Egito. Tem lugar melhor
pra procurar artefatos? Claro que não. Artefatos, Egito, Egito,
artefatos. Tudo a ver. Já estou preparado pra entrar num túnel
subterrâneo e atirar numa dúzia de caveirinhas malignas. O avião -
particular, claro, que decolou dos terrenos do castelo.
"Interfêrencia", disse Roxanne. Eu fiquei sem entender,
mas, tudo bem- pousou, no aeroporto do Cairo. Cadê as pirâmides,
esfinges, et cetera? Tomei um soco no braço, de Roxanne. "Não
seja idiota. Esfinges, que te desafiam com charadas, são lenda".
Ah, claro. Vampiros são reais, mas, esfinges cabeçudas, lenda.
"Mas, você acertou uma coisa. Vamos para uma pirâmide".
Legal. Um faraó vai se levantar e me amaldiçoar. Coisa à toa. Nada
com o que eu deva realmente me preocupar. Uma limousine nos esperava
na porta do aeroporto, que estava vazio. É, meus novos amigos tem
grande influência. Viajamos por uma meia hora, até chegarmos numa
parte da cidade cheia de grandes prédios. Grandes não. Enormes.
Roxanne me puxou pelo braço, me arrastando até um prédio, onde um
homem uniformizado nos parou. "Bem vindos à Pyramid. Peguem
estes crachás de visitantes". O homem nos ofereceu os crachás.
Engraçadinha a Roxanne, né? Pirâmide... Crachás postos no
pescoço, partimos para o elevador, que ia até o trigésimo andar. E
foi pra lá que fomos. "Trigésimo andar - presidência - Sr.
Michael Clanston". Pequeno Mike. Puta que pariu. Meu amigo de
infância. Começamos nossa vida de crimes juntos. Éramos parceiros,
quando jovens. Filho da puta. O baixinho subiu na vida. O elevador
parou. Chegamos no andar de número 30. "Dá pra me explicar o
que viemos fazer?". É, ninguém tinha me dito mais nada.
"Viemos pegar um parafuso". Ah, SÉRIO? um PARAFUSO?!. Só
podem estar de sacanagem. "Anna precisa dele. Precisamos do
parafuso para que Francis se levante de novo". Francis, o
monstrengo azulão (ou verde, se você olhar de certo ângulo), que
tem um parafuso de cada lado da cabeça. É, aquele mesmo. "E
onde tá essa merda de parafuso?", perguntei, puto. Caguei se
ela podia me matar ali na hora. "Está com aquele homem".
Ela apontou pra frente. Atrás de um vidro, sentadao em sua mesa,
estava um homem bem arrumado, careca, com um cordão pendurado no
pescoço. E, sem dúvida, o que havia ali era um parafuso. O homem
ergueu a cabeça, em nossa direção, e abriu um sorriso. Era o
Pequeno Mike. Ele se levantou e abriu uma porta ao lado do vidro, por
onde falou com a secretária no canto, que, até então, eu não
tinha notado. "Cancele minhas reuniões, Susie. Estou com
amigos". "Sim, senhor Clanston". Ãh...esqueçam
aquilo que eu disse, sobre ele ser pequeno, coisa e tal. Mike virou
um cara gigante. "Entra, steve. Temos muito o que conversar".
Eu e Roxanne adentramos a grande sala. Bonita, moderna, com quadros
famosos pendurados nas paredes, e tudo mais... É, Michael virou
Grande Mike. Nos abraçamos rapidamente e ele voltou ao seu lugar.
"Sentem-se. Steve, velho amigo, o que o traz a estas bandas?
Ouvi dizer que estava na Europa.. ãh.. trabalhando". "Estava
precisando de umas férias", brinquei. "E, no caminho,
soube que estava aqui, e resolvi fazer uma visitinha. Não nos vemos
há tempos, Mike". "10 anos. Desde que.. você lembra".
Fez-se um silêncio constrangedor e eu sabia bem o motivo. Nossa fama
como criminosos se espalhou pelo submundo, e os caras da Yakuza
quiseram nos contratar. Ele foi, eu não. Fiquei mais um ano na
América, até não poder recusar uma proposta da máfia Russa.
"Larguei aquela antiga vida, Nichols. Me rendeu bons frutos, mas
já não preciso mais de nada. Tenho um império nas mãos, camarada.
Diamantes por toda a África. Literalmente, uma mina de ouro".
Ele não estava tentando me causar inveja. Não era disso. Mas senti
que alguma merda estava por vir. "Steve... O que acha? Não é
maravilhoso, isso? Você também pode subir na vida, caro amigo. Vai
chegar o dia em que você não vai mais precisar trabalhar pra esses
caras. Veja só, você já tem uma esposa. É meio caminho andado".
Ele apontou para Roxanne, que estava pronta pra responder, mas, ela
deve ter pensado melhor, e decidiu que era um bom disfarce,
embora ainda não tivéssemos ideia de como arrancar o parafuso do
pescoço do cara. "Já que você está aqui... Quero que venha
trabalhar pra mim. Reeditar a velha parceria, como nos velhos tempos.
Só que, agora, fazendo o b... Com licença. Sim, Susie, pode falar".
Ele ligou o alto falante e a voz da secretária se fez ouvir. "Sr.
Clanston, temos uma equipe da Interpol na portaria. Dizem estar
procurando um tal de Steve Nichols". Ele me lançou um olhar de
"o que você fez?". Mike sempre foi o mais medroso e
"certinho". Um imbecil, em outras palavras. Roxanne e eu
nos levantamos rapidamente, mas sem saber ainda o que fazer. Se
Michael permitisse a subida de Buchanan, além de ser uma tremenda
filhadaputice, estaríamos ferrados e fracassaríamos. Roxanne ia
morrer por minha culpa. "Pode mandá-los subir, Susie".
Maldito. Pulei por cima da mesa, diretamente em Mike, derrubando-o no
chão. "Seu merda! É assim que trata um velho amigo? É assim
que retribui o cara que te ensinou TUDO?!", eu dizia, batendo
nele. Mike não esboçava e nem ameaçava nenhuma reação. Ele sabia
que tinha feito merda, e sabia que tinha que pagar. Comecei a puxar o
cordão de seu pescoço, mas estava preso. Inevitável, eu ia acabar
matando-o enforcado. Puxei por mais um tempo, cada vez com maior
força, até que o cordão arrebentou. O pescoço de Mike, assim como
seu rosto, estavam da cor roxa. Ele não respirava. Acabei usando
força demais e o matei, por fim. Me levantei, olhando para o corpo
imóvel do meu velho amigo. "Foi necessário, Pequeno Mike".
Olhei para Roxanne, e ela fez um sinal com a cabeça, indicando a
janela. Pular. Do trigésimo andar. Loucura? Claro. A não ser que
você estivesse preparado para uma fuga dessas, e já tivesse um
paraquedas em suas costas.
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