Eu sou Thomas, mas pode
me chamar de Tom, se quiser. Se não quiser, também, tudo bem.
Atendo de todas as formas. E, bom, não tenho muito o que dizer além
de "Sou um escritor". Não profissional - aliás, não
tenho emprego -, levo isso como um hobby. Alguns me dizem que levo
jeito, mas eu discordo. E, pelo jeito, as editoras também. Mas ainda
quero lançar meu livro, um dia. E agora alguém deve se perguntar,
aí, em algum canto: Como esse cara paga as contas? Ele mora debaixo
da ponte? Bom.. Devo dizer que tenho bons amigos. Embora não os
mereça tanto. Laurie, a dona original da casa e melhor amiga dos
últimos 5 anos - Desde que me deixou morar aqui, claro -, Paul, um
velho amigo dos tempos de colégio, e Kelly, a namorada dele. Ou
noiva, sei lá. Nada contra a Kelly, e muito menos contra o camarada
Paul, mas gostava mais quando éramos eu e Laurie apenas. Antes que
alguém pense qualquer coisa errada, não rola nada entre nós dois.
Houve um tempo em que eu queria sim, mas desisti depois. Não daria
certo. A gente só funciona assim, como amigos. Ou talvez nem tanto
assim, mas tá bom do jeito que é. Apesar das discussões idiotas
que acontecem algumas vezes, é divertido morar com ela. É bom. Não
teria graça nenhuma, sem as briguinhas bobas de vez em quando. Paul
veio morar conosco há uns 2 anos, já com Kelly. O louco largou a
banda dele e bateu na porta dizendo "Eu e Kelly vamos casar".
É óbvio que eu achei que fosse piada. E até hoje acho. Nada de
casório, os dois ainda moram aqui, Paul entrou em outra banda.. Mas
tudo bem, tudo bem. Eles pelo menos ajudam na casa. Não sei como
Laurie não me matou ainda. Talvez por ter me salvado uma vez, ela
pense que me matar seria muita sacanagem.. É, deve ser isso. Nos
conhecemos logo na primeira semana de faculdade, mas só fomos nos
conhecer mesmo no terceiro ano. Nos odiávamos. Foi quando, na festa
pós formatura um tempo depois, eu, o imbecil que não sabe beber,
tive um treco. Foi complicado, foi complicado. E ela me salvou. Até
hoje não sei o motivo, mas ela me salvou. Me levou ao hospital e
ficou por perto até que eu estivesse recuperado. Ficamos amigos,
muito amigos. Viajei pelo mundo por um ano, na intenção de
descobrir o que eu queria da vida, e me dei conta de que... Não
queria nada além de escrever. Mas, claro, eu já sabia na época,
não ia ser fácil. E não foi, e não é. E, claro, logo eu não
tinha mais pra onde ir. Tive que apelar pra única pessoa que havia
ficado nos Estados Unidos. E inacreditavelmente, ela me acolheu. Por
sorte maior, ela é de família rica, então não se importou com
minha falta de emprego. É claro que eu queria ajudar, me incomodo
bastante com essa situação, mas ela diz que está tudo bem, então
não vou forçar nada. Não, não pensem que sou um folgado. Continuo
a procurar empregos, continuo enviando meu livro para editoras, mas
nada dá certo. Não sei, talvez eu tenha nascido a pior pessoa do
Universo. Ou a quase pior. Pelo menos, ainda tenho alguém que salvou
a minha vida, um amigo de infância e.. e alguém que eu não conheço
muito bem.
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