domingo, 25 de setembro de 2016

Deveria ser uma comédia, mas nem é uma história tão engraçada assim - Parte 4

 Quando chegou a noite de quarta-feira e eu entrei no hotel onde dois dos meus grandes amigos estavam hospedados, pensei outra vez, e percebi que poderia ter deixado esse evento de lado. As definições de “reuniãozinha” de Abraham e Stephen havia sido um pouco... modificadas ao longo do tempo. Filhos da puta.
Eles armaram uma festa.
No hotel inteiro. Na porra do hotel inteiro.
Como se o fato dos dois serem podres de ricos já não fosse óbvio, os dois fecharam o hotel só pra eles. E organizaram um evento, pra divulgar o novo projeto de Stephen. Projeto este no qual eu havia acabado de ser chamado pra roteirizar. Nem assinei contrato nem nada ainda, e o cara já tá me botando em furada. Puta merda.
E, pra completar, eu trouxe a minha irmã.
- Stephen tá de sacanagem... - Ouvi Mary resmungar, e fui obrigado a concordar. Depois de alguns minutos, encontramos o mais velho dos irmãos.
- Que diabos é isso? Qual o problema de vocês?!
- Ei, relaaaxa, cara... É só uma festinha, vai se divertir, rapaz – Respondeu um embriagado Abraham.
- Onde tá o Stephen? Vou falar com ele e voltar pra casa.
- Ele... Ãh... Tá por aí, cara... E, sei não, mas acho que você não vai deixar a Mary aqui sozinha, né?
Eu não havia percebido, mas Mary já não me acompanhava. Agora minha querida irmã mais nova se encontrava bebendo, e dançando com um cara qualquer. Voltei a ver uma Mary Ann adolescente.
Ótimo. Precisava encontrar Stephen, torcer pra ele estar sóbrio, e depois convencer Mary a voltar pra casa. Tarefas fáceis, noite agradável. É sempre uma merda ser o chato da festa.
O hotel estava abarrotado de gente. Em cada andar, gente bêbada tropeçando, um ou outro quarto sendo usado... Maldito elevador parado. Tive que subir de escadas até a cobertura, para achar Stephen. Algum casal que não percebeu os quartos vazios, suponho.
Quando o encontrei, ele conversava com alguém, provavelmente um jornalista, a julgar pelo seu gravador. Sóbrio, graças a … Graças a ele mesmo e sua opção de dar entrevistas sem estar bêbado mesmo estando numa festa, eu acho.
-... Ah, e aqui está o cara que vai dar início a tudo isso. Chega aí, James, vem dar uma palavrinha.
Desgraçadinho.
Entrei no quarto, e pude ver o jornalista claramente, já que antes ele estava de costas. Andrew Stanford, ex colega de trabalho. Criou seu website e hoje é conhecido como “grande jornalista especializado” em cinema. Um jornalista de merda, mas um cara legal. Acho que o espanto dele em me ver foi maior do que o meu em vê-lo. Bem maior. O cara levantou e me puxou pra um abraço.foi Um abraço eu ganho, mas a porra duma proposta de emprego no site, nada, né. Babaca.
Antes que Stephen pudesse soltar alguma gracinha – algo típico dele -, me desvencilhei de Andrew e comecei a falar.
Mas só comecei mesmo.
A verdade é que sou um roteirista iniciante ainda não oficialmente contratado pra refazer um trabalho de outro roteirista, que ainda não li. Se a entrevista não for sobre isso, eu sei o que falar. Na maioria das vezes.
- Ãh... preciso falar com meu camarada aqui em particular, nos vemos depois na coletiva, beleza? - Stephen falou, dirigindo-se a Andrew, assim que percebeu minha falta de assunto. Pena que foi um pouco tarde, e devo ter feito papel de idiota na frente de um cara mais jovem que já foi meio que um subordinado meu. Nunca fui um dos cabeças, mas o cara me ouvia.
Quando Andrew saiu, fechando a porta, Stephen retomou a fala.
- Curtindo a festa, jornalista? - Ele riu. Eu não.
- Não entendo o porquê da festa. Achei que iríamos apenas acertar meu contrato, e eu iria enfim ter uma ideia do que exatamente vou fazer. Aliás, assim que resolvermos isso, eu vou embora. A festa não é minha.
- Hahah, claro que é sua, Jim. Seu aniversário... Lembra? Trinta anos, e tal?
Claro que eu lembro do meu aniversário, sempre cinco dias depois de Mary Ann. Meus aniversários a partir dos seis anos nunca mais foram os mesmos. Sempre comemorados no mesmo dia de Mary Ann, “para economizar”, meus pais sempre disseram. Cresci sem dar a mínima para a data, mas chegar aos trinta era uma ideia que me incomodava, por algum motivo que eu ainda não conhecia. Quase fiquei puto com Stephen, mas me segurei.
- Eu não pedi festa nenhuma, só vim oficializar a proposta de trabalho que você me fez.
- Deixa de ser rabugento, guri. Vamos aproveitar sua festa, e amanhã a gente resolve isso. Prometo. Não tenho poder nenhum sobre seu contrato, isso é com o estúdio, e um almoço tá marcado pra amanhã. Vamos descer, responder uma meia dúzia de perguntas, e beber até não poder mais. - Uma breve pausa. - Bom, essa última parte, deixa comigo.
E eu continuava sem saber absolutamente nada do meu futuro trabalho.
Por enquanto.
Descemos, Stephen e eu, até uma das salas de conferência que o hotel disponibilizava, onde ia rolar a bendita coletiva de imprensa. É um belo hotel, Abraham fez um bom trabalho. Stephen fez um ainda melhor, comprando-o.
A coletiva foi breve, e não muito informativa. Por sorte, não fui obrigado a responder nada. Essa é a sorte de ter um amigo que gosta de falar. Ele fala por dois.
E foi então que finalmente descobri no que eu estava me metendo.
- Uma trama espacial com violência, robôs gigantes, viagens no tempo, samurais e mulheres sensuais seminuas – Definiu Stephen quando perguntado sobre uma sinopse de seu próximo projeto.
Um episódio de Doctor Who com duas horas de duração, com classificação indicativa pelo menos 16, e mais dinheiro.
Puta que pariu.

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