segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Relógio - Parte 1

"Roxanne, abre essa merda dessa porta!", gritava. Toda manhã, é a mesma coisa. Eu acordo, quase sempre atrasado, precisando sair de casa logo, e ela tá lá, trancada no banheiro. Já são quase 3 anos nisso, e eu continuo tendo que reclamar. Admito que, nessa altura do campeonato, só faço isso pra irritá-la. E ainda funciona. "Você podia experimentar acordar mais cedo qualquer dia desses, babaca" Apesar do "babaca", ela saiu do banheiro sorrindo. Ela sabia que eu ia sorrir de volta. Mas eu sei que ela me acha um babaca, mesmo. Também me acho. "Bom dia pra você também". Tomei um soco pelo sarcasmo. Eu sempre levei socos por sarcasmo matinal. "Cacete, eu só disse bom dia!", eu disse, meio reclamando, meio rindo. Recebi um breve abraço e Roxanne liberou a porta do banheiro. Finalmente. Merda, tenho 15 minutos pra tomar banho, me vestir, descer quatro andares, atravessar a rua até o prédio do outro lado e subir três andares até a minha sala de aula. Acho que vou precisar correr um pouco. Só um pouco. Depois de uma - muito breve - ducha, saí do banheiro, aos tropeços, enquanto ajeitava meus tênis e tentava escovar meus dentes ao mesmo tempo. Se eu faltar a essa aula, perco o semestre. É sério. Roxanne estava de volta à sua cama, com algum livro qualquer em mãos, e havia voltado a vestir seu pijama. Mas, se ela não tem compromisso algum agora de manhã, então por qual razão... Ah, foda-se. Mais tarde me resolvo com ela. Catei minha mochila que estava jogada no chão e saí daquele cubículo que chamam de dormitório. Bom, pelo menos tem um banheiro e uma minicozinha - esta ao lado das camas, mas tudo bem. Elevador lerdo ou escada cheia de gente? elevador ou escada? elevador ou esc... Escada. Nada como derrubar meia dúzia de pessoas escada abaixo pra melhorar o humor. Bom, eu teria que ser forte pra isso, mas... "Marcus, essa é minha!", ouvi. Olhei pra trás, e lá estava Roxanne, saindo do dormitório, com algo em mãos. Olhei para o que estava em minhas costas e percebi que o que eu segurava era... Rosa. Legal, esqueci de colocar os óculos. Rapidamente trocamos as mochilas e eu finalmente pus os óculos, também graças a Roxanne. "Volto pro almoço", eu disse, antes de me virar novamente para a escada e fazer meu caminho até a saída, mais apressado do que antes. Se eu chegar um mísero segundo atrasado, o Professor Campbell, aquele grande filho duma puta mal paga, não vai me deixar entrar. Aconteceu a mesma coisa no último semestre. Velho escroto. Me odeia sem razão. Não que eu não o odeie de volta, mas eu tenho motivo, certo? Acho que torna a situação menos pior, ou sei lá. Legal, o sinal de trânsito tá com defeito. Não fica vermelho de jeito nenhum. CACETE, PRECISO ATRAVESSAR SÓ UMA MALDITA RUA! Bom, tecnicamente são duas, mas elas estão indo pro mesmo lado e estão uma ao lado da outra, então... É o mesmo semáforo. E ainda não saiu do verde. Puta que pariu, isso tá parecendo uma obra de ficção qualquer. É o sinal mais demorado que já existiu na face da Terra. Ufa, fechou e ainda tenho tempo de sobra pra atravessar e subir os 3 andares restantes. Esfregar na cara daquele velho que ele não vai conseguir me reprovar duas vezes. Ele tem medo de mim. Sabe que, quando eu me formar, não vai demorar pra que eu pegue o lugar dele no jornal da cidade. Todos os professores já previram isso. Eu vou tirar o velho Campbell do comando da imprensa da cidade. E, bom, eu avisei que eu era meio babaca, não avisei? Ah, ótimo. O campus inteiro resolveu encher as escadas do maldito prédio no qual eu preciso estar, e aqui não tem elevador. Lá se vai mais uma sessão de empurra-empurra. 1 minuto. 59 segundos. 58, 57, 56, 55, 54... Cheguei na porta da sala. O restante dos alunos já estava lá, mas a porta ainda tava aberta. Nada do velho ainda. Eu parecia recém saído duma maratona, quando na verdade só atravessei a rua. Ok, foi a "travessia de rua" mais longa da história da humanidade, mas foi só isso, uma rua. Bom, duas. Me sentei no único lugar disponível, logo na primeira fileira. Ótimo, a decepção estampada na cara do velho quando ele me encontrar aqui, e eu não vou perder. HAHA! Se passaram dois minutos, e nada do Campbell. Estranho. Ele nunca se atrasou. Até brincavam que o velho morava ali naquela sala. Ali, da primeira fileira, notei uma sombra se aproximando. Provavelmente era ele. Será que ele ia receber bem uma brincadeira sobre o atraso? Difícil. E, sim, era o Campbell. Olhei diretamente nos olhos do velho, e ele retribuiu o olhar. Iniciei um pequeno sorriso, mas, naquele mesmo instante, ouviu-se um estouro, e o velho caiu pra frente, dentro da sala. Um tiro. Direto na cabeça. Merda. Puta merda.

Correria. Muita correria. Não é pra menos, porra, um dos professores ilustres - apesar de ser um imbecil -, assassinado dentro da universidade, na frente de uma de suas turmas. Todo mundo se desesperou. Até eu. Todo mundo tentou correr pra longe. Menos eu. Eu não conseguia me mover. O choque foi grande demais. Felizmente, fui transportado de volta ao mundo real quando senti alguém me puxar, e gritar no meu ouvido "Você é imbecil?! Quer morrer aqui dentro?!" Logo em seguida, me dei conta de que já não estava mais dentro da sala. Atrás de mim, embora eu não tivesse a coragem de olhar, estava o corpo de Campbell jogado no chão. Sendo movido pra todos os lados, com as pessoas desesperadas pisando em cima dele. Eu pisei, também, com certeza. Mas não consigo me lembrar. E... Bem, nunca achei que eu fosse passar por cima do velho assim, de forma tão literal. Fui guiado até a saída do prédio por aquela mão com a voz irritada. Bom, é claro que não era só uma mão. Era um dos meus colegas de classe, e namorado ou sei lá o quê de Roxanne, um tal de Patrick. Nada contra o cara, mas... Hmm... Também nada a favor. À medida em que descíamos, mais tiros foram ouvidos, dos outros andares. Mas não importava. Naquele momento, não importava. Eu só tinha que sair dali. Felizmente, o "semáforo mais demorado de todos os tempos" tinha voltado ao normal, e atravessei de volta ao prédio dos dormitórios, sozinho. Patrick me soltou e não vi para onde ele foi. Foi um inferno pra passar pela portaria. Todos os alunos que tinham ficado por lá agora estavam na calçada, observando a movimentação do prédio da frente. Ouvi alguns carros da polícia chegando, mas aqueles não iriam resolver nada. Nenhuma "polícia de campus" resolve problemas de verdade. Roxanne estava no quarto, observando tudo pela janela. Quando cheguei, logo se virou pra mim "Que merda tá acontecendo? Você... Você tá bem?" "... Tô, tô... Só.... Mataram o velho" "Como é? Que velho?" "Campbell... Mataram o Campbell. Na minha frente. Eu vi. Todo mundo viu" "O QUÊ?! Puta merda... Você viu quem foi? Daqui deu pra ouvir tudo, vários tiros... Cacete... Você viu alguém entrando no prédio? E se tiver alguém NESSE prédio agora? Puta que pariu, Marcus..." "Ãh... Acho que isso é tudo o que eu tenho pra contar. E vá à merda, garota. Se um de nós tomar um tiro aqui dentro, eu te mato" "Mataram o velho... Você tem certeza de que não sabe de nada disso? Certeza absoluta?" "Como eu ia saber de algo, Roxanne?... Ah, não, sério, você não tá pensando..." "Sei lá, cara, sei lá! Foi só uma ideia, desculpa. É claro que eu sei que você não tem participação nisso. Você passa o dia aqui dentro, eu iria descobrir. Mas... Você sabe, né?" Talvez ela tenha um pouquinho de razão. Talvez. Só um pouquinho. Bem pouquinho. A rixa entre meu pai e Campbell é - ou melhor, era - gigantesca, mas, não, meu velho não ia mandar matar o cara por isso. Tudo bem que Campbell destruiu o casamento dos meus pais, mas, não... Harvey Smithson não iria mandar matar o velho. E, também... Houveram vários tiros no prédio. Campbell não foi alvo único. Isso não pode ser coisa do meu pai. "Você tá viajando, Roxy. Ele não iria chegar a esse ponto. Não do nada. De qualquer forma... Acho que vou ligar pro velho". No exato momento em que eu discava os dois últimos números do telefone de meu pai, uma gritaria começou na rua. Como bons curiosos - Eu, um futuro jornalista, e Roxanne, futura... Ah, eu esqueci o que ela faz -, fomos até a janela pra descobrir o que se passava. Do outro lado, na rua, corpos sem vida sendo transportados pelos paramédicos. Bem descuidados esses paramédicos, aliás. Uma multidão de curiosos em volta, e os corpos totalmente à vista. Campbell e mais meia dúzia. Todos professores. "Ah, não, a professora de bioquímica não!", ouvi Roxanne lamentar ao meu lado. Pelo menos dessa alguém gostava. Eu provavelmente não iria, se conhecesse. Não sou muito de gostar de pessoas em geral. Talvez Roxanne seja uma pequena exceção. Um tempo após os paramédicos com os corpos, saiu do prédio um pequeno grupo de o que muito provavelmente eram detetives da polícia. Da polícia de verdade. O ar de babaquice deles era semelhante ao do defunto Campbell. Eu pude perceber só pelo olhar. Meu celular tá tocando. "Peraí", eu disse, mais para mim mesmo no meu momento de análise da situação do que para alguém que eu fosse atrapalhar quando eu atendesse à chamada - No caso, Roxanne. "Alô? Oi, pai, eu tava te ligando, aconteceu uma coisa muito biz..." "Opa, fala, filhão! Como tá a universidade? Então, eu tava aqui pensando... Faz tempo que a gente não se vê, sabe? Como quando você era criança... Nesse fim de semana, vou estar por aí pela cidade, e ouvi falar dum lugar incrível pra gente pescar, que tal? Você adorava pescar" "Ãh..." "Haha, agenda! Ora essa, moleque, você é só um estudante. Mas tudo bem, depois você me liga pra confirmar, mas que tal sábado de manhã?" E desligou. Algo tava errado. Algo tava muito errado. Como eu sei? Bom... Primeiramente porque "Faz tempo que a gente não se vê", no nosso "código familiar" significa - de alguma forma - "liga pra sua mãe". Em segundo lugar, "sábado" quer dizer "me sequestraram, mas não vão me matar, só estão pedindo muito dinheiro", e, por último, "de manhã" significa... De manhã. Sequestraram meu pai, e querem a grana até a manhã seguinte. Mas, onde diabos ele está? E pra quê ligar pra mamãe? Vai ser bem difícil ela ajudar... Eu nunca achei que ouviria esses três códigos de uma vez só.

Linhas Paralelas - Parte 9a

Ele é muito estranho, esse garoto. Não, muito não é o bastante. Johnny é completamente estranho. Ainda tô tentando entender qual é a daquele caderno. Ah, dane-se, tenho coisas mais importantes pra fazer. Melhor arrumar a casa antes que meus pais cheguem. Essa sala tá uma bagunça... Maldito seja o projeto em dupla de química. Detesto ficar dependendo dos outros. Posso muito bem tirar a nota máxima sozinha. Fazendo o trabalho com uma mão só. Se eu não ficar com nota boa, eu mato aquele garoto. Eu juro que mato. Droga, alguém resolveu chegar mais cedo, e a casa ainda não tá toda arrumada. Por quê logo hoje a empregada tirou folga?! Ótimo, esqueceram a chave de casa. Vou ter que abrir a porta. Meu pai e mais dois caras. Devem ser colegas dele. William Carlinbrook, ex aluno de Harvard, geneticista renomado, e completamente esquecido quando o assunto é "chaves da casa". "Oi, filha... Sua mãe já chegou?" E, quando o assunto é "sua esposa", aparentemente, ele também é esquecido "Ãh... Não. Ela não viajou? Só volta no meio da semana" "Ah... É, certo, certo. Tá... Só isso, por agora. Pode ir fazer suas coisas. Tenho uma.. Ãh... Reunião importante agora, com esses dois senhores. Não quero ser incomodado". Assenti, embora percebendo que alguma coisa não tá muito certa. Espero que esteja tudo bem no trabalho. Não quero ter que me mudar de novo tão cedo. Subi ao meu quarto e iniciei minha rotina diária de estudos. 4 horas que passam na velocidade de uma. E tava tudo indo bem, até que comecei a ouvir uns barulhos estranhos, vindos do primeiro andar. Eu preciso saber o que tá acontecendo. Merda. Desci o mais silenciosamente que pude, e fui tentar ouvir o que se passava no escritório de meu pai. "Ora, Will... Pra quê dificultar as coisas, camarada? Era só ter dito sim, que iríamos buscar a menina e você nunca mais ia nos ver. Mas nããão! Você teve que nos desafiar... Sério, eu não queria ter te amarrado". Não sei o que deu em mim, mas bati na porta, pedindo que a abrissem. "Olha só..." Começou a dizer o mais alto dos homens desconhecidos, a mesma voz que ouvi instantes antes. "Ela veio nos visitar. Patrick, segura a bizarrinha" "NÃO! Não... Por favor... Não a levem... É minha filha, por favor..." "Sabe, Will... Eu nunca gostei da sua voz" Eu não conseguia enxergar nada, enquanto tentava me desvencilhar do outro homem, o tal de Patrick. Mas conseguia ouvir. E tudo o que eu ouvi foi um estrondo, absurdamente alto. Teria sido um...? Desmaiei. No que pareceram segundos depois, acordei, e ainda não conseguia enxergar quase nada. Eu sabia apenas que estava deitada numa cama, mas não sabia exatamente onde. Por sorte, sou mais inteligente que esses caras. Eles não acharam o meu celular, escondido dentro da meia. Talvez nem tenham procurado. Imbecis. Olhei o horário. Três da manhã. Eu poderia tranquilamente ligar pra polícia, se soubesse onde estou. Merda. E se... Não, não, definitivamente não. Pra quê? Ele não vai poder me ajudar. Talvez... Se ele for até minha casa, e procurar por pistas. Eles sempre deixam pistas. É, talvez. É uma ideia profundamente estúpida, mas não tenho nenhuma melhor no momento. É isso. Vou ligar pra ele. Barulho de chave. Tem alguém abrindo a porta. Merda, merda, me ouviram acordada. Merda. "Porra, Johnny, atende", disse, baixinho, esperançosa.

Linhas Paralelas - Partes 8a e 8b

Não tive escolha dessa vez. Concordei com o sapo, claro. Não tô afim de morrer. Ainda. Quem sabe daqui um tempo. Respondi tudo o que me foi perguntado. A maioria da mesma forma, "não sei". Ele ficou mais puto, mas foda-se. Tô falando a verdade, oras. "Você tem escola hoje, garoto?" "Ãh... Não, talvez por hoje ser... domingo?" E FrogMan riu. Sinceramente, eu teria gostado mais de ter levado um soco. Ou uma cusparada ácida, diretamente nos meus olhos, pra que eu não tenha que ver um híbrido de sapo e humano rindo de novo. "Certo, então, amanhã. Amanhã você começa a pôr nosso plano em prática" "Mas... Que plano? Eu só respondi umas perguntas.." "De forma nada satisfatória, devo dizer" Eu não disse que ele ficou meio puto? "Mas pensei em algo. É óbvio e fundamental que você precisa da confiança dessa garota pro meu objetivo ser cumprido. Você vai ter que conquistá-la" Mas, oi, quê, como? E ele riu de novo, talvez pela minha cara agora. Cuspe ácido, por favor! "Não é isso que você tá pensando, moleque. Você vai ter que se tornar amigo dela, e é só". Ah, ok, "só isso". Um anti social tentando ficaar amigo de uma anti social. Tranquilo. Pff, faço isso em 5 minutos. Lá se vai minha nota em química, puta merda. "Estamos entendidos?" "Sim, senhor" Vou dizer que não? Ainda não estou maluco. Embora esteja começando a pirar. "Agora vai pra casa, e me mantenha informado. Quero progressos até o fim da semana. E eu mando chamar você, caso eu precise de mais alguma coisa" Legal, virei o serviçal de um sapo humano atormentado. Sou o Alfred Bizarro de um Batman Bizarro. Maravilha. Voltei pra casa. Não por ele ter mandado, mas pra fugir dele um pouco. Obviamente, a primeira coisa que ouvi quando pisei em casa foi "Onde diabos você tava?", de uma mãe preocupada. Aí lembrei que havia esquecido meu celular dentro do meu quarto. Eu sempre esqueço. Antes que eu conseguisse sequer pensar numa desculpa esfarrapada pra dizer, o telefone de casa tocou e minha mãe esqueceu-se completamente do meu sumiço. Bom pra mim. Corri escada acima, diretamente pro meu quarto. Primeiro passo: Internet. Checar o que aconteceu no "mundo real" enquanto eu desapontava um homem sapo que foi meu herói de infância. Nada demais, um acidente aqui, um cantor qualquer morrendo ali... Celular. Hora de ver as 400 ligações não atendidas. Opa, 401. Um número que eu ainda não tinha na agenda. Um número que já se comunicou comigo uma vez, bem recentemente. Três e meia da manhã. Era o número de Alice.

28 minutos e 34 segundos. 28 minutos e 34 segundos, da saída daquele prédio até o tão falado QG dos Super Poderosos. É, eu contei. A viagem foi meio silenciosa, eu consegui. E, também, claro, eu estava bastante ansioso. E toda a minha ansiedade foi totalmente justificada ao dar de cara com uma "Mansão Xavier". Será que aqui também tem uma Sala de Perigo? Saímos do carro, eu, Radar e mais uns dois "Agentes Smith", seguranças mal humorados que trabalham pros mutantes. Melhor não mexer com eles. Minha vontade era a de sair correndo pra dentro da mansão, mas fui parado por Radar. "E isso aí, xará. Bem vindo ao Quartel General Mutante. Vamos entrando... Eu tenho umas coisas a fazer, por isso não vou poder mostrar o local, mas não se preocupe, Kyle vai te ajudar". Antes que eu pudesse perguntar quem diabos era Kyle, adentramos a mansão e um cara que não me era estranho veio ao nosso encontro. Aquele carinha que se teletransportou não sei pra onde, e voltou com um celular pra dar à loira que estava com Radar quando o conheci. Definitivamente, ele era estranho. "Valeu, xará, amanhã a gente se vê" Fiquei pensando no que esse "amanhã" significava, enquanto Radar se afastava, indo em direção a um dos corredores, ali no térreo mesmo. "O velho é estranho mesmo, você se acostuma, carinha. Então, vamo lá? Seu quarto é no terceiro andar, mas, antes, a gente vai dar uma olhada numas coisas mais interessantes. Você também deve estar com fome, mas sinto muito, a gente segue uma agenda aqui. Você também se acostuma com isso, fica de boa". Assenti, embora faminto, e segui o "ninja" escada acima. Aliás, será que o nome mutante dele é... Black Ninja? Passamos rapidamente pelo "primeiro andar" e nenhuma observação foi feita, embora eu tenha conseguido ler umas portas, que diziam "Dormitório I", "Dormitório II", e por aí vai... Então, tem mais gente aqui. Que não sejam da minha idade. Sei o quanto adolescentes de 15/16 anos podem ser, e não tô querendo sofrer bullying por não ter poderes, aqui. No "segundo andar", algumas... Salas de aula? Ah, merda... "Aqui é a parte mais 'comum' do QG. O pessoal mais novo continua os estudos a partir do ponto em que foram trazidos pra cá, e também temos classes especiais, desenvolvimento e controle de poderes, essas coisas. Como eu disse lá embaixo, você vai ter tempo pra conhecer a galera depois". Merda, o cara tava falando e eu não prestei a mínima atenção. "A gente vai encaixar você nas classes de combate corporal e estratégia. Harris nos disse que você tem potencial, então, você vai se dar bem". Esse cara já me falou 15 vezes pra ficar "tranquilo" e que "vai dar tudo certo". Tô sentindo que vou apanhar. E apanhar feio. Subimos mais um andar. Nesse, quase não haviam portas. O tamanho era o mesmo dos anteriores, claro. Logo, salas maiores. "Aqui ficam os aposentos da diretoria" Disse Kyle, apontando pra algumas portas "...E a sala de treinamento avançado". A porta ao final do corredor. Então, ali é a "Sala de Perigo". "Aconselho a não entrar lá, garoto. Não por enquanto. Você vai dormir ali, no quarto do Radar. Ele não curte ficar por aqui, então, tá vazio. Suas coisas já estão lá. Os horários da mansão estão todos num quadro dentro do quarto, também. Você pode ir descansar um pouco agora, se quiser. Até mais, garoto". Enquanto Kyle se dirigia de volta ao andar anterior, fiquei um tempo parado, de frente para a porta onde se lia "Radar". Será que esse é mesmo o lugar onde devo estar? O celular tocou no meu bolso, tinha até esquecido dele. Uma mensagem, de Alice, que dizia "E o projeto de química, garoto?! Cadê você?". Merda.

Linhas Paralelas - Partes 7a e 7b

Mas, claro, ele ficou puto com a falta de respostas. Eu não queria dá-las, eu não quero. Não sei o que vai acontecer com a garota se esse cara colocar as mãos nela. Ainda tenho um projeto de química pra terminar. Não consegui pregar o olho. Por sorte, nenhuma ligação de pais preocupados perguntando onde estou. Ou vai ver é o contrário, falta de sorte. Extrema. Amanheceu, e eu mal percebi. Mas não tô com sono. Só fome. Vou levantar dessa porcaria de sofá e ver se tem algo pra beliscar na cozinha. Bela cozinha, maior que a lá de casa. Agora bateu uma dúvida: O que será que o FrogMan come? Bom, não consegui pensar em nada.. Mas com certeza não é pizza. Essa aqui tá intacta. Merda, tá fria... Foda-se, melhor que aquele feijão no pote de sorvete dentro da geladeira. "Ei, moleque, vai abrir a boca agora ou eu vou ter que ajudar?" Ai, caralho... Por favor, que ele não esteja armado, que ele não esteja arm... Ufa, não tá armado. Só com o seu tom ameaçador babaca de merda. Que, devo dizer, funciona direitinho. "Ãh..." "Vambora, moleque, você não tá entendendo a gravidade da situação" Olha, sapo, pra quem disse que primeiro precisava dum plano, você tá meio apressadinho demais. "Me explique" "Como é?" "Me explique, oras. A 'gravidade' da situação. Quero saber no que eu tô me metendo. Não sei se você notou, mas eu sou um 'moleque', não tenho nenhuma habilidade especial. Não tô querendo morrer tão cedo, saca?" "Ora, seu..." Senti que ia levar, sei lá, uma cusparada ácida no meio da cara, agora. Mas, contrariando minhas expectativas, ele só... Respirou fundo, e começou a falar. "Tá certo, garoto, te devo umas explicações. Como você deve saber, eu viajo o mundo procurando por pessoas como eu, mutantes, e tento ajudá-las, das mais variadas formas. É claro, ainda mantendo suas identidades em segredo, não quero que ninguém passe pelo que eu passo. Porém, algo que você provavelmente não deve saber..." E é claro que eu na verdade sei, ou já se esqueceram que sou o maior fã desse filho duma puta? "É que eu não consegui isso por querer. Fui enganado, forçado a isso. Enquanto ajudo os mutantes, também estou procurando os imbecis que fizeram isso comigo. E tenho algumas razões pra acreditar que um deles fez isso com essa menina, quando ela nasceu. Logo, alguém da família dela com certeza sabe de algo. Talvez ela mesma, mesmo que não saiba que sabe. Eu preciso de Alice, garoto. Satisfeito?" Na verdade não, agora estou com mais medo por Alice mas... "Entendi" "Então... Vai me ajudar ou não?" E lá vamos nós de novo...


Mal dormi essa noite. Ansiedade, claro. Não é todo dia que um moleque viciado em heróis, que há anos se veste como um, tem a chance de estar com um grupo de heróis de verdade. Não é sempre que um moleque pode se tornar um deles. E, infelizmente, ou felizmente, sei lá, minha ida repentina ao QG deles na capital não envolveu nenhum mutante com o poder de causar perda de memória. As mentes de meus pais só sofreram uma leve modificação. Agora, eles pensam que estou com a minha vó, passando um tempo, no meio do ano letivo, e... Tá tudo bem. "Tá pronto, meu chapa?" Perguntou Radar, enquanto esperávamos nosso avião. Pronto? Claro que não. Primeira vez que entro num objeto gigante de metal que voa, é claro que eu tô me segurando pra não ficar cagado. Porém, é claro, tive que dizer que sim. A viagem foi até tranquila, não demorou muito. E a minha empolgação aumentou. Eu tava quase pulando feito criança retardada de 5 anos, quando saí do avião. A capital. O QG dos caras que salvaram o país. Puta que pariu. Nos esperando, um trio de carros militares. Sem tempo pra turismo, presumi. Tudo bem, vou ter tempo depois, eu acho. Em dez minutos... Estávamos presos no trânsito caótico do centro dessa cidade. Levou mais uma hora até que chegássemos no nosso destino. E, não, ainda não era o tal QG. Filhos da puta, sabem direitinho como criar expectativa. Em vez disso, fomos para um dos vários prédios comerciais. Um imenso prédio comercial. Elevador. Trigésimo nono andar. "O Sr. Harris já está esperando por vocês", disse uma mulher, sentada à uma pequena mesa de trabalho. Entramos pela única porta que havia no andar, fora a dos elevadores, eu e Radar. Dentro da sala, um cara só um pouco mais velho que eu. Não devia passar dos 30. Uma versão mais jovem de alguém bastante familiar, mas que eu ainda não sei quem... "É ele? Esse é o garoto lá da turma do meu pai? Não me parece grande coisa..." "Ei, ei, qual é, guri, teu pai falou muito bem do moleque, vamos dar um crédito. Não esqueça de que foi ele quem colocou você nesse cargo" CLARO! O cara deve ser filho do ScarMan. E parece ser tão chato quanto. Só que mais babaca. "Tá, ok, Radar, tem mais alguma coisa ou isso é tudo? Estou bastante atarefado por aqui..." A sutileza de alguém que não quer receber visitas. Deve estar aprontando alguma merda. "Ãh... Não, não, ok, beleza, só quis trazer o garoto aqui antes, pra, você sabe... Enfim, podemos vir aqui outra hora. Vambora, xará, eu sei que você tá querendo conhecer o QG. Pode ficar tranquilo, a gente tá indo pra lá agora". Mal posso esperar.

Linhas Paralelas - Partes 6a e 6b

"A-Alice?" "Sim, moleque. Alice. É um nome novo pra você?" Nem um pouco, sapo. Sabe, até 5 minutos atrás você era meu maior ídolo... Agora, você já tá querendo me foder. Sem duplo sentido. "Alice Carlinbrook. A menininha gênia da TV. Foi o que acabei de dizer. Você é surdo?" Infelizmente, pelo menos nesse momento, não. "É.. Ãh.. Eu conheço. Eu conheço... Essa menina, Alice" "Ótimo. Você vai me ajudar nessa. O garoto é confiável, Harris?" Quem é Harr.. Ok, é ScarMan. O rosto vermelho de raiva denunciou. E apesar disso, ele respondeu. Que sim, 'o garoto', no caso, eu, de fato é confiável. Eu podia ter agradecido... Mas não. Não sei se o velho foi sincero ou só queria ver o sapo longe dali o mais rápido possível. Regras rígidas sobre identidades, regras muito rígidas. Até hoje, ninguém por aqui sabe meu nome. Tampouco tenho um codinome. Sou só... "Garoto". Que merda. "Excelente, excelente... Você vai me ajudar, né, moleque?". Agora, pensando melhor, acho que "moleque" é um pouco pior. Sacudi a cabeça afirmativamente, claro. Que escolha eu tinha? "Então, anda, levante-se, temos trabalho a fazer" Mas, Mas.. Mas já?! Oops, talvez isso tenha escapado em voz alta. "Você realmente acha que eu sou o único que tá correndo atrás dessa menina? Claro que não! Tem mais gente nova na cidade. E gente pior, muito pior que eu". Pior do que, apesar de ser um cara que eu idolatro, um sapo? É que tipo de gente, então?... Jacarés? Graças a Odin, essa parte não escapou em voz alta. Assenti mais uma vez e segui FrogMan até a saída da ca.. Do local de reuniões. "Tô na casa dum camarada, a duas quadras daqui. Vambora, aproveitar que a rua tá vazia". Mesmo com a rua vazia, FrogMan colocou seu capuz novamente e caminhava a largos e rápidos passos. Foi difícil acompanhar. Chegamos num prediozinho velho e subimos até o terceiro andar. "O cara foi passar o fim de semana num lugar qualquer com a família, tô sozinho por 3 dias. O ideal é agirmos antes disso. Tenho outras pessoas pra buscar, mas preciso levar a garota. Essa garota, eu preciso. Mas precisamos de um plano. E aí, sugestões?" "Uh.." "Como eu esperava. Então, há quanto tempo você a conhece? Vocês são amigos? Houve alguma mudança de comportamento recente por parte dela? Você notou alguém diferente se aproximando? Ela confia em você?" E tudo que existia na minha cabeça era "Uh". Eu não fazia ideia de como responder essas perguntas. E pior: Eu não tinha a menor certeza se estaria ajudando Alice, trazendo ela pra companhia de FrogMan. Heróis são um pouco obcecados demais.

Ouço vozes. Não enxergo nada. Sinto alguém dando tapas em meu rosto. Mas quem será o filho da p... "... Ele acordou, vá avisar ao Harris. O velho ficou preocupado.. Cê tá bem, garoto?" Fora a puta dor de cabeça, beleza. Abri os olhos e Radar estava lá, esticando o braço para me ajudar a levantar. Não, eu não tava no chão. Me levaram prum quarto. Mas, é, eu desmaiei. Será que foi a loirinha que tá saindo agora, que tava tentando me acordar? Bem... Legal, ela. Bem legal. "O que foi, ficou mudo agora?" "Ãh... Tô.. Tô legal. É... Eu não comi direito, acho". Na verdade, só havia tomado o café da manhã... Isso dá umas.. 16 horas sem comer. É, não foi legal. "Vê se isso aí ajuda". Uma barra de cereal. Dezesseis horas sem comer e tudo o que me oferecem é uma barrinha de cereal. Ok. Vai isso mesmo. "Valeu". "Tô sempre com uma no bolso. Se precisar..." Ah, é, claro. Se eu tomar um tiro, com certeza gritarei "RADAR, POR FAVOR! UMA BARRINHA! ME AJUDA!". Imbecil. "Então, garoto, você vai ajudar a gente ou não?" Putz, eu quase esqueci. A menina nova na cidade, que é mutan... CARALHO! CARALHO! MUTANTE! A ALICE! PUTA MERDA! Quase desmaiei de novo, mas dessa vez seria por ter prendido demais a respiração. Me segurei mesmo, pra não gritar. É foda descobrir do nada que a "crânio" da escola é mutante, do nada. E que você passou horas ao lado dela, falando sobre química, sem nem desconfiar de nada. Vai ver nem ela sabe. Vai ver ela pensa que é só uma garota inteligente. Quando ela descobrir que é Super Inteligente... Fodeu. A pouca humildade que resta nela vai embora. Enfim, foda-se isso, por agora. Aliás, tô cagando pra humildade dela. Mesmo ela pertencendo a um grupo de seres superiores. Por quê eu fui nascer normal?! "É.. Hum.. Claro, claro que vou". É óbvio que só vou ajudar pela possibilidade de entrar na equipe depois, se fizer um bom trabalho. Mesmo que eu morra na página 17 da primeira edição dos quadrinhos. Pode ser que eu volte no reboot, sei lá. Eu espero. Radar sorriu. E eu sinceramente espero nunca mais ver esse sorriso de novo. É simplesmente assustador. "Boa, xará. Agora vá descansar um pouco. Amanhã nós vamos te levar lá pro QG" "Mas.. Mas.. Minha casa.. Minhas coisas.." "A gente dá um jeito". Ok, isso eu posso aceitar. Eles são mutantes fodões, afinal. Não duvido que tenha um cara que, sei lá, modifique as mentes das pessoas. Só apagar minha existência das mentes dos meus pais, sei lá. Mas.. "E a Al.. A menina? Achei que iríamos logo atrás dela" "Sem treino? Claro que não! Moleque, agora você é um dos nossos. Segue nossas regras. Voltaremos ao QG, treinaremos você e aí sim, faremos um plano pra trazer a garota pro nosso lado. Fica tranquilo, carinha. Nada vai acontecer com ela". Tem certeza, Radar? Tem certeza?

Linhas Paralelas - Partes 5a e 5b

Chegando no local da reunião, já encontrei uma movimentação fora do normal. E figuras além do habitual. Só uma, na verdade, que logo despertou minha curiosidade. Era impossível ver seu rosto, apenas uma pequena parte de algo que parecia ser uma máscara, verde, por baixo de seu capuz. "Hoje a reunião será um pouco diferente, meus caros", ScarMan, aquele velho ranzinza, começou. Fiquei satisfeito em descobrir que dessa vez eu não era o único a não saber nada sobre a reunião da noite. Aparentemente, só o encapuzado desconhecido já sabia de algo. E tem alguma coisa me dizendo que isso vai dar merda. "Primeiramente, como vocês já puderam observar, temos uma figura nova entre nós" O misterioso ser fez um rápido aceno com a cabeça. "Nosso convidado, um amigo de longa data, chegou à cidade e veio pedir a nossa ajuda em uma de suas missões" Então, o encapuzado se revelou. Eu tomei um grande susto. Todo mundo tomou um grande susto. O verde visível anteriormente não era uma máscara, era seu próprio rosto. Seu verde rosto... De anfíbio. Puta que pariu. Puta. Que. Pariu. Ele... A lenda... Ele existe! Quase gritei, feito louco, mas consegui me controlar. "Pois bem, como meu camarada H..." Alguém limpando a garganta o interrompeu "ScarMan" "Putz.. É sério isso? Mas nem cicatriz você tem.." "Cale a boca, é um nome forte. E, caso você não se lembre, os jornais te chamam de FrogMan" "Pelo menos faz sentido. Como eu ia dizendo... Como meu camarada 'ScarMan' já lhes disse, estou aqui em missão, meus caros colegas heróis. Não sei se vocês sabem, mas eu..." "Você viaja o mundo em busca de pessoas em condição semelhante à sua, ou seja, mutantes. E, pelo que me parece, uma dessas pessoas vive aqui, nessa cidade, é isso?" Senti que ScarMan queria me espancar depois de eu ter tomado a palavra de forma repentina. E FrogMan... Sei lá, queria cuspir em mim? "Uhh... Sim, certo, garoto. É isso mesmo que eu vim fazer aqui. Mas.. Como você sabe?" "Eu... Leio... Os jornais" Como o sapo evitava ler sobre si mesmo, o álibi para 'sou o dono do website dedicado a você' caiu perfeitamente. Não me perguntem como eu sei dessas coisas. "Pois bem, existe uma pessoa nessa cidade, que chegou há pouco tempo, que possui um poder extraordinário. Uma capacidade mental muito acima do normal, e caso ela vá para caminhos errados e desenvolver sua habilidade, o mundo corre grande perigo. A pior coisa que pode existir é um ser humano portador de grande intelecto que o use para causas erradas. E, Meu Deus, ela ainda é uma garotinha... Talvez você a conheça, rapaz" Disse Frogman, apontando pra mim. É, é bem provável. Todos as crianças e jovens da cidade vão para a mesma escola. Mas, quem seria? "O nome dela é Alice. Alice Carlinbrook. Aquela garotinha gênia da TV". Merda. Merda, merda, merda.

Chegando no local da reunião, já encontrei uma movimentação fora do normal. E algumas figuras novas. Todos fantasiados, como o restante. Não saquei pra quê tive que correr. Mais gente fantasiada, só. Nada demais. Não que não fosse legal conhecer fantasiados novos, mas.. Né, muita gente pra proteger uma cidade que não é tão violenta assim. Mas esse meu achismo de "são só mais uns fantasiados" deixou de existir quando a mulher do grupo novo - junto dela estavam mais três caras - virou-se para um deles e cochichou algo em seu ouvido. Então, o camarada simplesmente desapareceu no ar e retornou segundos depois, no mesmo lugar, com um celular na mão. Ou eu fui o único a notar algo estranho, ou o último, porque ninguém mais pareceu dar atenção a isso. "Ei, guri", ouvi ScarMan dizer, vindo em minha direção "Venha cá, quero que conheça alguém" Ainda meio assustado com o que havia acabado de presenciar, fui ao encontro do velho, que me levou até um de seus convidados, um magrelo estranho todo vestido de vermelho. Se fosse azul, eu diria que é meu eu do futuro. "É esse o garoto. Johnny, esse é Radar, acredito que já tenha ouvido falar nele" Radar... Eu conheço esse nome. É claro que eu conheço. A brincadeira de se fantasiar começou por causa desse cara. Quando eu tinha uns 5 anos de idade, esse cara salvou o país. Meu ídolo, na minha frente. Ele não era só uma lenda, afinal. "Valeu, Harris, agora pode deixar o garoto comigo pra conversar. E aí, xará?" ScarMan se retirou, resmungando algo sobre sua identidade secreta. E eu ainda fiquei sem conseguir falar por um tempo. Radar riu e prosseguiu a fala "Aquele ali ficou velho, enlouqueceu e agora não aceita mais o nome... Harris, Harris.. HARRIS, SEU PUTO! Enfim, o negócio é o seguinte, garoto. Eu e minha galerinha estamos de olho num pessoal pra se juntar a nós. Tem um grupinho especial nessa cidade... E a gente vai precisar de toda ajuda que puder. Harris me contou a história desse grupo, e, como estamos querendo ajuda e o chefe de vocês tá me devendo umas coisas, vim pegar alguns de vocês emprestados pra facilitarem as coisas pra nós. E, depois, se quiserem, vão se juntar ao grupo, também" E é óbvio que eu fiquei animado. A oportunidade, mesmo sem ter poderes, de me juntar a um grupo de pessoas especiais não surge todos os dias. "Acreditamos que você pode nos ajudar a trazer pro nosso lado uma menina da sua escola. Sim, você conhece mutantes, garoto" Ok, eu posso aceitar isso. Mas... Quem? "O nosso alvo não está aqui há tanto tempo, o que nesse momento reduz a lista que você está montando em sua mente" Como ele sabe?! "Você esteve com ela recentemente, inclusive. É... Ferrugem, qual o nome da pirralha?!" Radar gritou para seus companheiros, e um ruivo estranho se aproximou "Como é, chefe?" "A pirralha, a única pirralha que a gente veio buscar" "Ah, sim.. Alice. Alice Carlinbrook, se não me falha a memória" "Isso, valeu, Ferrugem. Agora, xará, essa menina, Alice.... Ei, moleque, cê tá legal?" Puta merda. Puta. Merda.

Linhas Paralelas - Parte 4

Finalmente em casa. Finalmente vou poder voltar à minha rotina, depois dessa tarde de sustos. Enfim, calmaria. Que, nesse momento, significa... Deixe-me ver, deixe-me ver... Tá chovendo. Melhor jogar um pouco de videogame. Depois, é noite de reunião. Não, não sou alcoólatra, e muito menos engajado com questões políticas. Aliás, também não sou nada engraçado, deu pra perceber. É uma reunião do pessoalzinho uniformizado, mesmo. Chamo de Festa dos Esquisitos, embora eu seja o único que se enquadra nessa categoria. E é sobre essas reuniões que eu escrevo, principalmente. É legal aprender coisas sobre aquelas pessoas que possuem o mesmo sonho que você. E então eu escrevo, pra não esquecer. É claro que nem sempre foi assim, mas agora confiam em mim. Ter a oportunidade de aprender com essa gente não é pra qualquer um. E de quebra às vezes vou pra rua com alguns, pra dar uma força. Não que eu ajude muito, mas eu faço o melhor que posso. Me orgulho em dizer que já quebrei uma meia dúzia de carinhas. Tudo bem, eles já estavam meio grogues, a maioria já caídos no chão, mas narizes foram rachados, é isso que importa. Já me disseram que levo jeito, mas sei que foi só pra não me desanimar. Mas, mesmo consciente de que ainda tenho muito a aprender, que ainda não sou nada perto desses caras, não abaixo minha cabeça. Estou do lado de heróis, nada poderia ser mais inspirador. A chuva acabou, preciso me arrumar. Onde está meu traje? Sério, uma roupa toda azul não se esconde tão fácil assim... Ufa, encontrei. Achei que tinha sido roubado. Droga, tô atrasado. ScarMan vai me matar. "Vem logo, guri. Hoje temos visita. Corre.", dizia a mensagem no celular. É, melhor mesmo correr.

Linhas Paralelas - Parte 3

Tem alguma coisa errada com esse Johnny. Sempre teve. Desde que eu cheguei nessa cidade, no início do ano, percebi que ele não era um garoto normal. Quieto, sozinho, sempre com um caderno embaixo do braço... E ainda tirando boas notas. Como pode, uma coisa dessas?! Ele chegou a ser melhor que eu, isso eu não admito. Não mesmo. Eu preciso descobrir qual é o segredo dele. Preciso voltar ao topo. Talvez se... Epa, ele esqueceu um dos cadernos aqui. Será que eu devo... Foda-se, vou abrir. Parece um diárHAHAHAHAHAHAHAH. Suspeitei desde o princípio, ele é só mais um daqueles freaks. Passa o dia "sendo criativo"... Em vez de estar fazendo algo útil, como estudar. Mas eu tenho que admitir que ele é bom nisso, até. Me deixou levemente curiosa. Melhor avisar sobre o caderno, antes que uma bomba seja arremessada aqui em casa. Vai saber, né... "Ei, Johnny" "Quem é?" Retardado. Saiu daqui faz meia hora e nem pra olhar o nome na tela do celular. "Alice, cacete. Você acabou de sair da minha casa" "... Ah, tá, ok, projeto de química. O que houve?" "Ãh... Você esqueceu aqui um de seus cadern..." "NÃO ABRE! NÃO. ABRE. EU JÁ TÔ CHEGANDO AÍ!" Tarde demais, freak. Em 10 minutos, ele chegou. Resolvi puxar assunto sobre o caderno, pra tentar deixá-lo um pouco desconfortável. Eu sei como freaks funcionam. Mas esse até que não é tão ruim... Antes de Johnny ir embora de novo, fiz um desafio "Você pode fazer uma personagem pra mim?" Ele vai dizer 'sim' na hora, vai realmente tentar, e não vai conseguir. Todos eles são assim. "Ãh... Vou ver o que posso fazer" Freak. Freak do Freak. 'Ver o que pode fazer' é um jeito educado de dizer que provavelmente não irá fazer. Mal devolvi o caderno, e ele já saiu correndo. Eu ainda vou descobrir o seu segredo, Nerd. Me aguarde.

Linhas Paralelas - Parte 2

Dos males, o menor. Dei sorte dela não ter sacado. 'Crânio' do jeito que ela é, a verdade não ter passado pela sua cabeça foi um milagre. Não que seja fácil associar a imagem de um nerdzinho anti social do colégio com a de um pirado fantasiado noturno, mas, sei lá, se existe gente que descobriu a identidade do Batman... Aliás, foi engraçado, como tudo começou. Mentira, não foi. Nem engraçado, nem no mínimo curioso. Foi bem besta. E continua sendo. Brincadeira de criança desocupada, é claro. Enquanto a maioria das crianças de 12, 13 anos, estava fazendo coisas normais de crianças dessa idade, eu e meus amigos - Sim, eu os tinha, por incrível que pareça - brincávamos de heróis. Eu sei, eu sei, alguns vão dizer que isso era comum, principalmente para meninos que foram alfabetizados com histórias em quadrinhos. Mas, não, não era comum. Mentira, era sim, no começo. Mas depois a merda foi ficando um pouco mais séria. Tanto que, depois de um tempo, um dos moleques mais velhos, na época com uns 15, 16 anos, resolveu tentar impedir um assalto a uma velhinha. Resultado: Tiro na cabeça. Morte instantânea. A velhinha também morreu. Moleque imbecil. O ocorrido mobilizou todo o país, trazendo à tona, pela milésima vez, a discussão sobre a influência negativa dos meios de entretenimento nas jovens mentes do país. Ok, é um tanto verdade, mas não se pode generalizar. Lenny era meio idiota. Assim como eu, o único da 'turminha' a continuar com aquela brincadeira. Fiquei meio obcecado. Comecei a treinar artes marciais - todas as que pude, ao mesmo tempo -, a realmente me preparar, pra tentar seguir os passos de Lenny. Bom, seguir até o penúltimo. Tiro na cabeça não é muito minha praia. Foi então que comecei minhas aventuras noturnas, uns 3 meses atrás, enfim. Como dito anteriormente, sou um cagão e ainda não cheguei a tentar impedir crimes pesados, mas já ajudei algumas pessoas, encontrei outras que fazem o mesmo que eu, também. E então veio Alice. A 'crânio' da classe. Do colégio. Da cidade. Campeã de um concurso intelectual da televisão, dois anos adiantada... E tão anti social quanto eu. Com a diferença de que ela tenta não ser, o que a deixa com um jeito de pessoa chata. Ou talvez ela seja só chata, mesmo. Grande ideia da gênia professora de química, nos juntar no projeto, aliás. Com um sistema educacional que permite professores assim, não é de se espantar que a escola seja o lugar mais odiado pela população adolescente. Enfim, onde é que eu estava mesmo? Ah... Sim, Alice. Nunca havia trocado uma palavra sequer com ela, até hoje mais cedo, enquanto discutíamos o maldito projeto. Ou melhor, enquanto ela dizia algo que não entendia e eu sacudia a cabeça, concordando. Quanto menos discussão, mais rápido de lá eu sairia. Mas, como vocês já sabem, tive que voltar. Preciso tomar cuidado a partir de agora. Muito cuidado. Não é só minha identidade secreta que está em risco.

Linhas Paralelas - Parte 1

Como toda boa história, tudo acontece por causa de uma garota. O nome dela? Mary Ja... Espera, isso é plágio. Sossega aí, Nerd. Existem, claro, garotas em minha história, mas elas não chegam a ter tanta importância no enredo. Bom, talvez uma delas sim. Alice... Aquela desgraçada enxerida. Achou meu Caderno de Registro das Atividades Cotidianas - porque "diário" é termo de menininha - e bisbilhotou. "Ei, Johnny" "Quem é?" Perguntei, deste lado da linha. "Alice, cacete". Alice... Mas que Alice? Caramba.. Eu conheço esse nome, mas não tô conseguindo.. "Sua parceira no projeto de química. Você acabou de sair da minha casa, lembra?" Ela deve estar me achando meio retardado. E talvez eu seja mesmo. "É que você esqueceu aqui um caderno..." Puta merda. Agora, depois dos gritos de "me espera aí" e "tô chegando pra buscar a porcaria do caderno", ela tem a certeza de que sou um retardado, acabaram-se as dúvidas. E, como já era de se esperar, meus gritos foram em vão. Ela abriu o caderno. Aquela desgraçada enxerida. Mas só descobri isso ao chegar lá, assim que pisei de novo na casa dela. "Cara, você é louco", ela disse, entre risos. E vocês provavelmente concordarão ao ouvirem sobre o conteúdo do meu caderno. É, já vou explicar, acalmem-se. E vira essa foice pro outro lado aí, amigão. Sem violência, por favor. A verdade é a que sou um herói. Uma tentativa de herói. Um moleque retardado que sai à noite por aí numa fantasia ridícula que corre de volta pra casa ao primeiro sinal de merda. Ah, a maldita influência da cultura pop... Mas de vez em quando umas coisas legais acontecem. E então, eu as escrevo nesse caderno. Agora, pensando bem, eu não deveria usar esse caderno no colégio, né? Enfim... "Não sabia que você gostava de escrever, e nem de desenhar. Você é bom nisso, gostei dessa história. Você vai me dizer o que acontece depois, né, agora que somos amigos..." Eu ri. Eu tive que rir. Não sei se por alívio, falta de jeito ou sarcasmo. Mas eu ri. Sério que ela disse que somos amigos? "Ok... Ok... Pode me devolver agora? Eu realmente preciso do meu caderno..." "Mas eu ainda não terminei de ver!" "A... A história não tá pronta ainda. Vou fazer umas mudanças e uns acréscimos. Eu.. Eu... Eu te mostro quando terminar". Improvisos. Sempre fui bom em improvisos. Eu acho. "Tá, tudo bem. Mas só se você me prometer uma coisa" Lá vem merda... "Você faz uma personagem pra mim?" Cadê você agora, habilidade de improvisar? "... Vou ver o que posso fazer". Acho que colou, ela me devolveu o caderno. Ufa. Saí correndo o mais rápido que pude, da casa dela. Já estava me vendo contando tudo, e Alice rindo da minha cara. Ligando pro hospício, talvez. Ninguém iria acreditar num moleque de 16 anos que diz que... Vou deixar pra depois. Mas não se irritem, eu volto. E eu já disse pra tirar essa foice de perto de mim, camarada.

O Livro dos Enigmas - Parte 10

Um tempo a sós com meu filho, era tudo o que eu queria e precisava naquele momento. Rob já tinha 12 anos. Fiquei semanas sem vê-lo, seu aniversário passou, e eu não estava lá. Mas, naquele momento, eu o abraçava, como se tivessem se passado anos desde a última vez em que nos vimos. Bom, na verdade, esse tempo não foi a sós, pois Charlie, o Ogro, estava por perto, de guarda. Quando comecei a ficar com raiva de sua presença ali, pois tinha um plano para contar a meu filho, a voz de Cindy surgiu em minha mente. "Vincent, escute. Só escute. Charles está do seu lado. Nós namorávamos, e ele jurou para mim que te ajudaria, se eu não pudesse mais. Eu confio nele. Por favor, faça o mesmo. E, me desculpe. Me desculpe por ter partido sem dizer adeus. Mas era pra ter acontecido assim. Seu tio teria me matado da mesma maneira, depois. Minha vida foi tirada no lugar de muitas outras. Quanto menos gente morrer, melhor. Vincent, ajude-os, todos, por mim". "Ei, grandão", disse, olhando para Charlie. "Eu sei da verdade. Eu não gosto muito de você, mas sei da verdade. Você vai me ajudar, não vai?" "Sim, senhor líder. Eu prometi a ela, e cumprirei", ele respondeu, simples. Apesar de brutamontes, Charlie era um homem bom, afinal. "Bom, Rob, Grandão, o plano é o seguinte: Eu vou levar meu tio para a cidade. Eu sei, parece loucura, mas eu tenho que fazê-lo pensar que me tem nas mãos, para fazer o que pretendo. Sei que agora nossa cidade está sob controle de Charlie, já que aquele cagão do Mike foi assassinado. Bem feito, falando nisso. Enfim, Charlie, você é o líder deles. Traga-os para o nosso lado, liberte os que foram presos lá. Nós vamos para a guerra". Se passaram 3 dias desde aquela pequena reunião com Rob e Charlie. Finalmente chegou o dia em que eu levaria meu tio e seu exército para o Paraíso. O Paraíso da Guerra. Viajamos num grande avião até a floresta amazônica, pois Charlie era o único que possuía aquelas habilidades e que conhecia o local, até o momento. Meu tio e sua organização fizeram experimentos com Charlie e conseguiram duplicar sua habilidade e injetá-la em soldados. Ao lá chegar, Ronald soltou minhas algemas e ordenou para que eu descesse com Charlie, com arma em punho e meu filho sob sua mira. "Vá, rapaz. Desça com o grandalhão. Desça e permita minha entrada, ou a criança morre". Claro que ele não iria matá-lo, mas, mesmo assim, o medo tomou conta de mim. Desci, junto com Charlie. Estava tudo caminhando bem. Eu e Charlie poderíamos organizar nosso exército com o pretexto de estarmos indo até o "local sagrado" em que eu anunciaria que meu tio e seu exército poderiam entrar na minha cidade. Tolos. Isso não existia. Boatos estúpidos... hoje em dia, todo mundo acredita em qualquer um. É impressionante. Demoramos duas horas para voltar para o mundo de cima. Nosso exército preparava a armadilha, na cidade, enquanto eu fazia um discurso improvisado e estúpido sobre "os deuses do Paraíso". Inventei tudo ali, na hora. Foi fácil. No momento em que descemos, todos, eu, Charlie, o exército estúpido e Rob, o caos começou. Meus soldados usavam seus poderes, e o exército inimigo disparava com metralhadoras. Consegui tirar Rob da mira da arma de meu tio, o peguei nos braços, e corri com ele, fugindo dos tiros do velho louco. De repente, os tiros pararam. Olhei para trás, e vi Charlie enforcando o coroa, sem dó nem piedade. Grande cara, grande cara. Um dos nossos, que detinha o poder de aumentar o som de sua voz, como se fosse um trovão, anunciou. "Humanos, seu líder está morto. Os que ainda vivem, tem duas opções: juntarem-se a nós, ou continuarem lutando, o que vai ser pior para vocês. Deixem nossa cidade em paz. Saiam do Paraíso". Segui com meu filho até um local afastado, coloquei-o no chão, e tirei algo do meu bolso. O livro de meu velho pai. Achei que ele ia gostar de ler.

 Agora, falo direto com você, Rob. Sei que não tenho dado notícias há anos, que não te deixei ficar aqui na cidade, mas você precisava de paz. Não quis expor você a outros riscos que poderiam ter vindo, e vieram. Agora, depois de 10 anos, Charlie está levando este diário para você. Espero que ele sirva para você assim como o livro de seu avô serviu para mim. Provavelmente, estarei morto quando você chegar ao fim deste caderno. Fui afetado por uma doença incurável. Lamento. Lamento, ter partido sem poder dizer Adeus. Mas, se você quiser, seu lugar é aqui. Você já está bem grandinho, já pode cuidar disso. Mas, apenas se quiser. Saiba que, se aceitar, estará assumindo um compromisso para toda a vida, cheio de riscos. E, por favor, cuidado. Os inimigos ainda existem. E estão por toda parte.

O Livro dos Enigmas - Parte 9

Naquele momento, eu não entendia mais nada. E nem queria entender. Só queria ver minha família, resgatá-los. Mas o velho, como todos os velhos, gostava de falar, contar histórias. Eu já estava puto, mas tive que ouví-lo. "Vincent, Vincent... Sua mulher e seu filho estão bem, fique tranquilo. Estão comigo. Ora, você não achou realmente que seu velho tio aqui iria fazer mal a eles, né? Claro que não. Só quis te dar um pequeno susto, para trazê-lo até aqui. Eu sabia que você vinha. Até mesmo pela sua mulher, apesar de boatos por aí darem conta de que você apaixonou-se por uma atraente jovem. Ah, a propósito, ela está comigo, também. Charlie a trouxe. Ele possui habilidade semelhante a habilidade daquele pequeno verme que veio com você. Deu trabalho, aquele molequinho. Tive que fazer algo que não queria. Matei a criança. Uma pena. Ele era tão... talentoso. Ah, sim, talentoso, assim como seu pai era. O mais talentoso da família. O mais feliz. O mais tudo. E, naturalmente, o escolhido para ir em busca do Paraíso. Sim, eu estou com inveja. Não nego. Me processe, se quiser". Monstro. Maldito. Havia acabado de arrancar a cabeça de uma criança, e ria. Eu sempre tive nojo dele, mas agora estava pior. "Ora, Vincent... ria um pouco, meu rapaz. Se alie a mim. Você está destinado a liderar aquele lugar. Isso eu não posso mudar. Mas, por favor, se alie a mim. Permita minha entrada lá". "Nunca", respondi. "Ah, é? Nunca? Vamos ver se com um empurrãozinho você muda de ideia... Guardas, tragam os prisioneiros". Homens uniformizados surgiram, trazendo minha esposa, meu filho e Cindy, amarrados e machucados. "Vai colaborar, Vince?", ele perguntou. Respondi negativamente, e ele, em segundos, atirou na cabeça de Cindy. Ela agora jazia morta no chão. Filho da puta. "E agora, com sua jovem amada morta, vai me ajudar?". Novamente respondi que não. Ele não podia ser louco a ponto de matar mais alguém. Mas, me enganei. Ele era. Atirou em minha esposa, também na cabeça. As duas mulheres que amei na vida, mortas. Filho da puta. "E agora? Última chance... o tempo está se esgotando, o cerco se apertando, e, se você não colaborar...." "Eu vou colaborar, tio. Mas, antes, preciso de um momento com meu filho." Ele não poderia me negar isso. E não negou. "Está bem... se assim deseja, assim será, Vincent, líder do Paraíso. Eu nunca mato crianças".

O Livro dos Enigmas - Parte 8

E lá estava eu, no meio duma floresta imensa, com um moleque. Um moleque que se transporta pra onde quiser, desde que ele conheça um lugar. Bosta. Ele nasceu lá naquela cidade de baixo, não conhece nada aqui. E agora? Bom, e agora que... fodeu. Preciso chegar em Londres o mais rápido possível. Pessoas que amo correm perigo. Preciso salvá-las, já. Mas como? Merda. Eu, como sempre, faço as coisas sem pensar direito. Mas, espera aí, eu não estou sozinho. Será que se eu chamar, ele vem? Bom, não custa tentar. Antes que eu pudesse pensar numa maneira de fazer isso, a voz dele surgiu. "Olá, Vincent. Eu sei exatamente o que você quer. E, por sorte, há solução. O garoto não precisa ter estado no lugar, para conhecê-lo. Só precisa ver uma parte, e nem precisa ser de verdade. Pode ser por foto, talvez. Meu livro, aquele que estava em sua cabana, possui uma imagem do Big Ben. Sei que você não está com o livro aí, mas tem uma página, guardada em seu bolso. Por sorte, é esta, a página". Velho desgraçado. Até morto, sabia das coisas. Tirei a foto do bolso, e fui até o garoto. "Ei, moleque, você pode nos levar a este lugar? Hein? Pode?". Não podia perder tempo. Qualquer segundo era precioso. O garoto, sem nada dizer, encostou em meu braço e, em segundos, estávamos na frente do Big Ben. Sorte minha que aquele era um moleque curioso para conhecer o mundo. Ponto a meu favor.

Bom... mais ou menos. Eu continuava tão perdido quanto antes. Não sabia pra onde ir, e agora estava em maior perigo. Se, quem queria cuidar de mim me vigiou quase a vida toda, quem queria me matar no mínimo fazia o mesmo. Eles podem estar em qualquer lugar. Podem ser qualquer um. E, o pior. Eu nem imaginava quem poderiam ser. Infelizmente, descobri logo. Eu e o moleque. Levaram ele também. Uma van preta. OUTRA van preta. Que falta de originalidade, meu Deus. Vans pretas... discretas, não? Enfim, cobriram meu rosto com um pano escuro e me apagaram, com uma porrada na cabeça. Quando acordei, estava sendo levado numa maca, não sei pra onde. Parecia uma sala de cirurgia, mas não haviam médicos, psicopatas, e menos ainda aliens. Meu cérebro e meus órgãos continuariam intactos, por enquanto. Pelo menos isso. Meus braços e pernas foram amarrados na cama em que fui colocado, e lá fiquei, sozinho, amarrado, e gritando feito louco, por horas, ou dias, não sei bem. Certa hora, tomei um susto. Uma voz, dizendo meu nome. " Carlson.... Vincent Carlson". Por quê será que gostavam tanto de dizer meu nome? Será que era tão sonoro assim? " Há quanto tempo não nos vemos, hein, garoto... Vou te desamarrar. Somos dois homens velhos, podemos conversar de forma civilizada". Enquanto eu me levantava, com dificuldade, olhei para a minha frente. E lá estava ele. Velho, calvo, e com aquele sorriso que herdei. Meu velho pai morto, ressurgido das cinzas? Não. Na minha frente, estava um homem que eu não via desde jovem. Ronald Carlson, irmão gêmeo de meu pai. Tão filho da puta quanto o velho morto.

O Livro dos Enigmas - Parte 7

Merda. Minha família em perigo e eu sem poder mexer a porra dum dedo. E ninguém parece querer me ajudar nessa droga de lugar. Mas, espera aí...uma outra passagem marcada no livro de meu velho pai, dizia que Thomas, o personagem principal, viu o estranho homem, chamado Vincent, sentado na frente de uma lápide, murmurando coisas. E se ele estivesse conversando com alguém já morto? E se esta fosse minha habilidade aqui? Falar com os mortos...eu poderia falar com meu pai. Mas...como? Como chamá-lo? "Não precisa me chamar. Eu estou aqui, Vince", disse uma voz, um tanto distante. A voz de Rick Carlson, meu velho pai. "P-pai?" "Claro, Vince. Quem mais você esperava? Papai Noel? Bom, agora, falando sério...finalmente você percebeu seu poder. E sua importância neste lugar, espero que tenha percebido também. Ah...esse lindo lugar. Passei quase que minha vida inteira procurando-o, mas a morte me levou para junto dela, antes que eu o encontrasse. Mas você está aqui. E tem que ficar aqui. Você é importante para este lugar, Vince. Importante para eles, embora ainda não saiba." Eu, importante? Será que o velho não sabe o que estão fazendo comigo? Será que não dá pra ele ver isso do inferno? "Por isso, não se preocupe com sua mulher e com seu filho, não se preocupe com nada lá em cima. O que está acontecendo irá se resolver. Você tem que se preocupar com um perigo maior e mais próximo. Há alguém aí que não é quem parece ser. Mas, antes que você me pergunte, não posso dizer. Você tem que descobrir sozinho. Descubra, e ajude o restante dos inocentes a manterem o lugar, a fazê-lo prosperar. Pense no bem que isso causará no mundo. Agora, vou deixar sua mente em paz, meu filho. Descanse, e pense nisso. Em outra oportunidade, volto para mais um papo". Parei de ouvir a voz do velho. Ele não falou nada com coisa alguma, coisas que mal ouvi. Eu estou preocupado com minha mulher e com meu filho. Preciso salvá-los. E sei exatamente o que devo fazer.

 Eu já sabia exatamente o que fazer. Primeira coisa que passou pela minha cabeça. Algo tão... óbvio. Era este o problema. Óbvio demais. E, além disso, como eu farei isso? Estou preso aqui nesse maldito quarto de novo... No momento em que escrevi isto, a porta foi violentamente derrubada. Charlie, o Ogro. "Vem. o chefe quer ver você". Droga... Aconteceu alguma merda. Fui levado pelo gigantão até a cabana do líder, o velho James. Lá chegando, vi duas pessoas amarradas. Cindy e o velho. Mike, apontando um revólver pra cabeça do coroa. Filho da puta. "Ora, ora...Vincent Carlson...já estávamos sentindo sua falta em nossa festinha. Não se atrase mais. Charlie, amarra ele também". Fui amarrado e jogado ao lado dos outros dois. "Que surpresa, não? eu sou o traidor". "Surpresa alguma...você sempre foi um merda, moleque. Sem talento algum. Sempre na sombra dos outros", respondi. E era verdade. Ele sempre foi um merdinha. Sempre pensou só em chegar no status de líder. Mente fraca. "Vincent, poxa...depois de tantos anos, é assim que você me trata? Palavras machucam, sabia? Mas, quer saber? Vou resolver isso já, já...Charlie, desamarra a loira". Bichona. Além de cagão, é uma bichona. Já imaginava isso, também. Após Charlie ter desamarrado Cindy, Mike virou-se para ela. "Cindy, querida, vá até nosso querido amigo Vince e faça aquilo que faz de melhor. Vai lá... você já fez isso antes". Do que ele tava falando? O que ela havia feito antes? Mike respondeu logo em seguida. Deve ter lido minha mente, o desgraçado. " Vince, Vince, Vince... tolo Vince. Você acreditou mesmo nela? Se apaixonou por ela? Idiota. Ela não sente NADA por você. Isso faz parte da habilidade dela. Ela tem o poder de causar atração em todas as criaturas que toca, quando ela quer. Ela controla todos os seus movimentos, se quiser". Olhei para Cindy, buscando uma indicação de que não era verdade, tudo aquilo. Indicação que nunca veio. Era verdade. E ela chorava. A traidora chorava. "Bom, chega de lenga lenga... apenas o trouxe aqui por um desejo do velho. O último desejo dele é vê-lo. Vá, velho, diga o que tem a dizer". "Vincent, me perdoe... por tudo. Por seu pai, por tê-lo trazido até aqui, por sua família... me perdoe. Antes de ir encontrar-me com meu velho amigo no outro plano, tenho um recado dele para transmitir. Aquele velho era um gênio, parecia prever o futuro. Vincent... capítulo 27". Capítulo 27? Mas, no capítulo 27... claro, já estava tudo acertado. O velho sabia o que ia acontecer, e quando. E sabia exatamente o que ia acontecer a seguir. Mike, ainda apontando a arma para a cabeça de James, soltou uma risada doentia e sussurrou "Adeus, pai", antes de atirar no velho, que caiu morto instantaneamente. Filho da puta. Matou o próprio pai. Aparentemente, a confusão na cabana de James havia acordado a cidade inteira, e agora alguns já haviam conseguido entrar. No meio da confusão, Cindy havia conseguido se soltar das mãos de Charlie, e correu até mim. "Eu sei que você está com raiva de mim agora, mas, por favor, eu lhe juro, não usei o meu poder com você. Agora, vá. Corra daqui. Vá até a cabana mais distante. Lá está Leonard. Ele vai te tirar daqui. Eu amo você, Vincent Carlson". E ela me beijou. Se não fosse a confusão, o beijo teria sido mais longo. Mas havia sido suficiente, para a ocasião. Consegui me soltar das cordas e corri para fora daquela cabana, enquanto Mike e Charlie tentavam se livrar da multidão enfurecida. Meu pai estava certo. Ainda haviam inocentes ali. Corri, por uns 10 minutos, até encontrar uma cabana isolada. Arrombei a porta, acordando o garoto. Dificilmente ele iria me ajudar, mas resolvi tentar. "Ei, Lenny, preciso da sua ajuda. Preciso sair daqui, urgentemente. Sei que você pode me ajudar nisso. Por favor, eu preciso. Você pode vir comigo, se quiser. Sair desse buraco. Eu sei que você quer isso". claro que eu não sabia de nada, mas tinha que arriscar algo. Para minha sorte, o menino apenas respondeu "Claro que quero" e correu até o exterior de sua cabana. Segui-o, até que ele parou, uns 15 metros à frente da porta de entrada. "Aqui é suficiente. Vamos, rápido. Segure meu braço, Sr. Carlson". Fiz o que o garoto havia pedido e, num piscar de olhos, lá estava eu, ao lado de um garoto esquisito, no meio de uma floresta, à noite. Capítulo 27 do livro de meu pai. O velho Vincent e o garoto Thomas fugindo de captores, e, ao mesmo tempo, tentando salvar as vidas de habitantes de seu vilarejo.

O Livro dos Enigmas - Parte 6

 Adormeci rapidamente, e, após o que pareceram segundos- e talvez até tivessem sido, pois não tenho noção nenhuma do tempo aqui, preso neste quarto- despertei graças à batidas violentas na porta. Eu tinha arranjado um jeito de trancá-la. "Carlson, Carlson, abra essa maldita porta, AGORA", berrava uma grave voz masculina. Levantei calmamente e, da mesma maneira, destranquei e abri a porta. Olhei para meu visitante irritadinho de voz grave. Negro, fortão, cabeça raspada, mais de 2 metros de altura, com certeza. Era um armário. "Pois não, meu caro. O que deseja?" perguntei, com a maior educação que pude tirar de dentro de mim. "Meu chefe quer falar com você, vamos", ele respondeu, segurando meu braço e me puxando para fora de meu quarto. Troglodita. Troglodita clichê. Deve ter sido segurança de "estrelinhas" lá em cima. Será que de uma das minhas "estrelinhas"? Talvez. Ele me arrastou até uma outra cabana e, assim que a adentramos, fui jogado no chão aos pés de alguém. "Caramba, Charlie, te falei pra tratar bem o nosso convidado... afinal, ele é Vincent Carlson". Duas pequenas observações: Putz...Charlie, o nome do cara. um diminutivo. Só pode ser brincadeira comigo... e, esse desgraçado, chefe do "pequeno Charles", é ele, sim, Spike, o bebê cagão. Maldito. Chefe da segurança. Vê se pode uma coisa dessas... bom, voltando, fui ajudado a levantar pelo troglodita. Estava bravo, muito bravo, mas não podia demonstrar. Não queria ficar mais não sei quanto tempo naquele forno que chamavam de quarto. Dei de cara com aquele garoto, o Mike. Ele sorria. De forma irônica, muito provavelmente. Repito: Maldito. Agora estava se sentindo superior. Mas ele ia se ver comigo...ah, ia. Mas naquela hora não. Ele começou a falar "Vince, tenho o prazer de lhe informar que...ta daam!" naquela hora ele tentou fazer uma espécie de dancinha ridícula. Não pude deixar de rir. "O senhor está liberado para usufruir de nossa bela cidade. Ainda não demos um nome a ela, mas gosto de chamá-la, como deve se recordar, de nossa Atlântida. Isso não é mágico?". Ele agora, sem dúvidas, estava mais bebê cagão que nunca. Bom, bebê acho que é demais. Molequinho cagão, é melhor. "Me acompanhe, Sr. Carlson, por gentileza". Ele dizia, enquanto saía de sua cabana. Não tive o que fazer se não seguí-lo. "Como creio que se lembra, no dia em que você acordou, eu lhe disse que aqui adquiríamos habilidades especiais. Pois bem, ali é a área destinada para que possamos nos habituar com as habilidades adquiridas, e treinar para usá-las de forma controlada" Disse ele, apontando para um grande espaço onde meia dúzia de pessoas parecia ter saído de um daqueles desenhos animados japoneses malucos, com raios bizarros saindo das mãos. "Aliás...a sua habilidade já começou a se manifestar, Vince?". Respondi que não. Mas não era verdade. Eu, de vez em quando, ouvia algumas vozes distantes. Acho que estava com uma super audição, ou, sei lá, talvez fossem...espíritos? Enfim, continuei minha caminhada junto com aquele rapaz. "Ali fica nosso prédio de imprensa, ali, do outro lado, nosso local para adquirir mantimentos, ao lado, o prédio onde fica o dinheiro recolhido das árvores, que ficam...ali, mais adiante, e, perto delas..." parei de ouvir. Fiquei distraído com um pequeno garoto que surgia a cada segundo num lugar diferente e mais improvável que o anterior. Era uma cena ao mesmo tempo assustadora e incrível. Spike, que estava ao meu lado, notou que eu olhava o pequeno. "Ah...vejo que encontrou nosso pequeno gênio. Sem ele, não estaríamos aqui. Ele estava aqui antes de acharmos este lugar, não é incrível? Ele tem apenas 15 anos...grande garoto, grande garoto. Leonard, seu nome. Também é conhecido por nós pelo nome Transporte, pois é ele quem nos traz aqui pra baixo. Você, inclusive, foi trazido por ele. Mas, lembre-se: Nunca chamá-lo de Transporte na frente dele. Ele é um tantinho egocêntrico, e precisamos dele em paz para que ele continue colaborando conosco". Algum tempo depois, ela apareceu. A loira, Cindy, vinha correndo em minha direção. Mas, peraí, o troglodita vinha correndo atrás dela. Alguma coisa estava errada. "Sr. Carlson, Sr. Carlson...é urgente", disse a mulher, quase sem fôlego. "Sua mulher...sua mulher, senhor, e seu filho foram capturados. Capturados por nossos inimigos, lá em cima". Maldita hora em que fui trazido pra cá. Deixei minha família desprotegida. Mas esses homens, essas pessoas que estão aqui embaixo, tem que ajudar. Afinal, sou um deles agora. Merda.

O Livro dos Enigmas - Parte 5

Depois do encontro com o velho, fui levado de volta ao quarto onde fiquei por duas semanas. Desta vez, sem vendas nos olhos. No caminho, pude avistar um pouco daquele lugar. Na ida ao quarto do velho, não percebi, mas não passei por corredores. Passei pelo exterior do lugar. Agora, sem vendas, pude ver toda a luz que passava pela janela do meu quarto. Ela realmente surgia do nada, como eu havia visto quando acordei, depois de chegar. E, olhando-se atentamente para cima, podia se ver uma imensidão de escuro, e, há vários mil pés acima, uma pequena luz. Provavelmente, o local por onde eu havia chegado aqui. Podia-se também ver terra caindo, de vez em quando. Afinal, estávamos debaixo dela. Mais depressa do que imaginava, fui arremessado para dentro de meu quarto, com uma certa violência. Protestei, mas logo fecharam a porta, atrás de mim. Comecei a socar e chutar a porta, revoltado. Quem eles pensam que são?! Meu pai foi braço direito do chefe, idiotas. Bando de imecis. Não sabem com quem mexeram. Vincent Carlson, o maior empr... era, o maior empresário. Lá em cima. No mundo normal. Aqui, eu sou apenas mais um. Fiquei mais uns dias preso, e recebia menos comida do que antes. Com certeza foi pelo meu comportamento ao voltar pra cá. Malditos. Me tratando como prisioneiro. Depois de 5 dias, a mão que me trazia comida fez sinal para que eu me aproximasse daquele espaço por onde a comida entrava. Quando me aproximei, surgiu uma voz feminina. "Sr. Carlson? V..Vincent? Você está aí do outro lado?". Era ela. A loira bonita que apareceu na hora que acordei. Cindy, o nome dela. Não esqueci. Esse nome, eu não esqueci. Acho que ela foi com a minha cara. Bom, voltando, quando respondi que estava ali, ela retomou a fala. "Vincent...vão liberar você. Vão deixar você ficar aqui fora...". Cara, que beleza. Finalmente, eu ia sair daquele maldito quarto. Já não aguentava mais contar as listras da parede. É, a parede tem listras. Acho que fizeram assim propositalmente, pra deixar alguém maluco. Quase perdi o resto da fala de Cindy. "...amanhã. vão te liberar amanhã. Mas acabou de ocorrer a reunião do alto conselho, acho que agora eles decidiram confiar em você, e quis vir te trazer logo a boa notícia. Boa noite, Vincent". Só consegui responder uma coisa. "Obrigado". E continuei, ali, parado perto da porta, e senti que ela também. Depois de uns segundos, Voltei para minha cama. Senti que o seguinte seria um bom dia.

O Livro dos Enigmas - Parte 4

Fui à reunião com o tal líder daquele local. Foi um alívio sair daquele quarto depois de duas semanas. Poderia ver a luz que vinha lá de fora, ver pessoas, tudo. Mas, esse meu pensamento foi até o momento em que fui vendado. Uma voz masculina disse que "eu não estava ainda preparado para usufruir do local". Como não conseguia enxergar onde estava o nariz do imbecil, para quebrá-lo, fiquei na minha. Fui conduzido por um tempo que pareceu durar mais do que realmente durou. Depois, houve uma parada, e recebi autorização para retirar de meus olhos o que repelia minha visão. Ao terminar de retirar, continuei não vendo nada. Eu estava numa sala escura, no breu absoluto. Ouvi um estalar de dedos, e, de repente, as luzes começaram a surgir. Olhei ao redor da sala, maravilhado. Vários equipamentos de última geração, obras de arte caríssimas espalhadas pela sala, tudo tão...lindo. Tão...brilhante. Finalmente, olhei para minha frente, e lá, sentado numa poltrona, fixamente olhando para mim, havia um velho. Sim, um velho. Bem velho mesmo, beirando os 90 anos, talvez. Ele fez sinal para que eu sentasse na poltrona ao lado da dele, e assim o fiz, sem dizer uma palavra. Ao me sentar, ele começou. "Bem vindo, Sr. Carlson...perdoe-me a falta de educação, perdoe-me não poder me aproximar para um bom aperto de mãos, mas, entenda, sou um homem velho, cansado. Devo sossegar um pouco, ainda mais depois de ter passado de uma boa aventura. Mas não é hora para essa história. Hoje não.  Estou aqui agora para esclarecer algumas dúvidas suas". Agora que eu estava podendo ver o homem mais de perto, achei seu rosto familiar. Eu lembro de tê-lo visto, quando mais jovem. Mas não conseguia lembrar seu nome. "Primeiro de tudo. Quem sou? Ora, não se lembra? Ou apenas herdou o defeito de seu pai em lembrar nomes? Ah, sim, conheci seu pai...aquele velho sacana. Nos deixou, uma pena. Nos deixou." O velho, sem dúvida, era um tanto excêntrico. Ali, naquele momento, parecia que ele ia rir, mas, ao mesmo tempo, chorar. Ele retomou a fala. "Pois bem..sou James Monroe, Vincent. Escritor, assim como seu velho pai. Éramos amigos. Melhores amigos, arrisco dizer. Crescemos juntos, entramos juntos nesta organização, ele me ajudou a chegar no posto de líder. O mínimo que eu poderia fazer pelo meu velho camarada era atender o último desejo do homem. Agora, pegando um gancho nisso, creio que você saiba qual foi este último desejo. Te trazer para cá, caso ele estivesse morto quando encontrássemos este lugar. O jovem que te trouxe te contou, aposto. Agora, mudando de assunto, voltando para seu pai, nós temos inimigos. Membros expulsos daqui em outros tempos se juntaram e montaram uma organização semelhante, cujo único objetivo é destruir a nossa. E o que tem seu pai a ver com isso? Bom, perdoe-me a forma com que contarei isso, assim, de repente, mas achamos que ele foi assassinado por essa organização. Ele era meu braço direito, eles iriam atacá-lo antes de mim. Desculpe, sei que é difícil ouvir isto. Eu mesmo ainda não superei a morte do Rick. Imagino você." E era verdade. Ainda não tinha superado a morte do velho. "Você, Vincent Carlson, empresário bem sucedido, morando conosco. É uma grande honra." Não soube na hora se aquele velho havia sido ou não irônico, mas não importava. Eu só queria respostas naquele momento. "Agora, creio que se pergunta: Se seu pai estava ameaçado, todos aqui sabiam do desejo dele de te trazer pra cá, e tínhamos - e ainda temos - espiões em nossa organização, sua vida não deveria ser protegida? E foi, Vincent. E foi. Mesmo que você não percebesse. Afinal, as pessoas que asseguravam sua vida eram as mais improváveis. Aquele jovem que o trouxe para cá, inclusive." O quê? Aquele bebê cagão? Impossível. Eu me lembraria duma cara tão babaca. James, o velho, mostrou-me uma foto. Antiga. Bem antiga. Eu ainda tinha cabelo. É, eu estava na foto. Eu e a primeira boyband que empresariei. Foi lamentável, aquele trabalho. Olhei atentamente para a foto e tomei um susto. Lá estava aquele garoto. Mais garoto ainda, na foto. Ele era o líder daquele conjunto. O líder bebê cagão.

O Livro dos Enigmas - Parte 3

Duas semanas se passaram, desde aquele dia da van escura. Aquele moleque meio maluco veio me falar de sociedades secretas, mundos perfeitos e não sei quê, mas, a cada dia, menos eu acreditava nisso. Eu tô esse tempo todo preso nesse maldito quarto. Não via mais ninguém. Só uma mão, que deixava as refeições por um espacinho que tinha na porta. Não sei, mas acho que a mão é daquela loira...Cindy, acho, o nome dela. É, belo nome...enfim, tenho outras coisas pra resolver no momento. Continuo preso. Não tem nada pra fazer, só um livro velho aqui jogado, que não sei de quem é, de onde veio, e porque está aqui. Alguém deve ter esquecido. Bom...nunca gostei de ler, mesmo. Irônico, pra um filho de escritor. Não, não era só um escritor. Toda a imprensa do planeta fazia questão de dizer que ele era "Rick Carlson, o escritor mais influente da Europa do último século". Ei, espera aí...aquele livro velho...é dele. Não é um dos mais aclamados, mas é dele. É o primeiro livro de uma saga fantasiosa, cujo personagem principal era uma criança, acho. Nunca li. Mas foi uma pena ele não ter terminado a série. Ele morreu trabalhando no segundo volume. Resolvi dar uma olhada no tal livro. Estava meio velho, algumas páginas soltas, e uns rabiscos, em cada página, quase. Fui passando rapidamente as páginas, quando, de repente, li meu nome. Não era coincidência, não. Ele pôs meu nome em um personagem por alguma razão. Resolvi ler o parágrafo marcado. Era a descrição do personagem. "Thomas olhou para o homem. Seu nome era Vincent, dizia-se. Tinha feições carrancudas, sérias, e, à primeira vista, parecia um homem mau. Mas, apenas à primeira vista. Quando começou a discursar para o restante dos homens e para o menino que ali estava, iniciou com uma piada. Thomas soube que aquele homem era querido por todos, mas considerado um tanto louco. Acreditava numa civilização escondida, civilização que ele dizia ser perfeita. Que traria paz e prosperidade para quem nela habitasse. Seus camaradas riam de tal história. Mas, Thomas não. Thomas acreditava naquele homem. Pois Thomas também havia estado lá". Meu velho era louco...ou será que um sábio? De certa forma, ele viu o futuro. Narrou que aquele homem havia visitado um local mágico. Aquele homem sou eu. E estou aqui, no lugar mágico. Passei mais 3 dias trancafiado naquele quarto, dias nos quais terminei a leitura do livro. Encontrei outras mensagens ali, mas depois as escreverei aqui. Agora, devo encontrar-me com o chefe do local. Cindy, aquela loira bonita, veio me chamar. Disse-me que era urgente.

O Livro dos Enigmas - Parte 2

Acordei, com dores, muitas dores, numa cama um tanto desconfortável, dentro de um...quarto? aquilo seria um quarto? Não se parecia tanto com um. Haviam ali algumas telas, equipamentos eletrônicos esquisitos...fiquei um tempo observando tudo aquilo, tentando entender onde estava, quando uma mulher apareceu. E que mulher, que a minha não ouça. Belíssima. Loira, alta, belo corpo. Ela usava um colete branco, e veio até mim. "Bom dia, Sr. Carlson..já estávamos preocupados. O senhor dormiu por 4 dias inteiros". 4 dias? 4 dias?! Que maldito lugar é esse? Quem era aquela mulher? E quem mais estava ali? Me levantei da cama rapidamente, apesar das dores, e encarei a mulher. "Cadê o responsável por esse lugar? preciso vê-lo". "Mas, Sr. Carlson, o senhor acabou de acordar, depois de 4 dias..." "não interessa, quero vê-lo". "Não posso. Senhor, tenho ordens de manter..." "Me leve até ele AGORA", falei em tom alto. Tão alto, que fui ouvido por alguém do lado de fora da sala. Um homem adentrou o local, e começou a falar, da porta. "Cindy, saia, por favor. Deixe-me conversar a sós com o Sr. Carlson". A loira baixou a cabeça e retirou-se, sem dizer uma palavra. Após sua saída, o homem retomou a fala. "Dormiu bem, Vince?". Ele me chamou de Vince. Peraí, era o mesmo cara da van. Mike, Spike, ou sei lá qual o nome do garoto. Ele começou a rir e pôs a mão em meu ombro. "Vince, Vince...já que você está tão nervoso pra saber coisas daqui, vou te contar. Contar o que sei, pelo menos. Bom, antes de tudo, que lugar é este? Venha comigo...". Ele me conduziu até uma janela que existia naquela sala. "Está vendo as luzes na frente dessas casas? Olhe atentamente...não são lâmpadas acessas. Não. As luzes estão...sozinhas. Não existe rede elétrica aqui. A luz vem do nada. O mesmo acontece com a água, com os alimentos, com o dinheiro, Sr. Carlson...o dinheiro, literalmente, nasce em árvores, acredite. Este é o lugar perfeito. E, pasme o senhor, estamos abaixo da floresta amazônica. Sim, é uma cidade subterrânea." Ele parou de falar por um tempo, enquanto eu tentava digerir todas as informações. Achei que era uma piada, claro. Ou que estava ficando louco, o que era mais provável. Esperei ele retomar o discurso, e fiquei curioso para ver até onde a loucura daquele homem iria. Ele recomeçou. "Eu sei que você não crê em mim. Sim, eu sei. E isso é o mais incrível. Este local transforma a nós, seres humanos. Nós conquistamos habilidades especiais, com o tempo. Eu posso ler a sua mente. Mas não direi mais nada sobre esse lugar, agora. Você descobrirá, com o tempo. Agora, vamos à outra questão: Porque você, logo você, está aqui? E, mais uma vez, não posso te dizer tanto quanto gostaria, lamento. Meu chefe solicitará uma reunião com o senhor, depois. O que posso dizer é que este local é destinado apenas a membros de uma organização secreta milenar, que buscou essa cidade mágica por séculos, até encontrá-la, há dois anos. Claro que o senhor não faz parte desta organização, mas seu pai era um dos membros mais importantes. Antes de sua morte, ele deixou a ordem para que seu descendente mais próximo tivesse a oportunidade de conhecer este lugar, quando fosse descoberto. E aqui está o senhor". O rapaz sorria pra mim, e eu permanecia confuso. Tão confuso quanto há 4 dias, quando fui jogado naquela van. Ainda não entendia nada daquilo. Deveria me contentar com essa falta de informações, apesar de não gostar disso. Mike virou-se para mim, sorrindo. "Isso é tudo o que posso lhe contar, por hora. Vincent Carlson, bem vindo...bem vindo à nossa Atlântida", disse o homem dando um tapinha em meu ombro e virando para se retirar da sala.

O Livro dos Enigmas - Parte 1

Londres, dias atuais. Você aí deve estar se perguntando quem sou...E aí eu te pergunto: COMO você não sabe quem sou? Eu, Vincent Carlson, empresário da maior estrela da música atual, eu, o responsável por descobrí-la, e por descobrir tantas outras antes dela. Eu, um dos homens mais conhecidos da Grã Bretanha, junto de minha esposa e filhos. Lembrou agora? Não!? Bom, não faz mal...já faz duas semanas que não apareço em público, afinal, fui sequestrado, e provavelmente neste meio tempo houve algum casamento real, ou, na melhor das hipóteses, um assassinato real, e a imprensa só deve falar disso no momento. Bom, voltando a falar do que é mais importante, eu, foi engraçado como aconteceu. Após sair de uma reunião, saí de meu escritório e caminhava para um restaurante que havia perto. Quando, de repente, perdoe-me o clichê, uma grande e escura van estacionou perto de mim, e dela desceram dois homens encapuzados. Antes que eu pudesse entender o que se passava, um dos homens me empurrou para dentro da van. Impressionante, e estranho, o modo como ele me empurrou com facilidade e precisão para dentro da van. Supus que ele não tivesse intenção de me machucar ali, naquele momento. Claro, ele não iria querer que eu sofresse nada antes de estar oficialmente "sob tortura de sequestradores". Mas eu vi que me enganei quando bati a cabeça na porta do automóvel. Adentrei o carro, ainda bastante atordoado, e lá dentro, na minha frente, havia um homem sentado. Bom, homem não. Ele estava mais pra uma criança. Um moleque. Devia ter uns 25 anos, no máximo. Um moleque desgraçado que havia conseguido me capturar. Eu, o grande Vincent Carlson, sequestrado por um bebê cagão. Ele começou a falar, primeiro dizendo seu nome. Era Mike. Ou Spike? Não sei, não ouvi direito, não me lembro, ainda estava atordoado pela pancada. Ele começou a falar sobre um "incrível lugar melhor", para o qual iria me levar, e outras coisas, só que eu não estava prestando muita atenção. Fiquei pensando em quem poderia ter colocado alguma droga em meu café, porque aquilo não podia ser real, não podia estar acontecendo. Depois de um longo discurso sobre o tal "lugar incrível diferente de todos os outros", tomei a palavra. Resolvi entrar no jogo e perguntei porque estavam levando a mim para este tal lugar. O garoto apenas respondeu "Você saberá, Vince. Você saberá, quando chegarmos lá". Naquele momento, eu acho que dormi, ou, mais provavelmente, desmaiei. Definitivamente, colocaram algo em meu café.

domingo, 25 de setembro de 2016

Radar - Parte 7

Capítulo 12 - Fecham-se as cortinas.
 
  Tô preso, amarrado numa cama, de novo. Puta que pariu. Bom, pelo menos, essa é mais confortável. E o lugar, também, é mais agradável. Ei, eu conheço esse lugar... é a mansão do velho. Lógico. Tinha que ser. Minha vida vai acabar aqui, onde toda essa história de Radar começou. Eu vou morrer sem conseguir lembrar meu próprio nome. Morrerei pelas mãos de meu tutor e da mulher que sempre amei. Tem como piorar? Ah, tem. Quando seus executores são dois doidos de pedra, tem como piorar muito. Vieram me fazer uma "visita", o casal maldito. Apenas o idoso falava. Julie se sentou num canto, sem olhar pra mim, aparentemente nervosa. Mas poderia muito bem ser um teatro pra me enganar de novo. Ela mostrou ser uma boa atriz, nesses últimos meses. "Ah, Radar, meu garoto... sempre impulsivo. Por isso que nunca serviu. Nunca alcançou nada. Está condenado a passar o resto de seus dias ajudando velhinhas a atravessarem as ruas. E ainda se diz um herói. Coitado". "E eu sou um herói, velho. E uma pessoa melhor que você. Não preciso de poder pra ficar bem. Nada disso importa. Nunca tive, mesmo, nada disso. Não me importo de passar o resto da vida ajudando velhos, crianças, e animais. Não só eles, mas todos precisam de ajuda. E eu posso dar essa ajuda a eles. E é por isso que eu sou um herói. Porque eu faço o que muitos não fazem. Eu ajudo o próximo". Ah, agora, com certeza, emputeci a bicha velha. Ele ficou maluquinho. Dava pra ver a veia pulsante no pescoço dele, tamanha a raiva. Estava um tanto engraçado, mas, claro, perigoso. Ele se virou para Julie e ordenou em voz alta "Sonífera, carga total". Ai, caralho. Ai, caralho. Ai, caralho. Carga total. Eu sabia bem o que significava isso. Ela usaria seu poder com tanta força em mim, que me mataria rapidamente. Merda. Ela se levantou, e veio até mim. Boris a observava, de longe. Pôs um papel em minha mão, aproximou o rosto do meu e sussurrou "Leia, quando acordar. Assim que tudo isso acabar". Apaguei. Acordei no que pareceram segundos depois, com um estrondo na porta. Estavam invadindo. Meus alunos e os agentes estavam ali pra me salvar. Julie e Boris estavam "enrolados", brigando. Um tiro foi disparado. Ouvi a voz de Harris "Mãos na cabeça. Acabou, Boris". Enquanto eu me levantava, com a ajuda de Christie, vi Harris se aproximar das duas pessoas que estavam caídas, se abaixar, e puxar Boris para o alto, pelo braço. Ele não iria reagir à prisão. Meu discurso fez efeito, enfim. Julie continuava caída. Enquanto Harris retirava Boris algemado daquela sala, me aproximei. Havia uma poça de sangue perto da cabeça. O tiro que ouvi deve tê-la acertado. Julie estava morta. "Sinto muito", Christie disse, tentando me consolar. Mas não surtiu efeito algum, admito. Enquanto era levado para fora daquela mansão, me lembrei do momento antes de ter apagado. O papel que Julie me entregou. Ainda estava na minha mão. Abri-o calmamente, e comecei a ler. "Provavelmente, estou morta agora. Eu sabia que esse momento ia chegar. Acompanhei todos os passos da montagem e execução dos planos de Boris. Mas eu não queria. Juro, eu não queria. Mas o governo me fez voltar. E você não devia saber. Além de um plano de Boris, também foi um plano do governo, deixar chegar a esse ponto. Deixar que você fosse capturado. Naquele dia, na prefeitura, eu fiquei não só por Boris, mas também por eles. Como eu havia os informado que você tinha sido um aprendiz do velho, eles pensaram que ele iria querer te encontrar. E foi justamente o que aconteceu. Eu sei, fui burra, de me meter nisso, que pode dar errado, mas eu tinha que obedecer ordens. Os agentes invadirão a mansão esta tarde, e recebi ordens de efetuar um ataque direto ao velho. Devo morrer. E talvez seja em vão. Talvez ele fuja. De qualquer forma, nunca poderemos ficar juntos. Mas continue fazendo o que faz de melhor, Radar. Continue salvando vidas, se puder. Eu apenas espero que ainda confie em mim o mínimo, para que não dispense esta carta. Para que possa me entender. Adeus".

Dois anos depois...

  "O maior criminoso do país, Boris, acaba de morrer na prisão", informa a apresentadora do telejornal. E eu?, vocês se perguntam. Bom, eu... eu estou... bem. Abandonei aquele bando de filhos da puta do governo, e voltei à minha cidade. Claro, agora conto com ajudantes. Peguei uns 10 daquela molecada pra trabalharem comigo. Bons garotos, bons garotos. Continuo salvando gatinhos e ajudando velhinhas, sim. Mas e daí? Não importa se é uma secretária ou o Bill Gates, a vítima, contanto que ela saia com vida, contanto que eu consiga ajudá-la. Um herói não escolhe quem vai ajudar. Um herói de verdade apenas ajuda o próximo, sem se importar se vai ganhar algo com isso ou não.

Radar - Parte 6

Capítulo 10 - Quase lá

  Dois meses se passaram, e o babaca aqui ainda tá de babá. Que merda. Não aguento mais isso. Preso com montes de adolescentes retardados (não que eu não seja um retardado também, mas... enfim, vocês me entenderam. Eu acho). Mas, pelo menos, Julie faz uma visitinha de vez em quando. Ela só chega, me informa sobre as investigações e vai embora, mas é bom, mesmo assim. Ah, pros que, assim como eu, já cansaram desses "X- Men sem recursos", e querem saber daquele velho sacana lá, um de seus "soldados" (além daquele que foi espancado pela loirinha) foi preso e interrogado. Infelizmente, o cara era gago, então foi complicado de arrancar informações, mas agora sabemos que Boris e seu grupinho de seres malignos planejam um "gran-grande a-ta-ta-ataque" à prefeitura da cidade. Aliás, estava eu pensando aqui... porque é sempre na minha cidade que dá merda? Porque o Boris, sei lá, não tenta dominar o resto do mundo? Idiota... Pensa pequeno demais, esse camarada. Enfim, com a notícia desse ataque, veio a recomendação, por parte do governo, de intensificar os treinamentos. E quem sou eu pra discordar, quando algo realmente importante está muito perto de acontecer, e eu tenho a chance de fazer parte disso?

Capítulo 11 - Agora vai. Ou não.
 
  Maravilha. Finalmente, Boris seria derrotado. Não nego que estou animado com isso, aqui, agora que estou há minutos de encontrar o velhote aqui, no gabinete do prefeito. Vão invadir, ele vai vir pra cá, e se auto denominará o novo prefeito da cidade. É óbvio. Opa, peraí, um clarão na janela.. Merda. Explosão no centro da cidade. Merda dupla. É a multinacional pegando fogo. Preciso salvar aquelas pessoas. Mas não vou conseguir sozinho. Preciso levar meus amiguinhos super poderosos e os agentes, junto. O moleque do teletransporte nos levou a todos para perto de lá. Mas, e agora, como entrar? Merda tripla. Algumas pessoas, as mais desesperadas, começam a se jogar dos mais altos andares. Morte certa. O velho sabia que estávamos na sua cola e mandou o gaguinho falar do ataque à prefeitura de propósito. Maldito. Julie... cadê ela? Porque não tá aqui auxiliando no resgate? Será que ficou na prefeitura? Vou voltar lá, trazê-la pra ajudar. Ah, ótimo. O velho explodiu a empresa E invadiu a prefeitura. Filho da puta. E, como eu disse anteriormente, era óbvio. Óbvio, que ele estaria no gabinete do prefeito. E.. com a Julie sob a mira de uma arma. "Radar, que surpresa agradável... como vai, garoto? salvando muitos gatinhos em árvores?", disse Boris, rindo, ao me ver. "Solta ela, velho. Que merda é essa?". O velho continuou me encarando, sem dizer nada, mas soltou Julie. Um tempo depois, começou a falar. "Ora... o que você acha? Quero poder, claro. Poder, e reconhecimento. Aquilo que você não tem, sabe? Mas sabia que nunca ia conseguir isso sozinho. Por isso, dediquei grande parte da minha vida a recrutar e treinar jovens com habilidades especiais, pra me ajudarem a alcançar meus objetivos" "Ah, então foi pra isso que você me treinou durante anos? Dominar o mundo? Matar pessoas inocentes? Pois saiba que eu nunca faria parte disso" "Realmente, nunca. Eu que dispensei você, esqueceu? Você era fraco, ridículo, inútil. Aliás... ainda é". "E você acha que é melhor que eu, velho? Você nunca vai conseguir nada. Você é um merda". Ah, com certeza, deixei ele maluquinho com essa. Ah, merda, merda, merda... Revólver apontado pra mim. E agora? Não posso correr, pra não deixar a Julie morrer, mas, se eu ficar, eu morro. Depois, ela morre. Merda, o que eu faço? Ufa, o velho abaixou a arma, mas esse sorrisinho dele, não é coisa boa... "Sonífera, já sabe o que fazer". Julie começou a se aproximar de mim. Calma, tranquila, nem parecia que estava pra morrer há 10 minutos. Conforme ela se aproximava, tirava uma das luvas. Ah, não, Ah, não, de novo? Mesmo?! Julie pôs a mão despida da luva em meu rosto. Apaguei.

Radar - Parte 5

Capítulo 8 - Treinar pra quê?

  Um mês nunca demorou tanto pra passar... um mês de volta aos gatos gordos nos topos das árvores, como tem sido nos últimos anos, até poder enfim fazer parte de algo importante. Quem sabe eu ajudo a salvar o mundo... Ha, bela piada. É mais provável que eu morra no meio disso. Mas não antes de tentar matar o velho. Se eu morrer pelas mãos de um dos "soldados", não mereço a capa que visto. Na verdade, nunca a mereci, mas isso é um detalhe. Eu vou encontrar esse velho, saber qual é a desse filho da puta. Só me ferrou, esse coroa. Vou me vingar, nem que seja só um pouquinho. E.. olha só, o tal mÊs já passou, e eu estou atrasado. Preciso chegar logo na prefeitura. Ih, olha lá.. a turma toda. O ruivo, o ninja, a bonitinha, o prefeito, um outro cara que eu não conheço... e a Julie. Não nos encontramos mais depois daquele dia na fábrica, e, aparentemente, eu estava certo. Estava certo sobre estar errado. Era só uma jogada, pra me fazer colaborar. Ah, dane-se. O que é um peido, pra quem já tá todo borrado, não? O cara que eu não conheço já veio apertando minha mão, e se apresentando. Agente Harris, o nome dele. Legal, um agente secreto, tipo James Bond, trabalhando comigo. Ou talvez até para mim. Bom... não. Ao que parece, eu vou trabalhar pra ele. Merda. Fui com o Bond de araque até uma outra sala, onde ele me explicou exatamente o que havia acontecido e o que estava para acontecer, e deixamos os outros fazendo sabe-se lá o quê. "Radar, meu bom homem... creio que Sonífera já o tenha informado da situação, mas não há mal nenhum em reforçar, e acrescentar certas coisas. Terríveis, crimes terríveis nesta cidade... e a mente por trás de tudo isso? Acreditamos que seja seu mentor, Boris. E é por isso que você está aqui. Você o conhece, conviveu com ele durante anos, pode nos fornecer preciosas informações..." Dizia o homem, já na outra sala. Devia ter um vazamento em algum lugar, porque havia uma poça enorme na porta. Talvez o prefeito deva investir mais em sua própria limpeza. "... Sabemos também de sua ligação com uma de nossas melhores funcionárias, e instrutora, Sonífera, e, sem querer ofender, foi mais fácil do que imaginávamos, te convencer a trabalhar conosco". Harris riu e deu um tapinha nas minhas costas. Ele me chamou de idiota e logo depois agiu como se fôssemos amigos? Fui para o País das Maravilhas, e esqueceram de me avisar. Ou eu só bebi demais, não sei. Mas, se isso foi uma tentativa de me deixar mais "acostumado" com isso tudo, me chamar de idiota não foi uma boa. "Bom, vamos ao que interessa, por hoje. Queremos que você se torne um instrutor, junto com sua velha amiga. Temos mais alguns jovens que precisam de... disciplina. E, você, com toda sua experiência..." O cara tá me zoando de novo, só po... Merda, fui atingido, não sei porque. Só sei que a pancada no chão doeu. Me levantei com certa dificuldade, e olhei pra trás. Tinha um cara caído, com um pé na sua cabeça, chutando. Que merda era aquilo? Aquela menina loira bonitinha, a Christie, batendo no cara. Mas... como ela entrou aqui? Ah, claro, a poça. Como sou idiota... Harris olhava a cena igualmente surpreso. "Tem certeza de que vocês precisam da minha ajuda?", perguntei.

Capítulo 9 - Babá Bem Babaca
 
  É, eu preciso treinar os pirralhos, no fim das contas. Pelo menos, "eu sou o melhor pra função", segundo o Bond Fake. E quem sou eu pra discordar dum cara que (talvez) tenha licença pra matar? E, além disso, não é todo dia que eu sou "o melhor" pra fazer algo. Então, vou ficar quietinho e aceitar a parada. Vocês conhecem o "Instituto Xavier", dos quadrinhos dos X-Men? Então.. meu trabalho é dar conta da versão "escola pública" dele. Onde eu fui me meter? Eu não sirvo pra ser babá (Babaca talvez, mas babá não). Insuportável, aquele bando de adolescentes, com os hormônios explodindo. As meninas todas se derretendo pelo "bonitinho da turma" e os moleques pensando menos com a cabeça de cima e mais com a de baixo. Mas até que existiam uns menos insuportáveis ali. O ninja, o ruivo e a gostosinha, por exemplo. Boas crianças, boas crianças. Não à toa, são a equipe da Julie. Um outro, um moleque grandalhão que vivia repetindo "destruir, destruir", também tinha lá seu "charme". No fundo, bem no fundo. Precisava de alguns pequenos cuidados, às vezes. Até aprendi a gostar de alguns outros, depois de um mês dividindo a moradia com eles, num prédio gigantesco na cidade vizinha à minha. Claro, eu não podia deixar "meu povo" desprotegido. Ainda mais com o velho alucinado à solta. Polícia reforçada, alguns soldados do exército... tava bonito, o negócio. (Certa noite, levei alguns de meus alunos pra me ajudarem num chamado que não consegui evitar, mas, por favor, peço que não contem nada, ok?). Infelizmente, todo esse reforço não ajudou muita coisa e duas outras meninas foram mortas, de formas horrendas. Queria partir pra ação logo, mas, sem informações do paradeiro do velho, vai ser difícil. Vou ter que esperar o serviço secreto adiantar esse lado. Merda. Até quando vou ficar aqui nesse lugar brincando de cuidar dessa pirralhada toda?

Radar - Parte 4

Capítulo 6 - Devaneios e explicações. Ou não.

  Depois que acordei, obviamente, estava eu, preso, com os braços e pernas amarrados, deitado numa cama dura, horrenda. Fiquei pensando se, nesse meio tempo, não tivessem aparecido aliens e me levado pra outro lugar. Ou talvez Julie e os três jovens patetas fossem os aliens, disfarçados de humanos. Às vezes me espanto comigo mesmo, com essas minhas ideias absurdas. Depois duns 5 minutos, enquanto eu ainda "viajava", Julie apareceu. "Desculpe por isso aí. Ordens da chefia", ela chegou dizendo. Ah, ótimo. Mafiosos zumbis que devorarão meus órgãos se eu não colaborar (E lá vou eu endoidar de novo...). Ela se sentou do lado da cama onde eu estava, e voltou a falar. "Bom... você quer respostas, não é? Então, vou dá-las a você. Lembra daquela noite, a última noite? Pois então.. Eu... fui sequestrada. Homens num carro grande chegaram onde estávamos, um deles, não sei como, conseguiu fazer com que eu não emitisse nenhum som, e me levaram pra dentro do tal carro. Lá, me amarraram, e viajamos por horas, até chegarmos numa mansão gigantesca. Me arrastaram pra dentro, e fui apresentada a um homem. Velho. Elegante, mas velho. Usava uma bengala, mas não parecia ter problemas de coluna. Seu nome era..." Boris, claro. O velho desgraçado tinha sequestrado a Julie... maldito. Fiquei tão puto que quase não ouvi o que ela continuava dizendo "Ele disse que iria me treinar. Disse que eu salvaria o mundo, com meus poderes, se treinasse bastante. Claro, eu não queria. Mas fui feita prisioneira. E, durante 5 anos, fiquei naquela mansão, sendo forçada a bater em criancinhas, para supostamente melhorar minhas habilidades de luta, e apanhar de grandalhões, quando me recusava a fazer isso. Foram os piores 5 anos da minha vida. Até que consegui fugir. Fiquei por aí, nas cidades vizinhas, apenas querendo voltar. Mas não podia. Eles podiam ter pego você, também. Eu nem sabia se estava vivo. E, há 3 anos, fui contratada pelo governo, pra treinar aqueles jovens, aqueles, que te receberam aqui hoje. Eles insistem que você pode nos ajudar. Acham que o velho tem a ver com tudo isso, e que você o conheceu. Mas isso não importa, agora. É tão bom te ver..." Julie se levantou, retirou o que prendia minhas mãos, e se atirou sobre mim. "Eu não quero te perder mais, Radar", ela disse, por fim, abraçada a mim.

Capítulo 7 - Especulações de uma mente insana

  Ah, ótimo, não? Me convidam prum lugar bizarro, me amarram e depois dizem "fizemos isso pra que você concordasse em nos ajudar". Eles precisam rever seus métodos. Um jantar teria mais efeito. Agora vocês pensam "Ah, Radar não vai ajudar o governo". Só que vocês estão errados. É, a besta aqui vai ajudar o governo. E porquê? Ah, vão dizer que não sabem? Mesmo? Por causa dela, claro. Eu gosto dela, caso alguém ainda não tenha notado (Será que existe alguém tão lerdo assim?). E, claro, eu acreditei em tudo o que ela disse. Posso estar errado? Claro. Não seria surpresa nenhuma. Mas também posso estar certo, não é? Foi bom encontrá-la depois de todos esses anos. "Ah, mas que cara idiota, acreditando cegamente na paixonite adolescente". É, e daí? Vão dizer que ninguém foi idiota uma vez na vida? Essa é a minha vez, ué. Vez que tá durando uns 20 anos, por aí, mas deixa pra lá. Ah, eu nem contei ainda a vocês o que aconteceu depois da conversa com a Julie. Ela me apagou de novo. É, idiota, eu. Acordei na minha cama, no barraco que chamo de "casa". Já disse a vocÊs que a vida de super herói não é tão incrível assim. Então, crianças, pensem bem antes de se jogarem em raios Gama ou coisa parecida. Até porque vocÊs podem acabar morrendo. Enfim, retornando ao que aconteceu... tinha um bilhete do meu lado, marcando um outro encontro, agora com o "alto escalão" da bagaça, em um mês. Até lá, eu, maluco que sou, vou ficar especulando, ajudando essa população ridícula dessa cidade fétida, e fugindo da morte, como sempre... Ô, merda.