Antes que Lucy
terminasse de arrumar suas coisas para sairmos da redação - Quase
10 minutos decidindo o que levar e o que não levar naquele portal
interdimensional que as mulheres chamam de bolsa -, é claro,
apareceu trabalho. Segunda feira sempre foi o dia pra dar merda.
Dessa vez, uma explosão em algum lugar que eu não ouvi bem onde
era, e Lucy foi a designada para cobrir o fato. A matéria que iria
afundar as nossas carreiras teria que esperar. Graças a Deus. "Pete,
você vem comigo". Pete até no local de trabalho. Mas eu sempre
agradeço por não ter que ouvir "Peter"sair da boca dela.
A última vez.. Não foi nada legal. "Mas eu não cubro
explos.." "Peter, você vem comigo, porra". Obedeci.
Essa também não foi legal. Quando enfim conseguimos deixar o
edifício, havia um carro esperando por Lucy. E por seu fotógrafo.
"Ah, não, eu não vou dar uma de fotógrafo" "Claro
que não, idiota. Você é péssimo fotógrafo" E aqui temos
Lucy sendo gentil "Só te trouxe até aqui comigo pra não te
segurarem lá dentro. O jornal tá uma merda sem você, precisamos
daquela matéria, mas eu sei que você ainda não tá bem. Os outros
vão acabar te enchendo de trabalho desnecessário. Vai pra casa. Mas
me espere lá, não pense que não quero ver o que você tem, Pete. A
gente precisa daquela matéria". Obviamente, o que ela disse
sobre o jornal estar uma merda sem mim foi só pra tentar me animar.
Mas estou precisando disso, mesmo. Ter que aguardá-la vai me privar
de ir para o bar da esquina afogar as mágoas de um casamento recém
destruído pela quinta noite seguida. Ou sexta, não sei. Tenho que
lembrar de agradecê-la mais tarde. Apesar de quase não me suportar,
Lucy é a única que aparenta se preocupar pelo menos um pouco, e é
bom ter alguém assim por perto. Peguei meu carro e dirigi em direção
ao meu apartamento. Pelo menos o apartamento ainda posso chamar de
meu. Perdi a esposa e os filhos pra um zé qualquer com grana no
bolso. Grana e tempo. Filho da puta. Levei quase duas horas pra
chegar em casa, preso no trânsito. Outra explosão, em outro ponto
da cidade, segundo o plantão de notícias do rádio. Qual o problema
com a segunda feira? Ao pisar no meu prédio, senti que algo estava
errado. Ao parar na minha porta para abrí-la, descobri o motivo. Não
precisei usar minha chave, a porta já se encontrava aberta.
Arrombada. Não sei se prefiro um assaltante ou minha ex mulher e seu
atual namorado querendo buscar algo que sobrou. Ou tentando roubar
algo que combinamos que ficaria comigo. Se trouxessem as crianças,
talvez... Depois de alguns poucos segundos "me preparando"
para qualquer uma das duas situações, o que eu vi ao entrar em
minha casa foi um amigo de infância revirando o meu sofá. "Porra,
Peter, onde você guardou aquela parada?" William, o cara mais
baixo e mais fraco que eu que me ajudava com os bullies nos tempos de
colégio. Atualmente policial, e ciente da minha reportagem. Aliás,
foi com ele que consegui metade das minhas informações. "Foi
mal pela porta, aliás. Mas eu não tinha a chave, né, tive que
improvisar de alguma forma" "Qual o seu problema, Will?!
Acha que pode invadir a minha casa assim?! Não é por existir
amizade que pode existir invasão, ok? Sabia que eu posso chamar a
polícia?" E ele riu. Sei lá, acho que tenho cara de palhaço.
Todo mundo ri, mesmo quando eu falo sério. "Tu não ia fazer
isso, guri. E, sério, tô precisando daquele material. Preciso
averiguar uma coisa" "O quê?" "Ainda se diz
jornalista... A explosão, guri. Na prefeitura". Puta merda. A
explosão que Lucy foi cobrir. "Então, você tá dizendo..."
Meu celular tocou. "Fala" "Pete, a explosão,
caralho.." "É, eu tô sabendo. Agora minha matéria já
era, com a morte do prefeito. Se quiser me demit..."
"HAHAHAHAHHA" Que sádica, essa minha chefa "O
prefeito morto? Vaso ruim não quebra, querido. Mas, é, foi um
atentado terrorista. Mas não havia ninguém no prédio. É segunda
feira. Mas o que quero mesmo dizer é que a polícia já tem um
suspeito..." Disso eu também tô sabendo, Lucy. Eu não ousaria
me chamar de jornalista se não soubesse. Eu não teria começado
minha matéria bombástica se não fosse ele, o chefão do crime da
cidade, o "Rockstar" da indústria bélica, Charles
Scottfield.
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