"Vou levar
isso comigo", disse Lucy, sobre um dos meus cadernos. Não
protestei. Se eu tentasse tirar o caderno das mãos dela,
provavelmente perderia as minhas. O contador voltou ao 2. Descemos
até meu carro, em silêncio. Lucy concentrada em meu caderno e eu
apenas aguardando o momento da explosão. Quando eu estava prestes a
dar a partida no meu singelo automóvel... Boom. "Você tá
brincando comigo, né?!" "Não. É isso aí mesmo que você
leu. E é só o começo" "Você espera mesmo que eu
acredite que a explosão de hoje, a tentativa de assassinato, foi
motivada por.." "Claro que não. Lucy, eu posso ser um
grande idiota, mas até grandes idiotas têm limites. Você ainda não
viu nada. Mas, sim, tenho razões para crer que esse foi o pontapé
incial" "Ainda não entendo como uma briga por mulher nos
tempos de exército poderia motivar uma tentativa de assassinato..."
"Você não sabe como funciona a cabeça de um homem apaixonado"
"Não sei, mas conheço um há anos, desde os tempos da
faculdade. E o que eu conheço não mataria uma mosca" "Moscas
são muito rápidas" Ambos rimos, por um tempo. "E como
está... Você sabe" "Tá tudo bem. Mas a vontade de
espancar aquele riquinho ainda não passou, se quer saber. Não estão
me deixando ver as crianças" "Pete... Você e Lily
discutiram feio na frente delas, mais de uma vez. E é óbvio que,
como ela está com as crianças, está fazendo as cabeças delas
contra você. Você precisa tentar superar isso se quiser ver suas
filhas de novo" Eu teria ficado bravo com Lucy, se isso não
fosse verdade. E se eu conseguisse ficar bravo com ela. Balancei
afirmativamente a cabeça, apenas, sem olhar em sua direção. Após
alguns minutos de desconfortável silêncio, retomei a fala. "Reza
a lenda de que a mulher, essa disputada por Scottfield e pelo
prefeito, teve uma criança. E até hoje ninguém sabe quem é o pai.
E nem se a criança ainda está viva" "Você não trabalha
num jornalzinho qualquer, Pete. Fale como um jornalista sério"
"Mas é sério! Continue lendo, e entenderá o porquê de eu ter
tocado nesse assunto" Na verdade, eu só tentei amenizar o clima
e tirar o foco da conversa de cima de mim. Lucy retornou à leitura,
enquanto eu dirigia tentando chegar na delegacia. Nunca vi uma cidade
com o trânsito tão ruim. "Nããão.. Isso não pode ser
verdade". Soltei uma risada, mesmo sem saber exatamente do que
ela falava. Era engraçado já saber de algo que Lucy não sabia, pra
variar um pouco. "A mulher era uma prostituta da cidade?!"
"Exato. E trabalhava para o pai de Charles, que assumiu
temporariamente os negócios depois da morte do pai. Quase ninguém
sabia, na época, que os Scottfield, os já naquela época grandes da
indústria bélica, gerenciavam a prostituição e o tráfico de
drogas da região. Infelizmente para eles, um político em início de
carreira, cliente dos serviços alternativos dos Scottfield, resolveu
criar um projeto para fechar os bordéis da cidade. Deu certo, foram
todos lacrados, e as pobres moças ficaram sem seus empregos. Entre
elas, a nossa misteriosa pivô da merda, que desapareceu,
aparentemente carregando uma criança em seu ventre. Aquele político
em início de carreira foi subindo de função, até chegar
recentemente na posição de querido prefeito, enquanto as Indústrias
Scottfield continuavam a crescer mais e mais, claro, com a ajuda de
sua divisão de tráfico, e cá estamos nós, nos dirigindo à
delegacia para acompanhar o interrogatório do bêbado, matador de
velhinhas e rico Charles Scottfield. Tentar fechar o quebra cabeça,
provar o que falta ser provado e limpar a cidade de uma vez". E
eu mal imaginava que estava terrivelmente enganado.
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