segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Linhas Paralelas - Parte 9a

Ele é muito estranho, esse garoto. Não, muito não é o bastante. Johnny é completamente estranho. Ainda tô tentando entender qual é a daquele caderno. Ah, dane-se, tenho coisas mais importantes pra fazer. Melhor arrumar a casa antes que meus pais cheguem. Essa sala tá uma bagunça... Maldito seja o projeto em dupla de química. Detesto ficar dependendo dos outros. Posso muito bem tirar a nota máxima sozinha. Fazendo o trabalho com uma mão só. Se eu não ficar com nota boa, eu mato aquele garoto. Eu juro que mato. Droga, alguém resolveu chegar mais cedo, e a casa ainda não tá toda arrumada. Por quê logo hoje a empregada tirou folga?! Ótimo, esqueceram a chave de casa. Vou ter que abrir a porta. Meu pai e mais dois caras. Devem ser colegas dele. William Carlinbrook, ex aluno de Harvard, geneticista renomado, e completamente esquecido quando o assunto é "chaves da casa". "Oi, filha... Sua mãe já chegou?" E, quando o assunto é "sua esposa", aparentemente, ele também é esquecido "Ãh... Não. Ela não viajou? Só volta no meio da semana" "Ah... É, certo, certo. Tá... Só isso, por agora. Pode ir fazer suas coisas. Tenho uma.. Ãh... Reunião importante agora, com esses dois senhores. Não quero ser incomodado". Assenti, embora percebendo que alguma coisa não tá muito certa. Espero que esteja tudo bem no trabalho. Não quero ter que me mudar de novo tão cedo. Subi ao meu quarto e iniciei minha rotina diária de estudos. 4 horas que passam na velocidade de uma. E tava tudo indo bem, até que comecei a ouvir uns barulhos estranhos, vindos do primeiro andar. Eu preciso saber o que tá acontecendo. Merda. Desci o mais silenciosamente que pude, e fui tentar ouvir o que se passava no escritório de meu pai. "Ora, Will... Pra quê dificultar as coisas, camarada? Era só ter dito sim, que iríamos buscar a menina e você nunca mais ia nos ver. Mas nããão! Você teve que nos desafiar... Sério, eu não queria ter te amarrado". Não sei o que deu em mim, mas bati na porta, pedindo que a abrissem. "Olha só..." Começou a dizer o mais alto dos homens desconhecidos, a mesma voz que ouvi instantes antes. "Ela veio nos visitar. Patrick, segura a bizarrinha" "NÃO! Não... Por favor... Não a levem... É minha filha, por favor..." "Sabe, Will... Eu nunca gostei da sua voz" Eu não conseguia enxergar nada, enquanto tentava me desvencilhar do outro homem, o tal de Patrick. Mas conseguia ouvir. E tudo o que eu ouvi foi um estrondo, absurdamente alto. Teria sido um...? Desmaiei. No que pareceram segundos depois, acordei, e ainda não conseguia enxergar quase nada. Eu sabia apenas que estava deitada numa cama, mas não sabia exatamente onde. Por sorte, sou mais inteligente que esses caras. Eles não acharam o meu celular, escondido dentro da meia. Talvez nem tenham procurado. Imbecis. Olhei o horário. Três da manhã. Eu poderia tranquilamente ligar pra polícia, se soubesse onde estou. Merda. E se... Não, não, definitivamente não. Pra quê? Ele não vai poder me ajudar. Talvez... Se ele for até minha casa, e procurar por pistas. Eles sempre deixam pistas. É, talvez. É uma ideia profundamente estúpida, mas não tenho nenhuma melhor no momento. É isso. Vou ligar pra ele. Barulho de chave. Tem alguém abrindo a porta. Merda, merda, me ouviram acordada. Merda. "Porra, Johnny, atende", disse, baixinho, esperançosa.

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