"Roxanne, abre
essa merda dessa porta!", gritava. Toda manhã, é a mesma
coisa. Eu acordo, quase sempre atrasado, precisando sair de casa
logo, e ela tá lá, trancada no banheiro. Já são quase 3 anos
nisso, e eu continuo tendo que reclamar. Admito que, nessa altura do
campeonato, só faço isso pra irritá-la. E ainda funciona. "Você
podia experimentar acordar mais cedo qualquer dia desses, babaca"
Apesar do "babaca", ela saiu do banheiro sorrindo. Ela
sabia que eu ia sorrir de volta. Mas eu sei que ela me acha um
babaca, mesmo. Também me acho. "Bom dia pra você também".
Tomei um soco pelo sarcasmo. Eu sempre levei socos por sarcasmo
matinal. "Cacete, eu só disse bom dia!", eu disse, meio
reclamando, meio rindo. Recebi um breve abraço e Roxanne liberou a
porta do banheiro. Finalmente. Merda, tenho 15 minutos pra tomar
banho, me vestir, descer quatro andares, atravessar a rua até o
prédio do outro lado e subir três andares até a minha sala de
aula. Acho que vou precisar correr um pouco. Só um pouco. Depois de
uma - muito breve - ducha, saí do banheiro, aos tropeços, enquanto
ajeitava meus tênis e tentava escovar meus dentes ao mesmo tempo. Se
eu faltar a essa aula, perco o semestre. É sério. Roxanne estava de
volta à sua cama, com algum livro qualquer em mãos, e havia voltado
a vestir seu pijama. Mas, se ela não tem compromisso algum agora de
manhã, então por qual razão... Ah, foda-se. Mais tarde me resolvo
com ela. Catei minha mochila que estava jogada no chão e saí
daquele cubículo que chamam de dormitório. Bom, pelo menos tem um
banheiro e uma minicozinha - esta ao lado das camas, mas tudo bem.
Elevador lerdo ou escada cheia de gente? elevador ou escada? elevador
ou esc... Escada. Nada como derrubar meia dúzia de pessoas escada
abaixo pra melhorar o humor. Bom, eu teria que ser forte pra isso,
mas... "Marcus, essa é minha!", ouvi. Olhei pra trás, e
lá estava Roxanne, saindo do dormitório, com algo em mãos. Olhei
para o que estava em minhas costas e percebi que o que eu segurava
era... Rosa. Legal, esqueci de colocar os óculos. Rapidamente
trocamos as mochilas e eu finalmente pus os óculos, também graças
a Roxanne. "Volto pro almoço", eu disse, antes de me virar
novamente para a escada e fazer meu caminho até a saída, mais
apressado do que antes. Se eu chegar um mísero segundo atrasado, o
Professor Campbell, aquele grande filho duma puta mal paga, não vai
me deixar entrar. Aconteceu a mesma coisa no último semestre. Velho
escroto. Me odeia sem razão. Não que eu não o odeie de volta, mas
eu tenho motivo, certo? Acho que torna a situação menos pior, ou
sei lá. Legal, o sinal de trânsito tá com defeito. Não fica
vermelho de jeito nenhum. CACETE, PRECISO ATRAVESSAR SÓ UMA MALDITA
RUA! Bom, tecnicamente são duas, mas elas estão indo pro mesmo lado
e estão uma ao lado da outra, então... É o mesmo semáforo. E
ainda não saiu do verde. Puta que pariu, isso tá parecendo uma obra
de ficção qualquer. É o sinal mais demorado que já existiu na
face da Terra. Ufa, fechou e ainda tenho tempo de sobra pra
atravessar e subir os 3 andares restantes. Esfregar na cara daquele
velho que ele não vai conseguir me reprovar duas vezes. Ele tem medo
de mim. Sabe que, quando eu me formar, não vai demorar pra que eu
pegue o lugar dele no jornal da cidade. Todos os professores já
previram isso. Eu vou tirar o velho Campbell do comando da imprensa
da cidade. E, bom, eu avisei que eu era meio babaca, não avisei? Ah,
ótimo. O campus inteiro resolveu encher as escadas do maldito prédio
no qual eu preciso estar, e aqui não tem elevador. Lá se vai mais
uma sessão de empurra-empurra. 1 minuto. 59 segundos. 58, 57, 56,
55, 54... Cheguei na porta da sala. O restante dos alunos já estava
lá, mas a porta ainda tava aberta. Nada do velho ainda. Eu parecia
recém saído duma maratona, quando na verdade só atravessei a rua.
Ok, foi a "travessia de rua" mais longa da história da
humanidade, mas foi só isso, uma rua. Bom, duas. Me sentei no único
lugar disponível, logo na primeira fileira. Ótimo, a decepção
estampada na cara do velho quando ele me encontrar aqui, e eu não
vou perder. HAHA! Se passaram dois minutos, e nada do Campbell.
Estranho. Ele nunca se atrasou. Até brincavam que o velho morava ali
naquela sala. Ali, da primeira fileira, notei uma sombra se
aproximando. Provavelmente era ele. Será que ele ia receber bem uma
brincadeira sobre o atraso? Difícil. E, sim, era o Campbell. Olhei
diretamente nos olhos do velho, e ele retribuiu o olhar. Iniciei um
pequeno sorriso, mas, naquele mesmo instante, ouviu-se um estouro, e
o velho caiu pra frente, dentro da sala. Um tiro. Direto na cabeça.
Merda. Puta merda.
Correria. Muita correria. Não é pra menos, porra, um dos professores ilustres - apesar de ser um imbecil -, assassinado dentro da universidade, na frente de uma de suas turmas. Todo mundo se desesperou. Até eu. Todo mundo tentou correr pra longe. Menos eu. Eu não conseguia me mover. O choque foi grande demais. Felizmente, fui transportado de volta ao mundo real quando senti alguém me puxar, e gritar no meu ouvido "Você é imbecil?! Quer morrer aqui dentro?!" Logo em seguida, me dei conta de que já não estava mais dentro da sala. Atrás de mim, embora eu não tivesse a coragem de olhar, estava o corpo de Campbell jogado no chão. Sendo movido pra todos os lados, com as pessoas desesperadas pisando em cima dele. Eu pisei, também, com certeza. Mas não consigo me lembrar. E... Bem, nunca achei que eu fosse passar por cima do velho assim, de forma tão literal. Fui guiado até a saída do prédio por aquela mão com a voz irritada. Bom, é claro que não era só uma mão. Era um dos meus colegas de classe, e namorado ou sei lá o quê de Roxanne, um tal de Patrick. Nada contra o cara, mas... Hmm... Também nada a favor. À medida em que descíamos, mais tiros foram ouvidos, dos outros andares. Mas não importava. Naquele momento, não importava. Eu só tinha que sair dali. Felizmente, o "semáforo mais demorado de todos os tempos" tinha voltado ao normal, e atravessei de volta ao prédio dos dormitórios, sozinho. Patrick me soltou e não vi para onde ele foi. Foi um inferno pra passar pela portaria. Todos os alunos que tinham ficado por lá agora estavam na calçada, observando a movimentação do prédio da frente. Ouvi alguns carros da polícia chegando, mas aqueles não iriam resolver nada. Nenhuma "polícia de campus" resolve problemas de verdade. Roxanne estava no quarto, observando tudo pela janela. Quando cheguei, logo se virou pra mim "Que merda tá acontecendo? Você... Você tá bem?" "... Tô, tô... Só.... Mataram o velho" "Como é? Que velho?" "Campbell... Mataram o Campbell. Na minha frente. Eu vi. Todo mundo viu" "O QUÊ?! Puta merda... Você viu quem foi? Daqui deu pra ouvir tudo, vários tiros... Cacete... Você viu alguém entrando no prédio? E se tiver alguém NESSE prédio agora? Puta que pariu, Marcus..." "Ãh... Acho que isso é tudo o que eu tenho pra contar. E vá à merda, garota. Se um de nós tomar um tiro aqui dentro, eu te mato" "Mataram o velho... Você tem certeza de que não sabe de nada disso? Certeza absoluta?" "Como eu ia saber de algo, Roxanne?... Ah, não, sério, você não tá pensando..." "Sei lá, cara, sei lá! Foi só uma ideia, desculpa. É claro que eu sei que você não tem participação nisso. Você passa o dia aqui dentro, eu iria descobrir. Mas... Você sabe, né?" Talvez ela tenha um pouquinho de razão. Talvez. Só um pouquinho. Bem pouquinho. A rixa entre meu pai e Campbell é - ou melhor, era - gigantesca, mas, não, meu velho não ia mandar matar o cara por isso. Tudo bem que Campbell destruiu o casamento dos meus pais, mas, não... Harvey Smithson não iria mandar matar o velho. E, também... Houveram vários tiros no prédio. Campbell não foi alvo único. Isso não pode ser coisa do meu pai. "Você tá viajando, Roxy. Ele não iria chegar a esse ponto. Não do nada. De qualquer forma... Acho que vou ligar pro velho". No exato momento em que eu discava os dois últimos números do telefone de meu pai, uma gritaria começou na rua. Como bons curiosos - Eu, um futuro jornalista, e Roxanne, futura... Ah, eu esqueci o que ela faz -, fomos até a janela pra descobrir o que se passava. Do outro lado, na rua, corpos sem vida sendo transportados pelos paramédicos. Bem descuidados esses paramédicos, aliás. Uma multidão de curiosos em volta, e os corpos totalmente à vista. Campbell e mais meia dúzia. Todos professores. "Ah, não, a professora de bioquímica não!", ouvi Roxanne lamentar ao meu lado. Pelo menos dessa alguém gostava. Eu provavelmente não iria, se conhecesse. Não sou muito de gostar de pessoas em geral. Talvez Roxanne seja uma pequena exceção. Um tempo após os paramédicos com os corpos, saiu do prédio um pequeno grupo de o que muito provavelmente eram detetives da polícia. Da polícia de verdade. O ar de babaquice deles era semelhante ao do defunto Campbell. Eu pude perceber só pelo olhar. Meu celular tá tocando. "Peraí", eu disse, mais para mim mesmo no meu momento de análise da situação do que para alguém que eu fosse atrapalhar quando eu atendesse à chamada - No caso, Roxanne. "Alô? Oi, pai, eu tava te ligando, aconteceu uma coisa muito biz..." "Opa, fala, filhão! Como tá a universidade? Então, eu tava aqui pensando... Faz tempo que a gente não se vê, sabe? Como quando você era criança... Nesse fim de semana, vou estar por aí pela cidade, e ouvi falar dum lugar incrível pra gente pescar, que tal? Você adorava pescar" "Ãh..." "Haha, agenda! Ora essa, moleque, você é só um estudante. Mas tudo bem, depois você me liga pra confirmar, mas que tal sábado de manhã?" E desligou. Algo tava errado. Algo tava muito errado. Como eu sei? Bom... Primeiramente porque "Faz tempo que a gente não se vê", no nosso "código familiar" significa - de alguma forma - "liga pra sua mãe". Em segundo lugar, "sábado" quer dizer "me sequestraram, mas não vão me matar, só estão pedindo muito dinheiro", e, por último, "de manhã" significa... De manhã. Sequestraram meu pai, e querem a grana até a manhã seguinte. Mas, onde diabos ele está? E pra quê ligar pra mamãe? Vai ser bem difícil ela ajudar... Eu nunca achei que ouviria esses três códigos de uma vez só.
Correria. Muita correria. Não é pra menos, porra, um dos professores ilustres - apesar de ser um imbecil -, assassinado dentro da universidade, na frente de uma de suas turmas. Todo mundo se desesperou. Até eu. Todo mundo tentou correr pra longe. Menos eu. Eu não conseguia me mover. O choque foi grande demais. Felizmente, fui transportado de volta ao mundo real quando senti alguém me puxar, e gritar no meu ouvido "Você é imbecil?! Quer morrer aqui dentro?!" Logo em seguida, me dei conta de que já não estava mais dentro da sala. Atrás de mim, embora eu não tivesse a coragem de olhar, estava o corpo de Campbell jogado no chão. Sendo movido pra todos os lados, com as pessoas desesperadas pisando em cima dele. Eu pisei, também, com certeza. Mas não consigo me lembrar. E... Bem, nunca achei que eu fosse passar por cima do velho assim, de forma tão literal. Fui guiado até a saída do prédio por aquela mão com a voz irritada. Bom, é claro que não era só uma mão. Era um dos meus colegas de classe, e namorado ou sei lá o quê de Roxanne, um tal de Patrick. Nada contra o cara, mas... Hmm... Também nada a favor. À medida em que descíamos, mais tiros foram ouvidos, dos outros andares. Mas não importava. Naquele momento, não importava. Eu só tinha que sair dali. Felizmente, o "semáforo mais demorado de todos os tempos" tinha voltado ao normal, e atravessei de volta ao prédio dos dormitórios, sozinho. Patrick me soltou e não vi para onde ele foi. Foi um inferno pra passar pela portaria. Todos os alunos que tinham ficado por lá agora estavam na calçada, observando a movimentação do prédio da frente. Ouvi alguns carros da polícia chegando, mas aqueles não iriam resolver nada. Nenhuma "polícia de campus" resolve problemas de verdade. Roxanne estava no quarto, observando tudo pela janela. Quando cheguei, logo se virou pra mim "Que merda tá acontecendo? Você... Você tá bem?" "... Tô, tô... Só.... Mataram o velho" "Como é? Que velho?" "Campbell... Mataram o Campbell. Na minha frente. Eu vi. Todo mundo viu" "O QUÊ?! Puta merda... Você viu quem foi? Daqui deu pra ouvir tudo, vários tiros... Cacete... Você viu alguém entrando no prédio? E se tiver alguém NESSE prédio agora? Puta que pariu, Marcus..." "Ãh... Acho que isso é tudo o que eu tenho pra contar. E vá à merda, garota. Se um de nós tomar um tiro aqui dentro, eu te mato" "Mataram o velho... Você tem certeza de que não sabe de nada disso? Certeza absoluta?" "Como eu ia saber de algo, Roxanne?... Ah, não, sério, você não tá pensando..." "Sei lá, cara, sei lá! Foi só uma ideia, desculpa. É claro que eu sei que você não tem participação nisso. Você passa o dia aqui dentro, eu iria descobrir. Mas... Você sabe, né?" Talvez ela tenha um pouquinho de razão. Talvez. Só um pouquinho. Bem pouquinho. A rixa entre meu pai e Campbell é - ou melhor, era - gigantesca, mas, não, meu velho não ia mandar matar o cara por isso. Tudo bem que Campbell destruiu o casamento dos meus pais, mas, não... Harvey Smithson não iria mandar matar o velho. E, também... Houveram vários tiros no prédio. Campbell não foi alvo único. Isso não pode ser coisa do meu pai. "Você tá viajando, Roxy. Ele não iria chegar a esse ponto. Não do nada. De qualquer forma... Acho que vou ligar pro velho". No exato momento em que eu discava os dois últimos números do telefone de meu pai, uma gritaria começou na rua. Como bons curiosos - Eu, um futuro jornalista, e Roxanne, futura... Ah, eu esqueci o que ela faz -, fomos até a janela pra descobrir o que se passava. Do outro lado, na rua, corpos sem vida sendo transportados pelos paramédicos. Bem descuidados esses paramédicos, aliás. Uma multidão de curiosos em volta, e os corpos totalmente à vista. Campbell e mais meia dúzia. Todos professores. "Ah, não, a professora de bioquímica não!", ouvi Roxanne lamentar ao meu lado. Pelo menos dessa alguém gostava. Eu provavelmente não iria, se conhecesse. Não sou muito de gostar de pessoas em geral. Talvez Roxanne seja uma pequena exceção. Um tempo após os paramédicos com os corpos, saiu do prédio um pequeno grupo de o que muito provavelmente eram detetives da polícia. Da polícia de verdade. O ar de babaquice deles era semelhante ao do defunto Campbell. Eu pude perceber só pelo olhar. Meu celular tá tocando. "Peraí", eu disse, mais para mim mesmo no meu momento de análise da situação do que para alguém que eu fosse atrapalhar quando eu atendesse à chamada - No caso, Roxanne. "Alô? Oi, pai, eu tava te ligando, aconteceu uma coisa muito biz..." "Opa, fala, filhão! Como tá a universidade? Então, eu tava aqui pensando... Faz tempo que a gente não se vê, sabe? Como quando você era criança... Nesse fim de semana, vou estar por aí pela cidade, e ouvi falar dum lugar incrível pra gente pescar, que tal? Você adorava pescar" "Ãh..." "Haha, agenda! Ora essa, moleque, você é só um estudante. Mas tudo bem, depois você me liga pra confirmar, mas que tal sábado de manhã?" E desligou. Algo tava errado. Algo tava muito errado. Como eu sei? Bom... Primeiramente porque "Faz tempo que a gente não se vê", no nosso "código familiar" significa - de alguma forma - "liga pra sua mãe". Em segundo lugar, "sábado" quer dizer "me sequestraram, mas não vão me matar, só estão pedindo muito dinheiro", e, por último, "de manhã" significa... De manhã. Sequestraram meu pai, e querem a grana até a manhã seguinte. Mas, onde diabos ele está? E pra quê ligar pra mamãe? Vai ser bem difícil ela ajudar... Eu nunca achei que ouviria esses três códigos de uma vez só.
Nenhum comentário:
Postar um comentário