Já se passaram uns 10
minutos, desde que corri da pizzaria amaldiçoada. Com certeza, tinha
algo na pizza, não é possível. Algum alucinógeno no tempero,
coisa assim. Se bem que eu já estava doidão antes, por isso me
atrasei. É, foi isso, eu ainda tô sob efeitos das drogas. E preciso
fugir rápido daqui. Buchanan ainda tá aí dentro. Ao meu lado,
ainda está a mulher, Roxanne. Não entendo o porquê. E ela fica me
encarando, com esses olhos enormes. Lindos, mas enormes. Os longos
cabelos negros descendo pelas costas, cabelos tão negros quanto sua
pele é alva. Os lábios vermelhos de batom, o vestido negro.. Ah,
chega. Não vou ficar aqui babando. Não agora, enquanto tem um cara
do outro lado da parede querendo minha cabeça. Comecei a pensar num
plano de fuga, tentar dar a volta no restaurante e pegar meu velho
carro, mas, antes que eu pudesse falar algo, Roxanne, como se tivesse
lido minha mente, me puxou dizendo "Tenho uma ideia melhor,
venha". Segui-a pelo entorno do restaurante, seguindo
recomendações como "pare" e "se abaixe" (que
caíram maravilhosamente bem), até chegar na porta da frente. Talvez
a tal "ideia melhor" dela fosse ela tomar o controle da
situação. Convencida. Mas, fiquei calado. Melhor pra minha
segurança. Comecei a caminhar em direção ao meu carro, mas ela me
parou. "Seu carro não. Vamos na minha moto". Muito
convencida. "Porque?", perguntei. "Seu carro é
velho". Estava começando a não achá-la mais tão bela assim.
Ninguém fala mal do meu carro, muito menos uma prostituta, pensei.
Mas não foi uma boa. Roxanne pareceu ler minha mente mais uma vez,
fez uma cara feia, mas nada disse. Subiu na moto - Vermelha, modelo
do ano, bem bonita, embora não me interesse nem um pouco por motos,
devo admitir -, pôs o capacete, e me mandou subir. Eu poderia ter me
recusado, dito inúmeras coisas, mas preferi ficar quieto e obedecer.
Era fato, a mulher estava no comando. Que merda. Roxanne me entregou
um capacete, e o coloquei. Ela deu a partida, e, assim, viajamos de
moto, por uma meia hora, talvez. Chegamos num local afastado, onde
praticamente só existiam árvores. Mas, ao longe, era possível
avistar um castelo. Um castelo imenso. Descemos da moto, e Roxanne se
virou para mim, dizendo que dali em diante teríamos que caminhar.
Mais uma meia hora, segundo ela. Assenti, e começamos a andar, em
direção ao castelo, numa irregular estradinha de terra. "De
quem é o castelo?", perguntei. "Carlo". Carlo era o
Sr. Andretti, meu chefe, o morcegão. "O que.. aconteceu na
pizzaria... foi..." "Real? Claro que sim, idiota. Carlo é
meu chefe, e, sim, ele é um vampiro. Somos parte de um.. grupo
especial de pessoas, com.. digamos, habilidades especiais".
Monstros, você quis dizer, né, bonitinha, pensei comigo mesmo. "Não
gostamos desta nomenclatura, Senhor Nichols. É, eu ouvi o que o
senhor disse aí, dentro da sua caixola. Eu posso entrar nas mentes
das pessoas quando quiser". Ah, legal, muito legal. Mais legal
vai ser pro cara que casar com ela. Se alguém casar com ela um dia.
"Sei também que está se perguntando o que está acontecendo,
porque o senhor está aqui, não é, Sr. Nichols?" Concordei com
um aceno de cabeça. "Pois bem.. Não posso te dizer muito
agora, mas, achamos que o senhor pode vir a ser muito útil para nós,
apesar de ser um mortal". Ela usou a palavra "mortal".
Então... "Quantos anos você tem?", perguntei. "Trezentos
e oitenta e sete". Eu ri. Só podia ser sacanagem comigo. Esses
italianos prepararam uma pegadinha, só porque me atrasei. Certeza.
"Do que está rindo? É sério... Tome. Pegue esta faca, e tente
me ferir". "O quê? Você tá louca?" "Não.
Agora, vá, enfie esta faca na minha barriga". "Não, faça
você mesma, louca". Devolvi a faca e continuei andando. Ouvi um
grito de dor e olhei pra trás. A retardada enfiou a porra da faca na
barriga. Agora, tá caída no chão. Merda, merda, merda. Mais um
crime pra minha lista na Interpol, assassinato. Certeza. Corri de
volta, e arranquei a faca das mãos de Roxanne. Havia muito sangue.
Ela não piscava. Merda. De repente, ela começou a tossir, piscou os
olhos, e eu a ajudei a levantar. O sangue da barriga havia parado de
sair, e não havia mais ferimento. E nem a perfuração no vestido.
Vou ter que trocar de fornecedor, minhas drogas estão estragadas.
"Agora acredita, Sr. Nichols?". Fiquei paralisado, sem
saber o que falar. "Venha, vamos andando. Ainda temos um bom
caminhho pela frente". Andamos por mais 10 minutos, até chegar
no portão do castelo. Era realmente muito grande. Roxanne apertou o
interfone, se identificou, e o portão se abriu. Mais alguns metros
até a porta, que se encontrava fechada. Roxanne bateu, três vezes.
"Está preparado?", ela me perguntou. Bom, estou, sim,
pensei (e sabia que ela iria ouvir). Ou serei devorado por criaturas
sobrenaturais, ou eu vou acordar no meu apartamento, caído no chão,
com a cara no meu próprio vômito. O que for, estou preparado.
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