segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Relógio - Parte 1

"Roxanne, abre essa merda dessa porta!", gritava. Toda manhã, é a mesma coisa. Eu acordo, quase sempre atrasado, precisando sair de casa logo, e ela tá lá, trancada no banheiro. Já são quase 3 anos nisso, e eu continuo tendo que reclamar. Admito que, nessa altura do campeonato, só faço isso pra irritá-la. E ainda funciona. "Você podia experimentar acordar mais cedo qualquer dia desses, babaca" Apesar do "babaca", ela saiu do banheiro sorrindo. Ela sabia que eu ia sorrir de volta. Mas eu sei que ela me acha um babaca, mesmo. Também me acho. "Bom dia pra você também". Tomei um soco pelo sarcasmo. Eu sempre levei socos por sarcasmo matinal. "Cacete, eu só disse bom dia!", eu disse, meio reclamando, meio rindo. Recebi um breve abraço e Roxanne liberou a porta do banheiro. Finalmente. Merda, tenho 15 minutos pra tomar banho, me vestir, descer quatro andares, atravessar a rua até o prédio do outro lado e subir três andares até a minha sala de aula. Acho que vou precisar correr um pouco. Só um pouco. Depois de uma - muito breve - ducha, saí do banheiro, aos tropeços, enquanto ajeitava meus tênis e tentava escovar meus dentes ao mesmo tempo. Se eu faltar a essa aula, perco o semestre. É sério. Roxanne estava de volta à sua cama, com algum livro qualquer em mãos, e havia voltado a vestir seu pijama. Mas, se ela não tem compromisso algum agora de manhã, então por qual razão... Ah, foda-se. Mais tarde me resolvo com ela. Catei minha mochila que estava jogada no chão e saí daquele cubículo que chamam de dormitório. Bom, pelo menos tem um banheiro e uma minicozinha - esta ao lado das camas, mas tudo bem. Elevador lerdo ou escada cheia de gente? elevador ou escada? elevador ou esc... Escada. Nada como derrubar meia dúzia de pessoas escada abaixo pra melhorar o humor. Bom, eu teria que ser forte pra isso, mas... "Marcus, essa é minha!", ouvi. Olhei pra trás, e lá estava Roxanne, saindo do dormitório, com algo em mãos. Olhei para o que estava em minhas costas e percebi que o que eu segurava era... Rosa. Legal, esqueci de colocar os óculos. Rapidamente trocamos as mochilas e eu finalmente pus os óculos, também graças a Roxanne. "Volto pro almoço", eu disse, antes de me virar novamente para a escada e fazer meu caminho até a saída, mais apressado do que antes. Se eu chegar um mísero segundo atrasado, o Professor Campbell, aquele grande filho duma puta mal paga, não vai me deixar entrar. Aconteceu a mesma coisa no último semestre. Velho escroto. Me odeia sem razão. Não que eu não o odeie de volta, mas eu tenho motivo, certo? Acho que torna a situação menos pior, ou sei lá. Legal, o sinal de trânsito tá com defeito. Não fica vermelho de jeito nenhum. CACETE, PRECISO ATRAVESSAR SÓ UMA MALDITA RUA! Bom, tecnicamente são duas, mas elas estão indo pro mesmo lado e estão uma ao lado da outra, então... É o mesmo semáforo. E ainda não saiu do verde. Puta que pariu, isso tá parecendo uma obra de ficção qualquer. É o sinal mais demorado que já existiu na face da Terra. Ufa, fechou e ainda tenho tempo de sobra pra atravessar e subir os 3 andares restantes. Esfregar na cara daquele velho que ele não vai conseguir me reprovar duas vezes. Ele tem medo de mim. Sabe que, quando eu me formar, não vai demorar pra que eu pegue o lugar dele no jornal da cidade. Todos os professores já previram isso. Eu vou tirar o velho Campbell do comando da imprensa da cidade. E, bom, eu avisei que eu era meio babaca, não avisei? Ah, ótimo. O campus inteiro resolveu encher as escadas do maldito prédio no qual eu preciso estar, e aqui não tem elevador. Lá se vai mais uma sessão de empurra-empurra. 1 minuto. 59 segundos. 58, 57, 56, 55, 54... Cheguei na porta da sala. O restante dos alunos já estava lá, mas a porta ainda tava aberta. Nada do velho ainda. Eu parecia recém saído duma maratona, quando na verdade só atravessei a rua. Ok, foi a "travessia de rua" mais longa da história da humanidade, mas foi só isso, uma rua. Bom, duas. Me sentei no único lugar disponível, logo na primeira fileira. Ótimo, a decepção estampada na cara do velho quando ele me encontrar aqui, e eu não vou perder. HAHA! Se passaram dois minutos, e nada do Campbell. Estranho. Ele nunca se atrasou. Até brincavam que o velho morava ali naquela sala. Ali, da primeira fileira, notei uma sombra se aproximando. Provavelmente era ele. Será que ele ia receber bem uma brincadeira sobre o atraso? Difícil. E, sim, era o Campbell. Olhei diretamente nos olhos do velho, e ele retribuiu o olhar. Iniciei um pequeno sorriso, mas, naquele mesmo instante, ouviu-se um estouro, e o velho caiu pra frente, dentro da sala. Um tiro. Direto na cabeça. Merda. Puta merda.

Correria. Muita correria. Não é pra menos, porra, um dos professores ilustres - apesar de ser um imbecil -, assassinado dentro da universidade, na frente de uma de suas turmas. Todo mundo se desesperou. Até eu. Todo mundo tentou correr pra longe. Menos eu. Eu não conseguia me mover. O choque foi grande demais. Felizmente, fui transportado de volta ao mundo real quando senti alguém me puxar, e gritar no meu ouvido "Você é imbecil?! Quer morrer aqui dentro?!" Logo em seguida, me dei conta de que já não estava mais dentro da sala. Atrás de mim, embora eu não tivesse a coragem de olhar, estava o corpo de Campbell jogado no chão. Sendo movido pra todos os lados, com as pessoas desesperadas pisando em cima dele. Eu pisei, também, com certeza. Mas não consigo me lembrar. E... Bem, nunca achei que eu fosse passar por cima do velho assim, de forma tão literal. Fui guiado até a saída do prédio por aquela mão com a voz irritada. Bom, é claro que não era só uma mão. Era um dos meus colegas de classe, e namorado ou sei lá o quê de Roxanne, um tal de Patrick. Nada contra o cara, mas... Hmm... Também nada a favor. À medida em que descíamos, mais tiros foram ouvidos, dos outros andares. Mas não importava. Naquele momento, não importava. Eu só tinha que sair dali. Felizmente, o "semáforo mais demorado de todos os tempos" tinha voltado ao normal, e atravessei de volta ao prédio dos dormitórios, sozinho. Patrick me soltou e não vi para onde ele foi. Foi um inferno pra passar pela portaria. Todos os alunos que tinham ficado por lá agora estavam na calçada, observando a movimentação do prédio da frente. Ouvi alguns carros da polícia chegando, mas aqueles não iriam resolver nada. Nenhuma "polícia de campus" resolve problemas de verdade. Roxanne estava no quarto, observando tudo pela janela. Quando cheguei, logo se virou pra mim "Que merda tá acontecendo? Você... Você tá bem?" "... Tô, tô... Só.... Mataram o velho" "Como é? Que velho?" "Campbell... Mataram o Campbell. Na minha frente. Eu vi. Todo mundo viu" "O QUÊ?! Puta merda... Você viu quem foi? Daqui deu pra ouvir tudo, vários tiros... Cacete... Você viu alguém entrando no prédio? E se tiver alguém NESSE prédio agora? Puta que pariu, Marcus..." "Ãh... Acho que isso é tudo o que eu tenho pra contar. E vá à merda, garota. Se um de nós tomar um tiro aqui dentro, eu te mato" "Mataram o velho... Você tem certeza de que não sabe de nada disso? Certeza absoluta?" "Como eu ia saber de algo, Roxanne?... Ah, não, sério, você não tá pensando..." "Sei lá, cara, sei lá! Foi só uma ideia, desculpa. É claro que eu sei que você não tem participação nisso. Você passa o dia aqui dentro, eu iria descobrir. Mas... Você sabe, né?" Talvez ela tenha um pouquinho de razão. Talvez. Só um pouquinho. Bem pouquinho. A rixa entre meu pai e Campbell é - ou melhor, era - gigantesca, mas, não, meu velho não ia mandar matar o cara por isso. Tudo bem que Campbell destruiu o casamento dos meus pais, mas, não... Harvey Smithson não iria mandar matar o velho. E, também... Houveram vários tiros no prédio. Campbell não foi alvo único. Isso não pode ser coisa do meu pai. "Você tá viajando, Roxy. Ele não iria chegar a esse ponto. Não do nada. De qualquer forma... Acho que vou ligar pro velho". No exato momento em que eu discava os dois últimos números do telefone de meu pai, uma gritaria começou na rua. Como bons curiosos - Eu, um futuro jornalista, e Roxanne, futura... Ah, eu esqueci o que ela faz -, fomos até a janela pra descobrir o que se passava. Do outro lado, na rua, corpos sem vida sendo transportados pelos paramédicos. Bem descuidados esses paramédicos, aliás. Uma multidão de curiosos em volta, e os corpos totalmente à vista. Campbell e mais meia dúzia. Todos professores. "Ah, não, a professora de bioquímica não!", ouvi Roxanne lamentar ao meu lado. Pelo menos dessa alguém gostava. Eu provavelmente não iria, se conhecesse. Não sou muito de gostar de pessoas em geral. Talvez Roxanne seja uma pequena exceção. Um tempo após os paramédicos com os corpos, saiu do prédio um pequeno grupo de o que muito provavelmente eram detetives da polícia. Da polícia de verdade. O ar de babaquice deles era semelhante ao do defunto Campbell. Eu pude perceber só pelo olhar. Meu celular tá tocando. "Peraí", eu disse, mais para mim mesmo no meu momento de análise da situação do que para alguém que eu fosse atrapalhar quando eu atendesse à chamada - No caso, Roxanne. "Alô? Oi, pai, eu tava te ligando, aconteceu uma coisa muito biz..." "Opa, fala, filhão! Como tá a universidade? Então, eu tava aqui pensando... Faz tempo que a gente não se vê, sabe? Como quando você era criança... Nesse fim de semana, vou estar por aí pela cidade, e ouvi falar dum lugar incrível pra gente pescar, que tal? Você adorava pescar" "Ãh..." "Haha, agenda! Ora essa, moleque, você é só um estudante. Mas tudo bem, depois você me liga pra confirmar, mas que tal sábado de manhã?" E desligou. Algo tava errado. Algo tava muito errado. Como eu sei? Bom... Primeiramente porque "Faz tempo que a gente não se vê", no nosso "código familiar" significa - de alguma forma - "liga pra sua mãe". Em segundo lugar, "sábado" quer dizer "me sequestraram, mas não vão me matar, só estão pedindo muito dinheiro", e, por último, "de manhã" significa... De manhã. Sequestraram meu pai, e querem a grana até a manhã seguinte. Mas, onde diabos ele está? E pra quê ligar pra mamãe? Vai ser bem difícil ela ajudar... Eu nunca achei que ouviria esses três códigos de uma vez só.

Linhas Paralelas - Parte 9a

Ele é muito estranho, esse garoto. Não, muito não é o bastante. Johnny é completamente estranho. Ainda tô tentando entender qual é a daquele caderno. Ah, dane-se, tenho coisas mais importantes pra fazer. Melhor arrumar a casa antes que meus pais cheguem. Essa sala tá uma bagunça... Maldito seja o projeto em dupla de química. Detesto ficar dependendo dos outros. Posso muito bem tirar a nota máxima sozinha. Fazendo o trabalho com uma mão só. Se eu não ficar com nota boa, eu mato aquele garoto. Eu juro que mato. Droga, alguém resolveu chegar mais cedo, e a casa ainda não tá toda arrumada. Por quê logo hoje a empregada tirou folga?! Ótimo, esqueceram a chave de casa. Vou ter que abrir a porta. Meu pai e mais dois caras. Devem ser colegas dele. William Carlinbrook, ex aluno de Harvard, geneticista renomado, e completamente esquecido quando o assunto é "chaves da casa". "Oi, filha... Sua mãe já chegou?" E, quando o assunto é "sua esposa", aparentemente, ele também é esquecido "Ãh... Não. Ela não viajou? Só volta no meio da semana" "Ah... É, certo, certo. Tá... Só isso, por agora. Pode ir fazer suas coisas. Tenho uma.. Ãh... Reunião importante agora, com esses dois senhores. Não quero ser incomodado". Assenti, embora percebendo que alguma coisa não tá muito certa. Espero que esteja tudo bem no trabalho. Não quero ter que me mudar de novo tão cedo. Subi ao meu quarto e iniciei minha rotina diária de estudos. 4 horas que passam na velocidade de uma. E tava tudo indo bem, até que comecei a ouvir uns barulhos estranhos, vindos do primeiro andar. Eu preciso saber o que tá acontecendo. Merda. Desci o mais silenciosamente que pude, e fui tentar ouvir o que se passava no escritório de meu pai. "Ora, Will... Pra quê dificultar as coisas, camarada? Era só ter dito sim, que iríamos buscar a menina e você nunca mais ia nos ver. Mas nããão! Você teve que nos desafiar... Sério, eu não queria ter te amarrado". Não sei o que deu em mim, mas bati na porta, pedindo que a abrissem. "Olha só..." Começou a dizer o mais alto dos homens desconhecidos, a mesma voz que ouvi instantes antes. "Ela veio nos visitar. Patrick, segura a bizarrinha" "NÃO! Não... Por favor... Não a levem... É minha filha, por favor..." "Sabe, Will... Eu nunca gostei da sua voz" Eu não conseguia enxergar nada, enquanto tentava me desvencilhar do outro homem, o tal de Patrick. Mas conseguia ouvir. E tudo o que eu ouvi foi um estrondo, absurdamente alto. Teria sido um...? Desmaiei. No que pareceram segundos depois, acordei, e ainda não conseguia enxergar quase nada. Eu sabia apenas que estava deitada numa cama, mas não sabia exatamente onde. Por sorte, sou mais inteligente que esses caras. Eles não acharam o meu celular, escondido dentro da meia. Talvez nem tenham procurado. Imbecis. Olhei o horário. Três da manhã. Eu poderia tranquilamente ligar pra polícia, se soubesse onde estou. Merda. E se... Não, não, definitivamente não. Pra quê? Ele não vai poder me ajudar. Talvez... Se ele for até minha casa, e procurar por pistas. Eles sempre deixam pistas. É, talvez. É uma ideia profundamente estúpida, mas não tenho nenhuma melhor no momento. É isso. Vou ligar pra ele. Barulho de chave. Tem alguém abrindo a porta. Merda, merda, me ouviram acordada. Merda. "Porra, Johnny, atende", disse, baixinho, esperançosa.

Linhas Paralelas - Partes 8a e 8b

Não tive escolha dessa vez. Concordei com o sapo, claro. Não tô afim de morrer. Ainda. Quem sabe daqui um tempo. Respondi tudo o que me foi perguntado. A maioria da mesma forma, "não sei". Ele ficou mais puto, mas foda-se. Tô falando a verdade, oras. "Você tem escola hoje, garoto?" "Ãh... Não, talvez por hoje ser... domingo?" E FrogMan riu. Sinceramente, eu teria gostado mais de ter levado um soco. Ou uma cusparada ácida, diretamente nos meus olhos, pra que eu não tenha que ver um híbrido de sapo e humano rindo de novo. "Certo, então, amanhã. Amanhã você começa a pôr nosso plano em prática" "Mas... Que plano? Eu só respondi umas perguntas.." "De forma nada satisfatória, devo dizer" Eu não disse que ele ficou meio puto? "Mas pensei em algo. É óbvio e fundamental que você precisa da confiança dessa garota pro meu objetivo ser cumprido. Você vai ter que conquistá-la" Mas, oi, quê, como? E ele riu de novo, talvez pela minha cara agora. Cuspe ácido, por favor! "Não é isso que você tá pensando, moleque. Você vai ter que se tornar amigo dela, e é só". Ah, ok, "só isso". Um anti social tentando ficaar amigo de uma anti social. Tranquilo. Pff, faço isso em 5 minutos. Lá se vai minha nota em química, puta merda. "Estamos entendidos?" "Sim, senhor" Vou dizer que não? Ainda não estou maluco. Embora esteja começando a pirar. "Agora vai pra casa, e me mantenha informado. Quero progressos até o fim da semana. E eu mando chamar você, caso eu precise de mais alguma coisa" Legal, virei o serviçal de um sapo humano atormentado. Sou o Alfred Bizarro de um Batman Bizarro. Maravilha. Voltei pra casa. Não por ele ter mandado, mas pra fugir dele um pouco. Obviamente, a primeira coisa que ouvi quando pisei em casa foi "Onde diabos você tava?", de uma mãe preocupada. Aí lembrei que havia esquecido meu celular dentro do meu quarto. Eu sempre esqueço. Antes que eu conseguisse sequer pensar numa desculpa esfarrapada pra dizer, o telefone de casa tocou e minha mãe esqueceu-se completamente do meu sumiço. Bom pra mim. Corri escada acima, diretamente pro meu quarto. Primeiro passo: Internet. Checar o que aconteceu no "mundo real" enquanto eu desapontava um homem sapo que foi meu herói de infância. Nada demais, um acidente aqui, um cantor qualquer morrendo ali... Celular. Hora de ver as 400 ligações não atendidas. Opa, 401. Um número que eu ainda não tinha na agenda. Um número que já se comunicou comigo uma vez, bem recentemente. Três e meia da manhã. Era o número de Alice.

28 minutos e 34 segundos. 28 minutos e 34 segundos, da saída daquele prédio até o tão falado QG dos Super Poderosos. É, eu contei. A viagem foi meio silenciosa, eu consegui. E, também, claro, eu estava bastante ansioso. E toda a minha ansiedade foi totalmente justificada ao dar de cara com uma "Mansão Xavier". Será que aqui também tem uma Sala de Perigo? Saímos do carro, eu, Radar e mais uns dois "Agentes Smith", seguranças mal humorados que trabalham pros mutantes. Melhor não mexer com eles. Minha vontade era a de sair correndo pra dentro da mansão, mas fui parado por Radar. "E isso aí, xará. Bem vindo ao Quartel General Mutante. Vamos entrando... Eu tenho umas coisas a fazer, por isso não vou poder mostrar o local, mas não se preocupe, Kyle vai te ajudar". Antes que eu pudesse perguntar quem diabos era Kyle, adentramos a mansão e um cara que não me era estranho veio ao nosso encontro. Aquele carinha que se teletransportou não sei pra onde, e voltou com um celular pra dar à loira que estava com Radar quando o conheci. Definitivamente, ele era estranho. "Valeu, xará, amanhã a gente se vê" Fiquei pensando no que esse "amanhã" significava, enquanto Radar se afastava, indo em direção a um dos corredores, ali no térreo mesmo. "O velho é estranho mesmo, você se acostuma, carinha. Então, vamo lá? Seu quarto é no terceiro andar, mas, antes, a gente vai dar uma olhada numas coisas mais interessantes. Você também deve estar com fome, mas sinto muito, a gente segue uma agenda aqui. Você também se acostuma com isso, fica de boa". Assenti, embora faminto, e segui o "ninja" escada acima. Aliás, será que o nome mutante dele é... Black Ninja? Passamos rapidamente pelo "primeiro andar" e nenhuma observação foi feita, embora eu tenha conseguido ler umas portas, que diziam "Dormitório I", "Dormitório II", e por aí vai... Então, tem mais gente aqui. Que não sejam da minha idade. Sei o quanto adolescentes de 15/16 anos podem ser, e não tô querendo sofrer bullying por não ter poderes, aqui. No "segundo andar", algumas... Salas de aula? Ah, merda... "Aqui é a parte mais 'comum' do QG. O pessoal mais novo continua os estudos a partir do ponto em que foram trazidos pra cá, e também temos classes especiais, desenvolvimento e controle de poderes, essas coisas. Como eu disse lá embaixo, você vai ter tempo pra conhecer a galera depois". Merda, o cara tava falando e eu não prestei a mínima atenção. "A gente vai encaixar você nas classes de combate corporal e estratégia. Harris nos disse que você tem potencial, então, você vai se dar bem". Esse cara já me falou 15 vezes pra ficar "tranquilo" e que "vai dar tudo certo". Tô sentindo que vou apanhar. E apanhar feio. Subimos mais um andar. Nesse, quase não haviam portas. O tamanho era o mesmo dos anteriores, claro. Logo, salas maiores. "Aqui ficam os aposentos da diretoria" Disse Kyle, apontando pra algumas portas "...E a sala de treinamento avançado". A porta ao final do corredor. Então, ali é a "Sala de Perigo". "Aconselho a não entrar lá, garoto. Não por enquanto. Você vai dormir ali, no quarto do Radar. Ele não curte ficar por aqui, então, tá vazio. Suas coisas já estão lá. Os horários da mansão estão todos num quadro dentro do quarto, também. Você pode ir descansar um pouco agora, se quiser. Até mais, garoto". Enquanto Kyle se dirigia de volta ao andar anterior, fiquei um tempo parado, de frente para a porta onde se lia "Radar". Será que esse é mesmo o lugar onde devo estar? O celular tocou no meu bolso, tinha até esquecido dele. Uma mensagem, de Alice, que dizia "E o projeto de química, garoto?! Cadê você?". Merda.

Linhas Paralelas - Partes 7a e 7b

Mas, claro, ele ficou puto com a falta de respostas. Eu não queria dá-las, eu não quero. Não sei o que vai acontecer com a garota se esse cara colocar as mãos nela. Ainda tenho um projeto de química pra terminar. Não consegui pregar o olho. Por sorte, nenhuma ligação de pais preocupados perguntando onde estou. Ou vai ver é o contrário, falta de sorte. Extrema. Amanheceu, e eu mal percebi. Mas não tô com sono. Só fome. Vou levantar dessa porcaria de sofá e ver se tem algo pra beliscar na cozinha. Bela cozinha, maior que a lá de casa. Agora bateu uma dúvida: O que será que o FrogMan come? Bom, não consegui pensar em nada.. Mas com certeza não é pizza. Essa aqui tá intacta. Merda, tá fria... Foda-se, melhor que aquele feijão no pote de sorvete dentro da geladeira. "Ei, moleque, vai abrir a boca agora ou eu vou ter que ajudar?" Ai, caralho... Por favor, que ele não esteja armado, que ele não esteja arm... Ufa, não tá armado. Só com o seu tom ameaçador babaca de merda. Que, devo dizer, funciona direitinho. "Ãh..." "Vambora, moleque, você não tá entendendo a gravidade da situação" Olha, sapo, pra quem disse que primeiro precisava dum plano, você tá meio apressadinho demais. "Me explique" "Como é?" "Me explique, oras. A 'gravidade' da situação. Quero saber no que eu tô me metendo. Não sei se você notou, mas eu sou um 'moleque', não tenho nenhuma habilidade especial. Não tô querendo morrer tão cedo, saca?" "Ora, seu..." Senti que ia levar, sei lá, uma cusparada ácida no meio da cara, agora. Mas, contrariando minhas expectativas, ele só... Respirou fundo, e começou a falar. "Tá certo, garoto, te devo umas explicações. Como você deve saber, eu viajo o mundo procurando por pessoas como eu, mutantes, e tento ajudá-las, das mais variadas formas. É claro, ainda mantendo suas identidades em segredo, não quero que ninguém passe pelo que eu passo. Porém, algo que você provavelmente não deve saber..." E é claro que eu na verdade sei, ou já se esqueceram que sou o maior fã desse filho duma puta? "É que eu não consegui isso por querer. Fui enganado, forçado a isso. Enquanto ajudo os mutantes, também estou procurando os imbecis que fizeram isso comigo. E tenho algumas razões pra acreditar que um deles fez isso com essa menina, quando ela nasceu. Logo, alguém da família dela com certeza sabe de algo. Talvez ela mesma, mesmo que não saiba que sabe. Eu preciso de Alice, garoto. Satisfeito?" Na verdade não, agora estou com mais medo por Alice mas... "Entendi" "Então... Vai me ajudar ou não?" E lá vamos nós de novo...


Mal dormi essa noite. Ansiedade, claro. Não é todo dia que um moleque viciado em heróis, que há anos se veste como um, tem a chance de estar com um grupo de heróis de verdade. Não é sempre que um moleque pode se tornar um deles. E, infelizmente, ou felizmente, sei lá, minha ida repentina ao QG deles na capital não envolveu nenhum mutante com o poder de causar perda de memória. As mentes de meus pais só sofreram uma leve modificação. Agora, eles pensam que estou com a minha vó, passando um tempo, no meio do ano letivo, e... Tá tudo bem. "Tá pronto, meu chapa?" Perguntou Radar, enquanto esperávamos nosso avião. Pronto? Claro que não. Primeira vez que entro num objeto gigante de metal que voa, é claro que eu tô me segurando pra não ficar cagado. Porém, é claro, tive que dizer que sim. A viagem foi até tranquila, não demorou muito. E a minha empolgação aumentou. Eu tava quase pulando feito criança retardada de 5 anos, quando saí do avião. A capital. O QG dos caras que salvaram o país. Puta que pariu. Nos esperando, um trio de carros militares. Sem tempo pra turismo, presumi. Tudo bem, vou ter tempo depois, eu acho. Em dez minutos... Estávamos presos no trânsito caótico do centro dessa cidade. Levou mais uma hora até que chegássemos no nosso destino. E, não, ainda não era o tal QG. Filhos da puta, sabem direitinho como criar expectativa. Em vez disso, fomos para um dos vários prédios comerciais. Um imenso prédio comercial. Elevador. Trigésimo nono andar. "O Sr. Harris já está esperando por vocês", disse uma mulher, sentada à uma pequena mesa de trabalho. Entramos pela única porta que havia no andar, fora a dos elevadores, eu e Radar. Dentro da sala, um cara só um pouco mais velho que eu. Não devia passar dos 30. Uma versão mais jovem de alguém bastante familiar, mas que eu ainda não sei quem... "É ele? Esse é o garoto lá da turma do meu pai? Não me parece grande coisa..." "Ei, ei, qual é, guri, teu pai falou muito bem do moleque, vamos dar um crédito. Não esqueça de que foi ele quem colocou você nesse cargo" CLARO! O cara deve ser filho do ScarMan. E parece ser tão chato quanto. Só que mais babaca. "Tá, ok, Radar, tem mais alguma coisa ou isso é tudo? Estou bastante atarefado por aqui..." A sutileza de alguém que não quer receber visitas. Deve estar aprontando alguma merda. "Ãh... Não, não, ok, beleza, só quis trazer o garoto aqui antes, pra, você sabe... Enfim, podemos vir aqui outra hora. Vambora, xará, eu sei que você tá querendo conhecer o QG. Pode ficar tranquilo, a gente tá indo pra lá agora". Mal posso esperar.

Linhas Paralelas - Partes 6a e 6b

"A-Alice?" "Sim, moleque. Alice. É um nome novo pra você?" Nem um pouco, sapo. Sabe, até 5 minutos atrás você era meu maior ídolo... Agora, você já tá querendo me foder. Sem duplo sentido. "Alice Carlinbrook. A menininha gênia da TV. Foi o que acabei de dizer. Você é surdo?" Infelizmente, pelo menos nesse momento, não. "É.. Ãh.. Eu conheço. Eu conheço... Essa menina, Alice" "Ótimo. Você vai me ajudar nessa. O garoto é confiável, Harris?" Quem é Harr.. Ok, é ScarMan. O rosto vermelho de raiva denunciou. E apesar disso, ele respondeu. Que sim, 'o garoto', no caso, eu, de fato é confiável. Eu podia ter agradecido... Mas não. Não sei se o velho foi sincero ou só queria ver o sapo longe dali o mais rápido possível. Regras rígidas sobre identidades, regras muito rígidas. Até hoje, ninguém por aqui sabe meu nome. Tampouco tenho um codinome. Sou só... "Garoto". Que merda. "Excelente, excelente... Você vai me ajudar, né, moleque?". Agora, pensando melhor, acho que "moleque" é um pouco pior. Sacudi a cabeça afirmativamente, claro. Que escolha eu tinha? "Então, anda, levante-se, temos trabalho a fazer" Mas, Mas.. Mas já?! Oops, talvez isso tenha escapado em voz alta. "Você realmente acha que eu sou o único que tá correndo atrás dessa menina? Claro que não! Tem mais gente nova na cidade. E gente pior, muito pior que eu". Pior do que, apesar de ser um cara que eu idolatro, um sapo? É que tipo de gente, então?... Jacarés? Graças a Odin, essa parte não escapou em voz alta. Assenti mais uma vez e segui FrogMan até a saída da ca.. Do local de reuniões. "Tô na casa dum camarada, a duas quadras daqui. Vambora, aproveitar que a rua tá vazia". Mesmo com a rua vazia, FrogMan colocou seu capuz novamente e caminhava a largos e rápidos passos. Foi difícil acompanhar. Chegamos num prediozinho velho e subimos até o terceiro andar. "O cara foi passar o fim de semana num lugar qualquer com a família, tô sozinho por 3 dias. O ideal é agirmos antes disso. Tenho outras pessoas pra buscar, mas preciso levar a garota. Essa garota, eu preciso. Mas precisamos de um plano. E aí, sugestões?" "Uh.." "Como eu esperava. Então, há quanto tempo você a conhece? Vocês são amigos? Houve alguma mudança de comportamento recente por parte dela? Você notou alguém diferente se aproximando? Ela confia em você?" E tudo que existia na minha cabeça era "Uh". Eu não fazia ideia de como responder essas perguntas. E pior: Eu não tinha a menor certeza se estaria ajudando Alice, trazendo ela pra companhia de FrogMan. Heróis são um pouco obcecados demais.

Ouço vozes. Não enxergo nada. Sinto alguém dando tapas em meu rosto. Mas quem será o filho da p... "... Ele acordou, vá avisar ao Harris. O velho ficou preocupado.. Cê tá bem, garoto?" Fora a puta dor de cabeça, beleza. Abri os olhos e Radar estava lá, esticando o braço para me ajudar a levantar. Não, eu não tava no chão. Me levaram prum quarto. Mas, é, eu desmaiei. Será que foi a loirinha que tá saindo agora, que tava tentando me acordar? Bem... Legal, ela. Bem legal. "O que foi, ficou mudo agora?" "Ãh... Tô.. Tô legal. É... Eu não comi direito, acho". Na verdade, só havia tomado o café da manhã... Isso dá umas.. 16 horas sem comer. É, não foi legal. "Vê se isso aí ajuda". Uma barra de cereal. Dezesseis horas sem comer e tudo o que me oferecem é uma barrinha de cereal. Ok. Vai isso mesmo. "Valeu". "Tô sempre com uma no bolso. Se precisar..." Ah, é, claro. Se eu tomar um tiro, com certeza gritarei "RADAR, POR FAVOR! UMA BARRINHA! ME AJUDA!". Imbecil. "Então, garoto, você vai ajudar a gente ou não?" Putz, eu quase esqueci. A menina nova na cidade, que é mutan... CARALHO! CARALHO! MUTANTE! A ALICE! PUTA MERDA! Quase desmaiei de novo, mas dessa vez seria por ter prendido demais a respiração. Me segurei mesmo, pra não gritar. É foda descobrir do nada que a "crânio" da escola é mutante, do nada. E que você passou horas ao lado dela, falando sobre química, sem nem desconfiar de nada. Vai ver nem ela sabe. Vai ver ela pensa que é só uma garota inteligente. Quando ela descobrir que é Super Inteligente... Fodeu. A pouca humildade que resta nela vai embora. Enfim, foda-se isso, por agora. Aliás, tô cagando pra humildade dela. Mesmo ela pertencendo a um grupo de seres superiores. Por quê eu fui nascer normal?! "É.. Hum.. Claro, claro que vou". É óbvio que só vou ajudar pela possibilidade de entrar na equipe depois, se fizer um bom trabalho. Mesmo que eu morra na página 17 da primeira edição dos quadrinhos. Pode ser que eu volte no reboot, sei lá. Eu espero. Radar sorriu. E eu sinceramente espero nunca mais ver esse sorriso de novo. É simplesmente assustador. "Boa, xará. Agora vá descansar um pouco. Amanhã nós vamos te levar lá pro QG" "Mas.. Mas.. Minha casa.. Minhas coisas.." "A gente dá um jeito". Ok, isso eu posso aceitar. Eles são mutantes fodões, afinal. Não duvido que tenha um cara que, sei lá, modifique as mentes das pessoas. Só apagar minha existência das mentes dos meus pais, sei lá. Mas.. "E a Al.. A menina? Achei que iríamos logo atrás dela" "Sem treino? Claro que não! Moleque, agora você é um dos nossos. Segue nossas regras. Voltaremos ao QG, treinaremos você e aí sim, faremos um plano pra trazer a garota pro nosso lado. Fica tranquilo, carinha. Nada vai acontecer com ela". Tem certeza, Radar? Tem certeza?

Linhas Paralelas - Partes 5a e 5b

Chegando no local da reunião, já encontrei uma movimentação fora do normal. E figuras além do habitual. Só uma, na verdade, que logo despertou minha curiosidade. Era impossível ver seu rosto, apenas uma pequena parte de algo que parecia ser uma máscara, verde, por baixo de seu capuz. "Hoje a reunião será um pouco diferente, meus caros", ScarMan, aquele velho ranzinza, começou. Fiquei satisfeito em descobrir que dessa vez eu não era o único a não saber nada sobre a reunião da noite. Aparentemente, só o encapuzado desconhecido já sabia de algo. E tem alguma coisa me dizendo que isso vai dar merda. "Primeiramente, como vocês já puderam observar, temos uma figura nova entre nós" O misterioso ser fez um rápido aceno com a cabeça. "Nosso convidado, um amigo de longa data, chegou à cidade e veio pedir a nossa ajuda em uma de suas missões" Então, o encapuzado se revelou. Eu tomei um grande susto. Todo mundo tomou um grande susto. O verde visível anteriormente não era uma máscara, era seu próprio rosto. Seu verde rosto... De anfíbio. Puta que pariu. Puta. Que. Pariu. Ele... A lenda... Ele existe! Quase gritei, feito louco, mas consegui me controlar. "Pois bem, como meu camarada H..." Alguém limpando a garganta o interrompeu "ScarMan" "Putz.. É sério isso? Mas nem cicatriz você tem.." "Cale a boca, é um nome forte. E, caso você não se lembre, os jornais te chamam de FrogMan" "Pelo menos faz sentido. Como eu ia dizendo... Como meu camarada 'ScarMan' já lhes disse, estou aqui em missão, meus caros colegas heróis. Não sei se vocês sabem, mas eu..." "Você viaja o mundo em busca de pessoas em condição semelhante à sua, ou seja, mutantes. E, pelo que me parece, uma dessas pessoas vive aqui, nessa cidade, é isso?" Senti que ScarMan queria me espancar depois de eu ter tomado a palavra de forma repentina. E FrogMan... Sei lá, queria cuspir em mim? "Uhh... Sim, certo, garoto. É isso mesmo que eu vim fazer aqui. Mas.. Como você sabe?" "Eu... Leio... Os jornais" Como o sapo evitava ler sobre si mesmo, o álibi para 'sou o dono do website dedicado a você' caiu perfeitamente. Não me perguntem como eu sei dessas coisas. "Pois bem, existe uma pessoa nessa cidade, que chegou há pouco tempo, que possui um poder extraordinário. Uma capacidade mental muito acima do normal, e caso ela vá para caminhos errados e desenvolver sua habilidade, o mundo corre grande perigo. A pior coisa que pode existir é um ser humano portador de grande intelecto que o use para causas erradas. E, Meu Deus, ela ainda é uma garotinha... Talvez você a conheça, rapaz" Disse Frogman, apontando pra mim. É, é bem provável. Todos as crianças e jovens da cidade vão para a mesma escola. Mas, quem seria? "O nome dela é Alice. Alice Carlinbrook. Aquela garotinha gênia da TV". Merda. Merda, merda, merda.

Chegando no local da reunião, já encontrei uma movimentação fora do normal. E algumas figuras novas. Todos fantasiados, como o restante. Não saquei pra quê tive que correr. Mais gente fantasiada, só. Nada demais. Não que não fosse legal conhecer fantasiados novos, mas.. Né, muita gente pra proteger uma cidade que não é tão violenta assim. Mas esse meu achismo de "são só mais uns fantasiados" deixou de existir quando a mulher do grupo novo - junto dela estavam mais três caras - virou-se para um deles e cochichou algo em seu ouvido. Então, o camarada simplesmente desapareceu no ar e retornou segundos depois, no mesmo lugar, com um celular na mão. Ou eu fui o único a notar algo estranho, ou o último, porque ninguém mais pareceu dar atenção a isso. "Ei, guri", ouvi ScarMan dizer, vindo em minha direção "Venha cá, quero que conheça alguém" Ainda meio assustado com o que havia acabado de presenciar, fui ao encontro do velho, que me levou até um de seus convidados, um magrelo estranho todo vestido de vermelho. Se fosse azul, eu diria que é meu eu do futuro. "É esse o garoto. Johnny, esse é Radar, acredito que já tenha ouvido falar nele" Radar... Eu conheço esse nome. É claro que eu conheço. A brincadeira de se fantasiar começou por causa desse cara. Quando eu tinha uns 5 anos de idade, esse cara salvou o país. Meu ídolo, na minha frente. Ele não era só uma lenda, afinal. "Valeu, Harris, agora pode deixar o garoto comigo pra conversar. E aí, xará?" ScarMan se retirou, resmungando algo sobre sua identidade secreta. E eu ainda fiquei sem conseguir falar por um tempo. Radar riu e prosseguiu a fala "Aquele ali ficou velho, enlouqueceu e agora não aceita mais o nome... Harris, Harris.. HARRIS, SEU PUTO! Enfim, o negócio é o seguinte, garoto. Eu e minha galerinha estamos de olho num pessoal pra se juntar a nós. Tem um grupinho especial nessa cidade... E a gente vai precisar de toda ajuda que puder. Harris me contou a história desse grupo, e, como estamos querendo ajuda e o chefe de vocês tá me devendo umas coisas, vim pegar alguns de vocês emprestados pra facilitarem as coisas pra nós. E, depois, se quiserem, vão se juntar ao grupo, também" E é óbvio que eu fiquei animado. A oportunidade, mesmo sem ter poderes, de me juntar a um grupo de pessoas especiais não surge todos os dias. "Acreditamos que você pode nos ajudar a trazer pro nosso lado uma menina da sua escola. Sim, você conhece mutantes, garoto" Ok, eu posso aceitar isso. Mas... Quem? "O nosso alvo não está aqui há tanto tempo, o que nesse momento reduz a lista que você está montando em sua mente" Como ele sabe?! "Você esteve com ela recentemente, inclusive. É... Ferrugem, qual o nome da pirralha?!" Radar gritou para seus companheiros, e um ruivo estranho se aproximou "Como é, chefe?" "A pirralha, a única pirralha que a gente veio buscar" "Ah, sim.. Alice. Alice Carlinbrook, se não me falha a memória" "Isso, valeu, Ferrugem. Agora, xará, essa menina, Alice.... Ei, moleque, cê tá legal?" Puta merda. Puta. Merda.

Linhas Paralelas - Parte 4

Finalmente em casa. Finalmente vou poder voltar à minha rotina, depois dessa tarde de sustos. Enfim, calmaria. Que, nesse momento, significa... Deixe-me ver, deixe-me ver... Tá chovendo. Melhor jogar um pouco de videogame. Depois, é noite de reunião. Não, não sou alcoólatra, e muito menos engajado com questões políticas. Aliás, também não sou nada engraçado, deu pra perceber. É uma reunião do pessoalzinho uniformizado, mesmo. Chamo de Festa dos Esquisitos, embora eu seja o único que se enquadra nessa categoria. E é sobre essas reuniões que eu escrevo, principalmente. É legal aprender coisas sobre aquelas pessoas que possuem o mesmo sonho que você. E então eu escrevo, pra não esquecer. É claro que nem sempre foi assim, mas agora confiam em mim. Ter a oportunidade de aprender com essa gente não é pra qualquer um. E de quebra às vezes vou pra rua com alguns, pra dar uma força. Não que eu ajude muito, mas eu faço o melhor que posso. Me orgulho em dizer que já quebrei uma meia dúzia de carinhas. Tudo bem, eles já estavam meio grogues, a maioria já caídos no chão, mas narizes foram rachados, é isso que importa. Já me disseram que levo jeito, mas sei que foi só pra não me desanimar. Mas, mesmo consciente de que ainda tenho muito a aprender, que ainda não sou nada perto desses caras, não abaixo minha cabeça. Estou do lado de heróis, nada poderia ser mais inspirador. A chuva acabou, preciso me arrumar. Onde está meu traje? Sério, uma roupa toda azul não se esconde tão fácil assim... Ufa, encontrei. Achei que tinha sido roubado. Droga, tô atrasado. ScarMan vai me matar. "Vem logo, guri. Hoje temos visita. Corre.", dizia a mensagem no celular. É, melhor mesmo correr.