domingo, 25 de setembro de 2016

A Morte Dirige uma Van - Parte 2

  E assim começou a minha primeira aventura pós vida. Fui, junto com Larry, pra sua van. Que nada tinha a ver com uma van da Morte, aliás. Tá ok, eu não teria como saber nem que a morte tinha uma van, mas eu não imaginava que ela fosse assim. Sabe, colorida. Flores de várias cores pintadas, e, na parte de trás, um adesivo com os dizeres "Se essa van for vista atropelando alguém, não se preocupe, é só o trabalho dela", o que eu entendi depois que era só uma piadinha, uma forma de divertir os espíritos vagantes, que estavam quase sempre entediados nas ruas. Os vivos nunca viram a van, é claro, mas isso eu já sabia desde o começo (Tá, é mentira, eu não sabia). Enfim, a van parecia ser de um hippie qualquer. E era de fato o que Larry foi em vida, um hippie. Morto 30 anos antes de mim, assassinado por sua namorada na época. Ela tinha um nome bonito, mas não me lembro agora. Uma "dúzia de facadas sem querer". Os dois estavam doidões, eu sei, mas ele não quis falar. Tudo bem, tudo bem. E lá fomos nós, partimos na van. Destino: Liverpool, Inglaterra. Um coroa "sessentão", Peter ou Paul alguma coisa. Não demoramos nem 5 minutos pra achar o velho. Agora, pra tirar ele de lá.. Larry descobriu que o coroa era um amigo dele, e foi lá resolver as coisas de forma um pouco diferente. Assumiu a forma humana (algo apenas autorizado para A Morte em pessoa) e foi lá, conversar no bar onde minutos depois o P.. carinha lá ia morrer. Acompanhei tudo de longe, mas a conversa foi mais ou menos assim "Opa, Paul, lembra de mim, cara?" "Larry.. Ah, meu Deus.. Achei que você tava morto, meu velho" "E eu estou" Nessa hora, eu me lembro bem, aconteceu uma das coisas mais engraçadas que eu já vi na v.. que eu já vi. O coroa arregalou os olhos e levantou, andando pra trás, e com os olhos esbugalhados, quase um desenho animado. "ô, Qual é, senta aí, vamo tomar uma birita.." E o velho balançando a cabeça dum lado pro outro "SENTA AÍ, PORRA!" O tal de Peter deve ter se cagado nas calças. Tadinho, morreu com a cueca toda marrom. Mas voltou e sentou de novo, todo educado. "É o seguinte: Cê vai morrer, cara, e eu vou te levar comigo" Genial. Larry era simplesmente genial no trabalho dele. "Mas vamos conversar um pouco antes, beleza? Como tem passado, amigão? Faz muito tempo que eu não te vejo.." E passou uma hora de Larry fazendo perguntas e o coroa sem responder, só enchendo a cara de álcool. "Tsc, tsc, tsc.. Sério, Paul? Vai morrer pelo álcool?" E Larry começou a olhar no relógio, impaciente. Até que, de repente, Paul, o velhinho, começou a ter um ataque. Num bar. Lotado. Seria cômico se não fosse trágico. Larry reassumiu sua forma de Morte, com capuz e tal. E foi aí que eu entendi o por quê dele ter ficado na forma humana, dessa vez. Fazia um calor bizarro na cidade, aquele dia. Capa preta deve esquentar pra caralho. Aí, Larry fez seu ritual maluco pra separar o corpo da alma do defunto e voltou correndo pra van. "Abre essa porra aí atrás, abre essa porra" Parecia que tinha roubado um banco. Jogou a alma do camarada na parte traseira e voltou pra assumir o volante. "Tô cansado dessa vida, cara, tô cansado.. Vou pedir demissão assim que voltarmos" E foi então que percebi que poderia fazer algo de importante na vida, mesmo já estando morto.

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