domingo, 25 de setembro de 2016

Nunca teve um nome. Continuará a não ter - Parte 2

Já se passaram uns 10 minutos, desde que corri da pizzaria amaldiçoada. Com certeza, tinha algo na pizza, não é possível. Algum alucinógeno no tempero, coisa assim. Se bem que eu já estava doidão antes, por isso me atrasei. É, foi isso, eu ainda tô sob efeitos das drogas. E preciso fugir rápido daqui. Buchanan ainda tá aí dentro. Ao meu lado, ainda está a mulher, Roxanne. Não entendo o porquê. E ela fica me encarando, com esses olhos enormes. Lindos, mas enormes. Os longos cabelos negros descendo pelas costas, cabelos tão negros quanto sua pele é alva. Os lábios vermelhos de batom, o vestido negro.. Ah, chega. Não vou ficar aqui babando. Não agora, enquanto tem um cara do outro lado da parede querendo minha cabeça. Comecei a pensar num plano de fuga, tentar dar a volta no restaurante e pegar meu velho carro, mas, antes que eu pudesse falar algo, Roxanne, como se tivesse lido minha mente, me puxou dizendo "Tenho uma ideia melhor, venha". Segui-a pelo entorno do restaurante, seguindo recomendações como "pare" e "se abaixe" (que caíram maravilhosamente bem), até chegar na porta da frente. Talvez a tal "ideia melhor" dela fosse ela tomar o controle da situação. Convencida. Mas, fiquei calado. Melhor pra minha segurança. Comecei a caminhar em direção ao meu carro, mas ela me parou. "Seu carro não. Vamos na minha moto". Muito convencida. "Porque?", perguntei. "Seu carro é velho". Estava começando a não achá-la mais tão bela assim. Ninguém fala mal do meu carro, muito menos uma prostituta, pensei. Mas não foi uma boa. Roxanne pareceu ler minha mente mais uma vez, fez uma cara feia, mas nada disse. Subiu na moto - Vermelha, modelo do ano, bem bonita, embora não me interesse nem um pouco por motos, devo admitir -, pôs o capacete, e me mandou subir. Eu poderia ter me recusado, dito inúmeras coisas, mas preferi ficar quieto e obedecer. Era fato, a mulher estava no comando. Que merda. Roxanne me entregou um capacete, e o coloquei. Ela deu a partida, e, assim, viajamos de moto, por uma meia hora, talvez. Chegamos num local afastado, onde praticamente só existiam árvores. Mas, ao longe, era possível avistar um castelo. Um castelo imenso. Descemos da moto, e Roxanne se virou para mim, dizendo que dali em diante teríamos que caminhar. Mais uma meia hora, segundo ela. Assenti, e começamos a andar, em direção ao castelo, numa irregular estradinha de terra. "De quem é o castelo?", perguntei. "Carlo". Carlo era o Sr. Andretti, meu chefe, o morcegão. "O que.. aconteceu na pizzaria... foi..." "Real? Claro que sim, idiota. Carlo é meu chefe, e, sim, ele é um vampiro. Somos parte de um.. grupo especial de pessoas, com.. digamos, habilidades especiais". Monstros, você quis dizer, né, bonitinha, pensei comigo mesmo. "Não gostamos desta nomenclatura, Senhor Nichols. É, eu ouvi o que o senhor disse aí, dentro da sua caixola. Eu posso entrar nas mentes das pessoas quando quiser". Ah, legal, muito legal. Mais legal vai ser pro cara que casar com ela. Se alguém casar com ela um dia. "Sei também que está se perguntando o que está acontecendo, porque o senhor está aqui, não é, Sr. Nichols?" Concordei com um aceno de cabeça. "Pois bem.. Não posso te dizer muito agora, mas, achamos que o senhor pode vir a ser muito útil para nós, apesar de ser um mortal". Ela usou a palavra "mortal". Então... "Quantos anos você tem?", perguntei. "Trezentos e oitenta e sete". Eu ri. Só podia ser sacanagem comigo. Esses italianos prepararam uma pegadinha, só porque me atrasei. Certeza. "Do que está rindo? É sério... Tome. Pegue esta faca, e tente me ferir". "O quê? Você tá louca?" "Não. Agora, vá, enfie esta faca na minha barriga". "Não, faça você mesma, louca". Devolvi a faca e continuei andando. Ouvi um grito de dor e olhei pra trás. A retardada enfiou a porra da faca na barriga. Agora, tá caída no chão. Merda, merda, merda. Mais um crime pra minha lista na Interpol, assassinato. Certeza. Corri de volta, e arranquei a faca das mãos de Roxanne. Havia muito sangue. Ela não piscava. Merda. De repente, ela começou a tossir, piscou os olhos, e eu a ajudei a levantar. O sangue da barriga havia parado de sair, e não havia mais ferimento. E nem a perfuração no vestido. Vou ter que trocar de fornecedor, minhas drogas estão estragadas. "Agora acredita, Sr. Nichols?". Fiquei paralisado, sem saber o que falar. "Venha, vamos andando. Ainda temos um bom caminhho pela frente". Andamos por mais 10 minutos, até chegar no portão do castelo. Era realmente muito grande. Roxanne apertou o interfone, se identificou, e o portão se abriu. Mais alguns metros até a porta, que se encontrava fechada. Roxanne bateu, três vezes. "Está preparado?", ela me perguntou. Bom, estou, sim, pensei (e sabia que ela iria ouvir). Ou serei devorado por criaturas sobrenaturais, ou eu vou acordar no meu apartamento, caído no chão, com a cara no meu próprio vômito. O que for, estou preparado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário