Dos males, o menor. Dei
sorte dela não ter sacado. 'Crânio' do jeito que ela é, a verdade
não ter passado pela sua cabeça foi um milagre. Não que seja fácil
associar a imagem de um nerdzinho anti social do colégio com a de um
pirado fantasiado noturno, mas, sei lá, se existe gente que
descobriu a identidade do Batman... Aliás, foi engraçado, como tudo
começou. Mentira, não foi. Nem engraçado, nem no mínimo curioso.
Foi bem besta. E continua sendo. Brincadeira de criança desocupada,
é claro. Enquanto a maioria das crianças de 12, 13 anos, estava
fazendo coisas normais de crianças dessa idade, eu e meus amigos -
Sim, eu os tinha, por incrível que pareça - brincávamos de heróis.
Eu sei, eu sei, alguns vão dizer que isso era comum, principalmente
para meninos que foram alfabetizados com histórias em quadrinhos.
Mas, não, não era comum. Mentira, era sim, no começo. Mas depois a
merda foi ficando um pouco mais séria. Tanto que, depois de um
tempo, um dos moleques mais velhos, na época com uns 15, 16 anos,
resolveu tentar impedir um assalto a uma velhinha. Resultado: Tiro na
cabeça. Morte instantânea. A velhinha também morreu. Moleque
imbecil. O ocorrido mobilizou todo o país, trazendo à tona, pela
milésima vez, a discussão sobre a influência negativa dos meios de
entretenimento nas jovens mentes do país. Ok, é um tanto verdade,
mas não se pode generalizar. Lenny era meio idiota. Assim como eu, o
único da 'turminha' a continuar com aquela brincadeira. Fiquei meio
obcecado. Comecei a treinar artes marciais - todas as que pude, ao
mesmo tempo -, a realmente me preparar, pra tentar seguir os passos
de Lenny. Bom, seguir até o penúltimo. Tiro na cabeça não é
muito minha praia. Foi então que comecei minhas aventuras noturnas,
uns 3 meses atrás, enfim. Como dito anteriormente, sou um cagão e
ainda não cheguei a tentar impedir crimes pesados, mas já ajudei
algumas pessoas, encontrei outras que fazem o mesmo que eu, também.
E então veio Alice. A 'crânio' da classe. Do colégio. Da cidade.
Campeã de um concurso intelectual da televisão, dois anos
adiantada... E tão anti social quanto eu. Com a diferença de que
ela tenta não ser, o que a deixa com um jeito de pessoa chata. Ou
talvez ela seja só chata, mesmo. Grande ideia da gênia professora
de química, nos juntar no projeto, aliás. Com um sistema
educacional que permite professores assim, não é de se espantar que
a escola seja o lugar mais odiado pela população adolescente.
Enfim, onde é que eu estava mesmo? Ah... Sim, Alice. Nunca havia
trocado uma palavra sequer com ela, até hoje mais cedo, enquanto
discutíamos o maldito projeto. Ou melhor, enquanto ela dizia algo
que não entendia e eu sacudia a cabeça, concordando. Quanto menos
discussão, mais rápido de lá eu sairia. Mas, como vocês já
sabem, tive que voltar. Preciso tomar cuidado a partir de agora.
Muito cuidado. Não é só minha identidade secreta que está em risco.
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