domingo, 25 de setembro de 2016

Furo de Reportagem - Parte 4

 "Vou levar isso comigo", disse Lucy, sobre um dos meus cadernos. Não protestei. Se eu tentasse tirar o caderno das mãos dela, provavelmente perderia as minhas. O contador voltou ao 2. Descemos até meu carro, em silêncio. Lucy concentrada em meu caderno e eu apenas aguardando o momento da explosão. Quando eu estava prestes a dar a partida no meu singelo automóvel... Boom. "Você tá brincando comigo, né?!" "Não. É isso aí mesmo que você leu. E é só o começo" "Você espera mesmo que eu acredite que a explosão de hoje, a tentativa de assassinato, foi motivada por.." "Claro que não. Lucy, eu posso ser um grande idiota, mas até grandes idiotas têm limites. Você ainda não viu nada. Mas, sim, tenho razões para crer que esse foi o pontapé incial" "Ainda não entendo como uma briga por mulher nos tempos de exército poderia motivar uma tentativa de assassinato..." "Você não sabe como funciona a cabeça de um homem apaixonado" "Não sei, mas conheço um há anos, desde os tempos da faculdade. E o que eu conheço não mataria uma mosca" "Moscas são muito rápidas" Ambos rimos, por um tempo. "E como está... Você sabe" "Tá tudo bem. Mas a vontade de espancar aquele riquinho ainda não passou, se quer saber. Não estão me deixando ver as crianças" "Pete... Você e Lily discutiram feio na frente delas, mais de uma vez. E é óbvio que, como ela está com as crianças, está fazendo as cabeças delas contra você. Você precisa tentar superar isso se quiser ver suas filhas de novo" Eu teria ficado bravo com Lucy, se isso não fosse verdade. E se eu conseguisse ficar bravo com ela. Balancei afirmativamente a cabeça, apenas, sem olhar em sua direção. Após alguns minutos de desconfortável silêncio, retomei a fala. "Reza a lenda de que a mulher, essa disputada por Scottfield e pelo prefeito, teve uma criança. E até hoje ninguém sabe quem é o pai. E nem se a criança ainda está viva" "Você não trabalha num jornalzinho qualquer, Pete. Fale como um jornalista sério" "Mas é sério! Continue lendo, e entenderá o porquê de eu ter tocado nesse assunto" Na verdade, eu só tentei amenizar o clima e tirar o foco da conversa de cima de mim. Lucy retornou à leitura, enquanto eu dirigia tentando chegar na delegacia. Nunca vi uma cidade com o trânsito tão ruim. "Nããão.. Isso não pode ser verdade". Soltei uma risada, mesmo sem saber exatamente do que ela falava. Era engraçado já saber de algo que Lucy não sabia, pra variar um pouco. "A mulher era uma prostituta da cidade?!" "Exato. E trabalhava para o pai de Charles, que assumiu temporariamente os negócios depois da morte do pai. Quase ninguém sabia, na época, que os Scottfield, os já naquela época grandes da indústria bélica, gerenciavam a prostituição e o tráfico de drogas da região. Infelizmente para eles, um político em início de carreira, cliente dos serviços alternativos dos Scottfield, resolveu criar um projeto para fechar os bordéis da cidade. Deu certo, foram todos lacrados, e as pobres moças ficaram sem seus empregos. Entre elas, a nossa misteriosa pivô da merda, que desapareceu, aparentemente carregando uma criança em seu ventre. Aquele político em início de carreira foi subindo de função, até chegar recentemente na posição de querido prefeito, enquanto as Indústrias Scottfield continuavam a crescer mais e mais, claro, com a ajuda de sua divisão de tráfico, e cá estamos nós, nos dirigindo à delegacia para acompanhar o interrogatório do bêbado, matador de velhinhas e rico Charles Scottfield. Tentar fechar o quebra cabeça, provar o que falta ser provado e limpar a cidade de uma vez". E eu mal imaginava que estava terrivelmente enganado.

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