domingo, 25 de setembro de 2016

Deveria ser uma comédia, mas nem é uma história tão engraçada assim - Parte 3

 A conversa acabou não sendo TÃO séria assim. A situação já tava razoavelmente esclarecida, afinal.
- Olha, sobre ontem à noite... - Eu iniciei. Talvez pela primeira vez na vida após uma briga com Mary. Ou segunda, não sei.
- Me desculpa, Jim. Eu devia ter contado antes – Disse ela, quase ao mesmo tempo. Fiquei surpreso.
Era a primeira vez que eu precisava me justificar. E era a primeira vez que Mary era quem se desculpava. Eu sabia que um dia isso ia acontecer. Eu sabia!
- Mas fui eu quem... - Cala a boca, idiota. Ela pediu desculpas. Você venceu uma briga com sua irmã mais nova, depois de vários anos. Seu bosta. U-ha.
- Você foi um babaca, mas eu sei que devia ter contado antes. Ou Paige.
- Não. Você devia. Não sei pra quê envolver a Paige nessa história. A merda é sua, Mary Ann.
- Não começa de novo, James. Eu errei, tá?! Não quero que você conte pro pai e pra mãe. Não agora. Por favor. - Ah, claro, uma súplica desesperada. Ela não ia admitir o próprio erro por nada. Típico.
- E por quê não? A filha deles vai casar, eles meio que precisam saber. Não é?
- Você sabe muito bem o que me fez vir morar com você, e sabe que eles jamais aprovariam se eu contasse a eles assim, do nada.
- Como foi ontem comigo? - É bom aproveitar as chances que surgem de provocá-la. Sempre foi divertido. Ela não respondeu.
Ops.
- Você vai contar? Ah, meu Deus, você JÁ contou, né? Seu... Seu...
Caí na gargalhada, óbvio.
- Você acha mesmo que vou contar algo a eles? Mary, eu não falo direito com nosso pai há anos, desde... Você sabe. Betty.
Elizabeth foi uma secretária de meu pai. Sua amante, também. Eu descobri o caso dos dois, e... Iniciei uma relação com Betty. Já fazem cinco anos. Mamãe até hoje não sabe do romance do velho com a secretária. O velho ficou puto, mandou ela embora da empresa, e ela teve que voltar pra cidade dela. Pensando bem agora, acho que já tô fora do testamento. Pobre James.
- Relaxa, garota. Você tá segura. Por enquanto. - E esse sou eu, sendo legal com a pessoa que tenta me matar desde que aprendeu a falar.
E aí aconteceu algo meio esquisito. Na minha família, pelo menos, era a coisa mais anormal do mundo. Mary Ann me abraçou. Rapidamente. Bem rapidamente, devo dizer. Ela também sabia que era estranho.
- Ãh...
- …
- … Você vai ficar em casa hoje?
- Hm... Vou. Vou, sim. Michael tá com o namorado, e o pessoal até queria me arrastar pra um show da banda do novo namoradinho de Sylvia, mas... É, vou ficar por aqui hoje, acho. E você? Vai sair?
- Ãh... Sim, como sempre. - Até ela riu.
Mary, então, depois de alguns segundos de silêncio desconfortável, se sentou no sofá e ligou a televisão. Na tela, começava um filme meio antigo, daqueles de ação mal feitos dos anos 80. Me juntei à minha irmã. Sempre gostei de tosqueira. Uma hora e meia depois, a tosqueira acabou e deu lugar a um desses filmes indies de romance que fazem sucesso hoje em dia. Bem bacana, até. Até a parte em que adormeci. Despertei apenas no meio da madrugada, no escuro, sozinho. Fui para meu quarto.
O dia seguinte correu como qualquer outro domingo. Absolutamente nada aconteceu, e cada hora parecia demorar o triplo do tempo pra passar.
Se há um dia que deva ser detestado, que pede, que implora, grita, esperneia tal qual uma criança que deseja a porra do brinquedo mais caro da merda da loja “POR FAVOR, ME ODEIEM!”, esse dia é o domingo. Não há como simpatizar com um dia em que aquilo que você aguarda a semana inteira pra fazer é tirado à força por uma placa que diz “fechado aos domingos”. O pouco que funciona não fica aberto o dia inteiro. Talvez eu deva experimentar acordar mais cedo no próximo domingo... Nah.
Na segunda, enfim, voltei à rotina. Stephen não havia falado mais nada depois do telefonema, então presumi que devia esperar. Mary Ann já não estava em casa quando saí pra redação. Ainda é estranho pensar numa garota que fez tanta bobagem sendo uma adulta responsável e dando aula pra um bando de criancinhas de 5 anos.
Não encontrei Paige na redação, durante as primeiras três horas de trabalho. Descobri depois que ela foi designada pra cobrir a investigação da morte de um dos chefões do tráfico de drogas da cidade, enquanto eu fiquei aqui, “garimpando” notas em sites de celebridades pra depois copiá-las descaradamente e publicá-las no jornal. Sortuda, essa Paige. Ainda bem que nunca precisei assinar nenhuma dessas notas.
Quando ela voltou pra redação, aproveitei pra fazer um breve intervalo. Chega de escrever sobre términos de namoro e gente bêbada fazendo o que não deve.
- E aí, o quê tá rolando?
- Suicídio ou assassinato. Nada demais. Como estão as coisas em casa, Jim? - “Nada demais”. O fodão do crime provavelmente foi assassinado por um de seus inimigos, e ela acabou de dizer “Nada demais”. Parece que ela não sabe o tamanho da merda que isso pode dar.
- Tá tudo certo agora. E eu aceitei a proposta do Stephen. Vou tentar seguir fazendo as duas coisas, mas, se eu não der conta, pulo fora daqui. Se eu tiver que voltar depois, quero sua vaga, já vou logo avisando... - Brinquei. Ela não riu. Pessoinha rabugenta.
A conversa teria continuado, mas parou naquele instante, após o chefe de Paige chamá-la em sua sala. Um dia cansativo a esperava.
Algum tempo depois, enquanto eu estava em meu segundo intervalo, meu celular tocou. Era Abraham, irmão de Stephen.
- E aí, camarada, que tal uma reuniãozinha quarta à noite? Stephen quer falar com você.
Eu sabia exatamente o que significava essa “reuniãozinha”. E eu não tinha a menor intenção de recusar o convite.

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