segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Linhas Paralelas - Parte 2

Dos males, o menor. Dei sorte dela não ter sacado. 'Crânio' do jeito que ela é, a verdade não ter passado pela sua cabeça foi um milagre. Não que seja fácil associar a imagem de um nerdzinho anti social do colégio com a de um pirado fantasiado noturno, mas, sei lá, se existe gente que descobriu a identidade do Batman... Aliás, foi engraçado, como tudo começou. Mentira, não foi. Nem engraçado, nem no mínimo curioso. Foi bem besta. E continua sendo. Brincadeira de criança desocupada, é claro. Enquanto a maioria das crianças de 12, 13 anos, estava fazendo coisas normais de crianças dessa idade, eu e meus amigos - Sim, eu os tinha, por incrível que pareça - brincávamos de heróis. Eu sei, eu sei, alguns vão dizer que isso era comum, principalmente para meninos que foram alfabetizados com histórias em quadrinhos. Mas, não, não era comum. Mentira, era sim, no começo. Mas depois a merda foi ficando um pouco mais séria. Tanto que, depois de um tempo, um dos moleques mais velhos, na época com uns 15, 16 anos, resolveu tentar impedir um assalto a uma velhinha. Resultado: Tiro na cabeça. Morte instantânea. A velhinha também morreu. Moleque imbecil. O ocorrido mobilizou todo o país, trazendo à tona, pela milésima vez, a discussão sobre a influência negativa dos meios de entretenimento nas jovens mentes do país. Ok, é um tanto verdade, mas não se pode generalizar. Lenny era meio idiota. Assim como eu, o único da 'turminha' a continuar com aquela brincadeira. Fiquei meio obcecado. Comecei a treinar artes marciais - todas as que pude, ao mesmo tempo -, a realmente me preparar, pra tentar seguir os passos de Lenny. Bom, seguir até o penúltimo. Tiro na cabeça não é muito minha praia. Foi então que comecei minhas aventuras noturnas, uns 3 meses atrás, enfim. Como dito anteriormente, sou um cagão e ainda não cheguei a tentar impedir crimes pesados, mas já ajudei algumas pessoas, encontrei outras que fazem o mesmo que eu, também. E então veio Alice. A 'crânio' da classe. Do colégio. Da cidade. Campeã de um concurso intelectual da televisão, dois anos adiantada... E tão anti social quanto eu. Com a diferença de que ela tenta não ser, o que a deixa com um jeito de pessoa chata. Ou talvez ela seja só chata, mesmo. Grande ideia da gênia professora de química, nos juntar no projeto, aliás. Com um sistema educacional que permite professores assim, não é de se espantar que a escola seja o lugar mais odiado pela população adolescente. Enfim, onde é que eu estava mesmo? Ah... Sim, Alice. Nunca havia trocado uma palavra sequer com ela, até hoje mais cedo, enquanto discutíamos o maldito projeto. Ou melhor, enquanto ela dizia algo que não entendia e eu sacudia a cabeça, concordando. Quanto menos discussão, mais rápido de lá eu sairia. Mas, como vocês já sabem, tive que voltar. Preciso tomar cuidado a partir de agora. Muito cuidado. Não é só minha identidade secreta que está em risco.

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