segunda-feira, 26 de setembro de 2016

O Livro dos Enigmas - Parte 10

Um tempo a sós com meu filho, era tudo o que eu queria e precisava naquele momento. Rob já tinha 12 anos. Fiquei semanas sem vê-lo, seu aniversário passou, e eu não estava lá. Mas, naquele momento, eu o abraçava, como se tivessem se passado anos desde a última vez em que nos vimos. Bom, na verdade, esse tempo não foi a sós, pois Charlie, o Ogro, estava por perto, de guarda. Quando comecei a ficar com raiva de sua presença ali, pois tinha um plano para contar a meu filho, a voz de Cindy surgiu em minha mente. "Vincent, escute. Só escute. Charles está do seu lado. Nós namorávamos, e ele jurou para mim que te ajudaria, se eu não pudesse mais. Eu confio nele. Por favor, faça o mesmo. E, me desculpe. Me desculpe por ter partido sem dizer adeus. Mas era pra ter acontecido assim. Seu tio teria me matado da mesma maneira, depois. Minha vida foi tirada no lugar de muitas outras. Quanto menos gente morrer, melhor. Vincent, ajude-os, todos, por mim". "Ei, grandão", disse, olhando para Charlie. "Eu sei da verdade. Eu não gosto muito de você, mas sei da verdade. Você vai me ajudar, não vai?" "Sim, senhor líder. Eu prometi a ela, e cumprirei", ele respondeu, simples. Apesar de brutamontes, Charlie era um homem bom, afinal. "Bom, Rob, Grandão, o plano é o seguinte: Eu vou levar meu tio para a cidade. Eu sei, parece loucura, mas eu tenho que fazê-lo pensar que me tem nas mãos, para fazer o que pretendo. Sei que agora nossa cidade está sob controle de Charlie, já que aquele cagão do Mike foi assassinado. Bem feito, falando nisso. Enfim, Charlie, você é o líder deles. Traga-os para o nosso lado, liberte os que foram presos lá. Nós vamos para a guerra". Se passaram 3 dias desde aquela pequena reunião com Rob e Charlie. Finalmente chegou o dia em que eu levaria meu tio e seu exército para o Paraíso. O Paraíso da Guerra. Viajamos num grande avião até a floresta amazônica, pois Charlie era o único que possuía aquelas habilidades e que conhecia o local, até o momento. Meu tio e sua organização fizeram experimentos com Charlie e conseguiram duplicar sua habilidade e injetá-la em soldados. Ao lá chegar, Ronald soltou minhas algemas e ordenou para que eu descesse com Charlie, com arma em punho e meu filho sob sua mira. "Vá, rapaz. Desça com o grandalhão. Desça e permita minha entrada, ou a criança morre". Claro que ele não iria matá-lo, mas, mesmo assim, o medo tomou conta de mim. Desci, junto com Charlie. Estava tudo caminhando bem. Eu e Charlie poderíamos organizar nosso exército com o pretexto de estarmos indo até o "local sagrado" em que eu anunciaria que meu tio e seu exército poderiam entrar na minha cidade. Tolos. Isso não existia. Boatos estúpidos... hoje em dia, todo mundo acredita em qualquer um. É impressionante. Demoramos duas horas para voltar para o mundo de cima. Nosso exército preparava a armadilha, na cidade, enquanto eu fazia um discurso improvisado e estúpido sobre "os deuses do Paraíso". Inventei tudo ali, na hora. Foi fácil. No momento em que descemos, todos, eu, Charlie, o exército estúpido e Rob, o caos começou. Meus soldados usavam seus poderes, e o exército inimigo disparava com metralhadoras. Consegui tirar Rob da mira da arma de meu tio, o peguei nos braços, e corri com ele, fugindo dos tiros do velho louco. De repente, os tiros pararam. Olhei para trás, e vi Charlie enforcando o coroa, sem dó nem piedade. Grande cara, grande cara. Um dos nossos, que detinha o poder de aumentar o som de sua voz, como se fosse um trovão, anunciou. "Humanos, seu líder está morto. Os que ainda vivem, tem duas opções: juntarem-se a nós, ou continuarem lutando, o que vai ser pior para vocês. Deixem nossa cidade em paz. Saiam do Paraíso". Segui com meu filho até um local afastado, coloquei-o no chão, e tirei algo do meu bolso. O livro de meu velho pai. Achei que ele ia gostar de ler.

 Agora, falo direto com você, Rob. Sei que não tenho dado notícias há anos, que não te deixei ficar aqui na cidade, mas você precisava de paz. Não quis expor você a outros riscos que poderiam ter vindo, e vieram. Agora, depois de 10 anos, Charlie está levando este diário para você. Espero que ele sirva para você assim como o livro de seu avô serviu para mim. Provavelmente, estarei morto quando você chegar ao fim deste caderno. Fui afetado por uma doença incurável. Lamento. Lamento, ter partido sem poder dizer Adeus. Mas, se você quiser, seu lugar é aqui. Você já está bem grandinho, já pode cuidar disso. Mas, apenas se quiser. Saiba que, se aceitar, estará assumindo um compromisso para toda a vida, cheio de riscos. E, por favor, cuidado. Os inimigos ainda existem. E estão por toda parte.

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