domingo, 25 de setembro de 2016

Furo de Reportagem - Parte 2

  Antes que Lucy terminasse de arrumar suas coisas para sairmos da redação - Quase 10 minutos decidindo o que levar e o que não levar naquele portal interdimensional que as mulheres chamam de bolsa -, é claro, apareceu trabalho. Segunda feira sempre foi o dia pra dar merda. Dessa vez, uma explosão em algum lugar que eu não ouvi bem onde era, e Lucy foi a designada para cobrir o fato. A matéria que iria afundar as nossas carreiras teria que esperar. Graças a Deus. "Pete, você vem comigo". Pete até no local de trabalho. Mas eu sempre agradeço por não ter que ouvir "Peter"sair da boca dela. A última vez.. Não foi nada legal. "Mas eu não cubro explos.." "Peter, você vem comigo, porra". Obedeci. Essa também não foi legal. Quando enfim conseguimos deixar o edifício, havia um carro esperando por Lucy. E por seu fotógrafo. "Ah, não, eu não vou dar uma de fotógrafo" "Claro que não, idiota. Você é péssimo fotógrafo" E aqui temos Lucy sendo gentil "Só te trouxe até aqui comigo pra não te segurarem lá dentro. O jornal tá uma merda sem você, precisamos daquela matéria, mas eu sei que você ainda não tá bem. Os outros vão acabar te enchendo de trabalho desnecessário. Vai pra casa. Mas me espere lá, não pense que não quero ver o que você tem, Pete. A gente precisa daquela matéria". Obviamente, o que ela disse sobre o jornal estar uma merda sem mim foi só pra tentar me animar. Mas estou precisando disso, mesmo. Ter que aguardá-la vai me privar de ir para o bar da esquina afogar as mágoas de um casamento recém destruído pela quinta noite seguida. Ou sexta, não sei. Tenho que lembrar de agradecê-la mais tarde. Apesar de quase não me suportar, Lucy é a única que aparenta se preocupar pelo menos um pouco, e é bom ter alguém assim por perto. Peguei meu carro e dirigi em direção ao meu apartamento. Pelo menos o apartamento ainda posso chamar de meu. Perdi a esposa e os filhos pra um zé qualquer com grana no bolso. Grana e tempo. Filho da puta. Levei quase duas horas pra chegar em casa, preso no trânsito. Outra explosão, em outro ponto da cidade, segundo o plantão de notícias do rádio. Qual o problema com a segunda feira? Ao pisar no meu prédio, senti que algo estava errado. Ao parar na minha porta para abrí-la, descobri o motivo. Não precisei usar minha chave, a porta já se encontrava aberta. Arrombada. Não sei se prefiro um assaltante ou minha ex mulher e seu atual namorado querendo buscar algo que sobrou. Ou tentando roubar algo que combinamos que ficaria comigo. Se trouxessem as crianças, talvez... Depois de alguns poucos segundos "me preparando" para qualquer uma das duas situações, o que eu vi ao entrar em minha casa foi um amigo de infância revirando o meu sofá. "Porra, Peter, onde você guardou aquela parada?" William, o cara mais baixo e mais fraco que eu que me ajudava com os bullies nos tempos de colégio. Atualmente policial, e ciente da minha reportagem. Aliás, foi com ele que consegui metade das minhas informações. "Foi mal pela porta, aliás. Mas eu não tinha a chave, né, tive que improvisar de alguma forma" "Qual o seu problema, Will?! Acha que pode invadir a minha casa assim?! Não é por existir amizade que pode existir invasão, ok? Sabia que eu posso chamar a polícia?" E ele riu. Sei lá, acho que tenho cara de palhaço. Todo mundo ri, mesmo quando eu falo sério. "Tu não ia fazer isso, guri. E, sério, tô precisando daquele material. Preciso averiguar uma coisa" "O quê?" "Ainda se diz jornalista... A explosão, guri. Na prefeitura". Puta merda. A explosão que Lucy foi cobrir. "Então, você tá dizendo..." Meu celular tocou. "Fala" "Pete, a explosão, caralho.." "É, eu tô sabendo. Agora minha matéria já era, com a morte do prefeito. Se quiser me demit..." "HAHAHAHAHHA" Que sádica, essa minha chefa "O prefeito morto? Vaso ruim não quebra, querido. Mas, é, foi um atentado terrorista. Mas não havia ninguém no prédio. É segunda feira. Mas o que quero mesmo dizer é que a polícia já tem um suspeito..." Disso eu também tô sabendo, Lucy. Eu não ousaria me chamar de jornalista se não soubesse. Eu não teria começado minha matéria bombástica se não fosse ele, o chefão do crime da cidade, o "Rockstar" da indústria bélica, Charles Scottfield.

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