Charlie, o nome do cara. um diminutivo. Só
pode ser brincadeira comigo... e, esse desgraçado, chefe do "pequeno
Charles", é ele, sim, Spike, o bebê cagão. Maldito. Chefe da
segurança. Vê se pode uma coisa dessas... bom, voltando, fui
ajudado a levantar pelo troglodita. Estava bravo, muito bravo, mas
não podia demonstrar. Não queria ficar mais não sei quanto tempo
naquele forno que chamavam de quarto. Dei de cara com aquele garoto,
o Mike. Ele sorria. De forma irônica, muito provavelmente. Repito:
Maldito. Agora estava se sentindo superior. Mas ele ia se ver
comigo...ah, ia. Mas naquela hora não. Ele começou a falar "Vince,
tenho o prazer de lhe informar que...ta daam!" naquela hora ele
tentou fazer uma espécie de dancinha ridícula. Não pude deixar de
rir. "O senhor está liberado para usufruir de nossa bela
cidade. Ainda não demos um nome a ela, mas gosto de chamá-la, como
deve se recordar, de nossa Atlântida. Isso não é mágico?".
Ele agora, sem dúvidas, estava mais bebê cagão que nunca. Bom,
bebê acho que é demais. Molequinho cagão, é melhor. "Me
acompanhe, Sr. Carlson, por gentileza". Ele dizia, enquanto saía
de sua cabana. Não tive o que fazer se não seguí-lo. "Como
creio que se lembra, no dia em que você acordou, eu lhe disse que
aqui adquiríamos habilidades especiais. Pois bem, ali é a área
destinada para que possamos nos habituar com as habilidades
adquiridas, e treinar para usá-las de forma controlada" Disse
ele, apontando para um grande espaço onde meia dúzia de pessoas
parecia ter saído de um daqueles desenhos animados japoneses
malucos, com raios bizarros saindo das mãos. "Aliás...a sua
habilidade já começou a se manifestar, Vince?". Respondi que
não. Mas não era verdade. Eu, de vez em quando, ouvia algumas vozes
distantes. Acho que estava com uma super audição, ou, sei lá,
talvez fossem...espíritos? Enfim, continuei minha caminhada junto
com aquele rapaz. "Ali fica nosso prédio de imprensa, ali, do
outro lado, nosso local para adquirir mantimentos, ao lado, o prédio
onde fica o dinheiro recolhido das árvores, que ficam...ali, mais
adiante, e, perto delas..." parei de ouvir. Fiquei distraído
com um pequeno garoto que surgia a cada segundo num lugar diferente e
mais improvável que o anterior. Era uma cena ao mesmo tempo
assustadora e incrível. Spike, que estava ao meu lado, notou que eu
olhava o pequeno. "Ah...vejo que encontrou nosso pequeno gênio.
Sem ele, não estaríamos aqui. Ele estava aqui antes de acharmos
este lugar, não é incrível? Ele tem apenas 15 anos...grande
garoto, grande garoto. Leonard, seu nome. Também é conhecido por
nós pelo nome Transporte, pois é ele quem nos traz aqui pra baixo.
Você, inclusive, foi trazido por ele. Mas, lembre-se: Nunca chamá-lo
de Transporte na frente dele. Ele é um tantinho egocêntrico, e
precisamos dele em paz para que ele continue colaborando conosco".
Algum tempo depois, ela apareceu. A loira, Cindy, vinha correndo em
minha direção. Mas, peraí, o troglodita vinha correndo atrás
dela. Alguma coisa estava errada. "Sr. Carlson, Sr. Carlson...é
urgente", disse a mulher, quase sem fôlego. "Sua
mulher...sua mulher, senhor, e seu filho foram capturados. Capturados
por nossos inimigos, lá em cima". Maldita hora em que fui
trazido pra cá. Deixei minha família desprotegida. Mas esses
homens, essas pessoas que estão aqui embaixo, tem que ajudar.
Afinal, sou um deles agora. Merda.
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